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Por Olívia de Cássia, da Tribuna Independente.

Segundo especialistas, hoje se pode ler mais, porém com qualidade duvidosa de escrita e informação.

Apesar da grande oferta de informações por meio virtual, na avaliação de especialistas, quem tem o hábito da leitura não abdica da aquisição de livros. Foto: tribunahoje.com
Apesar da grande oferta de informações por meio virtual, na avaliação de especialistas, quem tem o hábito da leitura não abdica da aquisição de livros. Foto: tribunahoje.com

A juventude brasileira está se tornando muito rapidamente numa geração sem livros; algumas pessoas sem leitura e outras sem saber interpretar o que leem.  O isolamento da mocidade, que raramente lê desde o livro ao jornal, tem sido alvo de preocupação e advertência dos educadores. Mesmo assim, na avaliação de especialistas, quem tem o hábito da leitura não abdica da aquisição de livros.

Edise Leite da Silva Costa trabalha em uma livraria de um shopping de Maceió e disse que apesar da facilidade da internet, o leitor tradicional gosta de folhear, de sentir o cheiro do livro, de marcar com marcador de texto e escrever do lado. “O leitor que tem o hábito da leitura não abre mão dela; por conta disso estamos vendendo bem, não caiu o movimento, por causa da internet, até porque as livrarias também vendem nos sites”, destaca.

Segundo Edise Leite, as vendas variam muito e depende do período: “Livros técnicos vendem muito no começo do ano, como os de Direito, os romances também; tudo a gente vende bem. As crianças chegam aqui e compram bastante, principalmente O Diário do Banana (de Jeff Kinney); eles adoram, desde o pequeno ao maior”, pontua.

José Laelson da Silva é pastor, professor, advogado e é frequentador assíduo de livrarias e avalia que os adolescentes de hoje leem mais do que os do passado. Segundo ele, isso se dá porque os livros têm conteúdos muito atrativos, coloridos, mas muitas vezes o conteúdo é muito raso.

“A leitura é muito superficial hoje em dia, tenho certeza que 90% dos adolescentes não leem em casa os livros didáticos; praticamente apenas na escola para fazer determinadas atividades. Esses livros mais suaves os adolescentes estão consumindo muito, embora deixem um nível de conhecimento muito baixo. Por outro lado tem o lado positivo do estímulo e o hábito da leitura”, avalia.

Teólogo critica banalização nas redes sociais e leitura sem aprofundamento

O professor e teólogo Laelson da Silva entende que há muita banalização nas redes sociais e que os adolescentes estão mais voltados para os livros de ficção e da área infanto-juvenil. “Isso é bom, apesar de ser uma leitura meio vazia, sem muito conteúdo, mas de uma forma é uma maneira de desenvolver o hábito da leitura”, destaca.

A respeito do que se escreve nas redes sociais o professor avalia que no futuro nós vamos ter gramáticas desse tipo de grafia. “É uma forma rápida de se comunicar e os adolescentes foram os primeiros a utilizar, mas os adultos também, nessa vida corrida e agitada, se utilizam. Eu, particularmente, me utilizo dessa ferramenta e muitas vezes quando recebo algum texto virtual abreviado fico meio perdido e vejo a necessidade de ter um dicionário, porque é difícil você entender muitas vezes a linguagem das redes sociais”, observa.

Laelson da Silva observa que não aprecia ficção. “Tenho na minha biblioteca poucos livros de ficção, mas são de fundo histórico, mas acho uma perda de tempo, porque esses temas que estão em voga hoje em dia como relacionamentos sexuais, ufologia, Diário de um Banana, é um fenômeno bom para as editoras e os autores, mas para o adolescente, não deixa nada”, ressalta.

José Laelson da Silva avalia que no futuro haverá gramáticas específicas para grafia utilizada nas redes sociais

Foto: Adailson Calheiros
Foto: Adailson Calheiros

Ana Clara tem 12 anos e está cursando o oitavo ano do ensino fundamental. Ela estava na livraria folheando um livro do jornalista e escritor Laurentino Gomes, que ficou famoso como escritor graças à sua autoria do best-seller 1808 – Como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão  e mudaram a História de Portugal e do Brasil, livro que narra a chegada da corte portuguesa ao Brasil.

