2
Compartilhamentos
Redefinição de Impressão Google+

Sempre que eu falo algo sobre a Licenciatura em Biblioteconomia, muitas pessoas curiosas me questionam indagando sobre do quê se trata, onde esse profissional vai atuar, quem é esse profissional formado pelo curso. Confesso que quando eu entrei na UNIRIO (Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro), também tive minhas inquietações e em algumas vezes até duvidei sobre a relevância desse profissional para a sociedade. E com muita propriedade, foi com os próprios alunos do curso que aprendi em nossas conversas em sala de aula e nos corredores da universidade, íamos refletindo sobre a atuação e formação desse profissional.

O curso já existiu na UNIRIO entre 1986 e 1991, porém, teve o projeto político pedagógico reformulado em 2009 e a primeira turma no novo currículo iniciou em 2010, sendo que esse ano terá os primeiros formados. A licenciatura em Biblioteconomia já teve em outras universidades no país, mas atualmente a UNIRIO é a única que possui o curso em andamento e esse ano formará os primeiros licenciados que desbravarão muitos caminhos.

Na minha dissertação de mestrado pesquisei sobre a identidade dos bibliotecários e foi possível compreender que de acordo com a Sociologia das Profissões, é possível verificar como se forma uma profissão, pois ela nasce a partir de uma necessidade da sociedade onde vai se construindo e se legitimando conforme explicam Andrew Abbott (The system of professions), Eliot Freidson (Renascimento do profissionalismo), Marli Diniz (Os donos do saber) e Maria Lourdes Rodrigues (Sociologia das Profissões).

Entre esses autores existe um consenso de uma sequência de eventos associados ao desenvolvimento das profissões, a saber: criam-se, em primeiro lugar, escolas profissionais, surgem associações profissionais que procuram garantir para seus membros vantagens e privilégios ocupacionais com base nas credenciais educacionais através da mobilização do apoio do Estado que cria para os profissionais ‘reservas de mercado’ na burocracia pública, isto é, posições e cargos reservados aos diplomados pelas escolas profissionais; as entidades de classe mobilizam-se para ampliar a ‘reserva’ e, com o apoio do Estado para regulamentar as profissões, criando monopólio da prestação de serviços.

Nesse contexto, duas instituições legitimam as profissões: por um lado, as entidades de classe que mobilizam e garantem os privilégios da profissão e por outro, o Estado que apóia essas entidades e regulamenta a profissão. Para Abbott, cada profissão evolui de forma diferente e está em constante crescimento sofrendo influências do meio. Esse autor considera que as profissões fazem parte de um sistema e são interdependentes. Cada profissão mantém o domínio e o controle de uma “jurisdição” dedicando-se a um conjunto de tarefas.

A resistência ou a fragilidade dos laços juridicionais são consequências da prática profissional. As profissões estão em permanente disputa pelo domínio de uma jurisdição específica para garantir seu espaço de trabalho. Pierre Bourdieu em Os três estados do capital cultural usa o conceito de campo para designar os nichos da atividade humana onde se desenrolam as lutas pela detenção do poder simbólico, que produz e confirma significados, isto é, é um espaço social de dominações e de conflitos.

Dessa forma, percebemos que as profissões em geral estão em constante luta para garantir seus espaços, suas regulamentações, seus privilégios, domínios e suas jurisdições. No Bacharelado em Biblioteconomia isso não é diferente. Vemos que a profissão passou por essas etapas da profissionalização. Segundo Augusto Cesar Castro (História da biblioteconomia brasileira) e Zita Catarina Prates de Oliveira (Um estudo da auto-imagem profissional do bibliotecário), houve a criação do primeiro curso de Biblioteconomia em 1911, a criação de associações profissionais a partir de 1938, a legislação profissional em 1962 assegurando o monopólio de seus serviços, a elaboração do Código de Ética da Profissão aprovado em 1963 pela FEBAB, a elaboração do currículo acadêmico enquadrando a Biblioteconomia em nível de ensino superior em 1962, o desenvolvimento de corpo de teoria a partir de 1970 com criação de cursos de pós-graduação, o aumento na produção científica especializada em Biblioteconomia através da publicação de periódicos científicos. Sendo que até hoje a profissão ainda encontra-se desbravando caminhos, abrindo novos campos de atuação, consolidando as produções científicas e revisando currículos até porque a profissão é produto do meio e, como vimos, surge a partir de uma necessidade da sociedade, por ela sofre mudanças e se transforma de acordo com o meio.

Na Licenciatura em Biblioteconomia creio que ocorrerá o mesmo. Ainda teremos a primeira turma de alunos formados na UNIRIO, onde junto com a universidade os alunos buscarão oportunidades de atuação. Terá de ser criada uma legislação para respaldar e proteger essa atuação, haverá a necessidade das entidades de classe (Conselho Federal, Associações e Sindicatos) acolherem esses profissionais para garantir para seus membros, através da mobilização do apoio do Estado, vantagens e privilégios ocupacionais com base nas credenciais educacionais cedidas pela universidade, e o próximo passo será o Estado criar para os profissionais ‘reservas de mercado’, posições e cargos reservados aos diplomados pelas universidades.

A grande questão que paira no ar é onde que o Licenciado em Biblioteconomia vai atuar sendo que já existe o bacharel em Biblioteconomia e a Lei 4.084 de 30 de junho de 1962 garante o exercício da profissão de Bibliotecário aos Bacharéis em Biblioteconomia, portadores de diplomas expedidos por Escolas de Biblioteconomia de nível superior, oficiais, equiparadas, ou oficialmente reconhecidas.

Para entender isso, nada melhor do que informação e muitas delas estão disponíveis no site da UNIRIO onde é possível conhecer o projeto político pedagógico do curso que se apresenta com “uma sólida fundamentação nos conhecimentos da área pedagógica, integrada de maneira orgânica com os da área de Biblioteconomia, entendendo o processo de ensino-aprendizagem como um todo, partindo das relações pedagógicas que estruturam o curso, a fim de atuar como um profissional consciente e responsável”.

Sobre o perfil do aluno, espera-se que ele apresente competências relativas à compreensão do papel social da escola, ao domínio do conhecimento pedagógico e de investigação que possibilitem o aperfeiçoamento da prática pedagógica e competências referentes aos conteúdos específicos da Biblioteconomia, seus significados em diferentes contextos e sua articulação interdisciplinar.

De acordo com o projeto político pedagógico da UNIRIO (2009), o Licenciado em Biblioteconomia possui um campo de atuação amplo, crescente e em transformação contínua, sendo o magistério a principal área de atuação, possibilitando o desenvolvimento de suas atividades em instituições de ensino fundamental e médio dos sistemas federal, estadual e municipal como também em instituições pertencentes ao setor privado, principalmente no âmbito da formação técnico-profissional. Entretanto, a atuação desse profissional não está restrita somente às escolas.

Será esse profissional que terá competências desenvolvidas para atuar na formação de técnicos em Biblioteconomia a fim de auxiliar os Bibliotecários nas atividades de organização, recuperação, disseminação, acesso e mediação da informação em uma sociedade que exige cada vez mais pessoas qualificadas já que a informação é o insumo que move a economia, o mercado, a competitividade nas empresas, a inovação, o desenvolvimento e evolução da própria sociedade.

Dessa forma, percebemos um trabalho colaborativo que poderá existir entre Licenciados, Bacharéis e Técnicos em Biblioteconomia a fim de desenvolver pessoas letradas e competentes informacionalmente para promover as mudanças necessárias na sociedade frente aos diversos recursos e fontes de informação que surgiram com a internet e outros suportes de informação no século XXI.

Além disso, percebemos a importância dos Licenciados em Biblioteconomia na própria formação de Bibliotecários, visto que os Licenciados têm competências desenvolvidas ao longo do curso que o tornam capazes pedagogicamente de lecionar com muito mais propriedade sendo profissionais completos para formação desses bacharéis também. Outro caminho é seguir pelo empreendedorismo e criar empresas para prestação de serviços educacionais, de pesquisas e formação continuada para bibliotecários, técnicos e auxiliares de bibliotecas.

Enfim, são novos campos que se abrem para a Licenciatura e outros com certeza ainda serão desbravados assim como acontece com o Bacharelado em Biblioteconomia. As profissões estão em constante disputa por espaços tentando garantir suas jurisdições e campos como Bourdieu defende, e o que importa nesse momento é valorizar esses profissionais e incentivar a abertura de novos campos de atuação, buscando a consolidação dessa linda profissão, tanto dos Bacharéis quanto dos Licenciados em Biblioteconomia, pois temos uma responsabilidade social muito grande que merece o comprometimento e dedicação dos profissionais que abraçaram essa profissão e tem orgulho de dizer: Eu sou bibliotecário.

Cursos online de qualificação em Biblioteconomia e Ciência da Informação. Acesse!

Comentários

Comentários

Postagem anterior

Roquette-Pinto: o pai da Radiodifusão Educativa no Brasil

Próximo post

Por que ler ficção?

4 Comentários

  1. 19 de agosto de 2014 a 22:01 —

    Parabéns, Daniela!!! Acredito mesmo que está surgindo uma nova Biblioteconomia. Nova e fundamental. E essa nova Biblioteconomia passa necessariamente pela Pedagogia. É um caminho árduo, mas que vai render muitos frutos.

  2. Gustavo
    21 de agosto de 2014 a 9:08 —

    Muito importante. Sucesso para este curso!

  3. Cléber Santos
    27 de agosto de 2014 a 17:06 —

    Perdão pela ignorância, mas não vi no texto uma justificativa plausível para a existência de uma licenciatura em Biblioteconomia. Pensar na "importância dos Licenciados em Biblioteconomia na própria formação de Bibliotecários, visto que os Licenciados têm competências desenvolvidas ao longo do curso que o tornam capazes pedagogicamente de lecionar com muito mais propriedade sendo profissionais completos para formação desses bacharéis" parece rasa no sentido de que a formação do bacharel é mais sólida (em qualquer área) e as questões pedagógicas não podem ser colocadas em detrimento de outras questões linguísticas, sociológicas, políticas, entre outras.
    Outro ponto que parece de fraca sustentação é a questão da reserva de mercado. Embora isso aconteça com o bacharelado em Biblioteconomia, qual a razão disso? A mim, a impressão é que vivemos em um sistema de cotas, aonde há necessidade de uma reserva específica expressa em lei pelo fato de não sermos capazes de mostrar nosso real trabalho/valor. Se um pedagogo, comunicólogo, engenheiro ou qualquer outro profissional desempenha determinada atividade melhor que eu, qual a razão de proibir o indivíduo a assumir um cargo?
    Não compreendi, pelo texto, a tentativa de exposição dessas falas.

  4. […] Fonte: Revista Biblioo […]

Deixe uma resposta