Ana Clara disse que gosta também de ler sagas como Crepúsculo, As Crônicas de Nárnia, Hary Porter, entre outros da série e ainda costuma ler livros de  John Green, autor de A Culpa é das Estrelas e Cidades de Papel e ficção em geral. “A maioria das minhas amigas gosta de ler, fazemos trocas de livros”, observou Ana.

Médico cirurgião diz que fica triste com a valorização exagerada do celular e do computador

O médico cirurgião Inácio Araújo é de Brasília, mora em Maceió e disse que fica triste porque as pessoas hoje em dia só valorizam celulares e computador: “Você pergunta, seja criança, adolescente ou adulto: quantos livros você leu este ano? Dificilmente tem uma boa resposta”, avalia.

Inácio Araújo reclama que as pessoas não valorizam a leitura e observa que o que mede cultura é a literatura, o livro no dia a dia: “Infelizmente isso está sendo extinto. Sou inimigo número da informática, quando ela se destina ao sentido nocivo. Nas redes sociais se coloca a presidente e o ex-presidente em estado deplorável, com palavrões; isso é o próprio brasileiro não se valorizando”, ensina.

O cirurgião reforça ainda que se você pergunta por algum autor como Augusto Cury (médico, escritor, humanista), não sabem quem ele é: “Ariano Suassuna, desconhecem, você percebe pelas provas do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), um escândalo. É necessário que nós tenhamos a consciência de acordar”, argumenta.

Inácio Araújo critica o fato de as pessoas hoje em dia usarem com exagero o computador e o celular. “Isso está destruindo a família; uma barbaridade. Não sei a quem responsabilizar, infelizmente;  é uma realidade lamentável e vamos ter que conviver com ela.

Inácio Araújo diz ser inimigo número 1 da informática quando ela é nociva

Foto: Adailson Calheiros
Foto: Adailson Calheiros

A jornalista  Patrycia Monteiro  Rizzoto, repórter no jornal Brasil Econômico, mora e trabalha em São Paulo e pelo Facebook disse que tem disposição para ler e-books e livro em papel. “Acho até que aqueles livros de fotografia e artes são melhores de ler em papel do que no tablet. Não sinto que tenha uma meta a cumprir; quando estou interessada, leio um livro de papel atrás do outro”, comenta.

Patrycia Monteiro explica que agora está fissurada no Netflix: “Todo dia assisto filmes, documentários e séries. Vejo muita coisa pelo You Tube também e todos os dias acesso a internet e as redes sociais; com isso abandonei o hábito de ver a TV aberta. Não há mais espaço para ela na minha vida. Ainda leio jornais e revistas, mas tenho 40 anos – estou entre os que ainda têm o hábito de ler o impresso”, explica.

O estudante de Arquitetura e Urbanismo João Igor Macena  tem 22 anos e disse que está lendo o seu sexto livro este ano, mas avalia que faz parte de uma minoria:  “Acho que faço parte de uma minoria, porque quando empresto algum livro demoram de três a cinco meses para ler e acho um absurdo; isso também devido às redes sociais. Uma coisa que criou praticidade foi a partir de leitura on-line; eu já fui adepto e gostei, porém o livro físico não se compara”, avalia.

João Igor Macena observa que está lendo “O leopardo de Jo Nesbo” e admite que antes ele lia mais. “Hoje me perco entre as páginas de redes sociais e acabo diminuindo meu tempo de leitura, mas acredito que isso tenha se tornado algo viral, dá pra perceber até em alguns maus hábitos, como o de publicar frases e textos e denominar como sendo de um autor e na verdade nem se conhece a procedência do texto”, argumenta.

João Igor concorda com a jornalista Patrycia Monteiro e diz que filmes e séries ocupam um bom espaço no seu tempo livre também. “Mas quanto aos livros, me senti uma criança em loja de doces na última feira de livros que eu fui: acho que isso incentiva também o grande público, mas avalio que é um hábito que pode ser passado por alguém. Minha mãe lia desde criança para mim e eu ganhava muitos livros desde pequeno. Convivi com essa realidade e gosto até hoje”, explica.

Jornalista avalia que era digital ampliou a leitura, mas qualidade é duvidosa

O jornalista Marcelo Amorim avalia que, com a era digital, a leitura de livros se amplia por intermédio dos e-books e outras ferramentas como as redes sociais. Segundo o jornalista, a quantidade de informação e leitura se tornou imensamente maior se comparada à época apenas do material impresso, mas a qualidade é duvidosa.

“O livro ainda hoje é lido e comemorado e, com isso, todos nós somos cercados por milhares de informações, diariamente, incluindo conteúdos relevantes para a formação do cidadão crítico e consciente”.  Marcelo Amorim adverte, no entanto, que hoje se pode ler mais, porém com qualidade duvidosa de escrita e informação.

“Eu, particularmente, procuro ler tudo o que tenho acesso, desde o sítio de notícia, o jornal diário, a revista, mas, em maior quantidade, por intermédio dos meios digitais disponíveis pela Internet”, ressalta.

INCENTIVO

O escritor alagoano Daniel Barros mora atualmente em Brasília e disse que acredita que a tecnologia tem favorecido a leitura de crianças e jovens, desde que eles tenham o exemplo e incentivo dos pais, despertando a sua curiosidade.

 “No meu caso, meu filho de seis anos está doido pra ler Dom Quixote e já comprei a edição infantil pra ele. Outro livro que ele quer ler é ‘O velho e o mar’, pois assistiu um curta do livro. Enfim, temos que estimular e tomar cuidado para não tornar uma obrigação, mas sim, um prazer”, argumenta.

A administradora de empresas Zejane Cardoso disse que o hábito da leitura adquire-se na infância: tanto pelo estímulo dos pais quanto pelo exemplo: “Essa foi a minha experiência; hoje meus filhos são grandes leitores e minha neta vai trilhando o mesmo caminho, sendo estimulada desde cedo a conviver com os livros”, destaca.

Professor de Português e Espanhol destaca que é um desafio o estímulo à leitura

O professor de Português e Espanhol Carlos dos Santos destaca que tratar sobre estímulo à leitura de livros na escola é, sem dúvida, uma questão desafiadora para os educadores, até porque, nas entrelinhas, existe limitação de tempo e de conteúdo proposto por tal material didático.

 “Não se pode, em hipótese alguma, apresentar uma discussão ampla com livros de língua estrangeira que, na maioria das vezes, são restritos à Gramática. Sabe-se que são relevantes, uma vez que fazem com que alunos reflitam sobre a própria língua: neste caso, o Português”, destaca.

Carlos dos Santos, que também é doutorando em Letras, observa que, além disso, como contrariedade ao estímulo, em muitos livros não se abordam questões/problemáticas que condizem à realidade do aluno, de sua comunidade. “Percebe-se, atualmente, em sala de aula, que muitos alunos não sentem tal estímulo, por mais que se busquem metodologias”, observa.

Ele destaca que conceitos educacionais e familiares estão se perdendo cada vez mais no Brasil, já que, segundo ele, no espaço familiar, existe uma desestrutura. “A família, desde muito tempo, teve a contribuição no que diz respeito ao acompanhamento educacional de seus filhos, porém essa realidade hoje em dia é utópica”, avalia.

Para o educador, pais e filhos, desde cedo, não discutem sobre perspectiva de futuro: “Parece, na verdade, que estão em mundos isolados, onde cada um não se importa ou se preocupa com o outro. Chegam, às vezes, a considerar que ter um filho em casa é um problema, por isso preferem que eles (os filhos) estejam na escola, já que não querem ser incomodados”, reforça.

Segundo o professor de línguas, nesse mundo tão restrito, os pais não procuram saber como estão seus filhos na escola, muito menos verificar se estão realizando ou não as atividades escolares em seus cadernos.

“Existe, também, aqueles pais que têm um bom conhecimento educacional, mas preferem não ajudar os filhos, achando, dessa maneira, que estão contribuindo. Na verdade, para contrariar tal posicionamento, pais e filhos estão cada vez mais hipócritas e egoístas”, reclama.

Carlos dos Santos pontua que ao analisar a escrita de alunos, percebe-se, dentro ou fora de contexto escolar, que está cada vez mais simbólica. “Jovens, de todos os níveis sociais, estão representando tais símbolos na hora de escrever, isso porque, na maioria das vezes, preferem uma escrita mais rápida e contraída”. Segundo ele, esses alunos acham que vão usar aquela forma simbólica em todos os lugares ou em redes sociais, por isso, em alguns casos, são discriminados por falta de compreensão do leitor, já que tais representações fogem da Norma Padrão da Escrita, reforça.

O professor destaca ainda que os jovens leem mais atualmente, mas não da mesma maneira que antes: “Passam a não analisar e observar a escrita e o conteúdo proposto; por isso, não se percebe, passam a reproduzir o que mais estão habituados: a escrever de maneira errônea”, destaca.

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