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RIO – Bibliotecária e filha de militantes políticos, Juliene Coelho revela como foi a experiência de abordar a censura na história do livro em seu Trabalho de Conclusão de Curso.

Rodolfo Targino: Qual o tema do seu Trabalho de Conclusão de Curso?

Juliene Coelho: O tema é a história do livro, memória do livro e a censura no período da Ditadura Militar, a influência dessa censura na cultura brasileira e na literatura brasileira como um todo.

R. T.: Qual o título da sua monografia?

J. C.: Um capítulo seqüestrado da história do livro no Brasil: a censura e as publicações nos governos militares. Desde1964 a 1985.

R. T.: O que te motivou a escrever e pesquisar sobre esse tema?

J. C.: Na verdade o tema já faz parte da minha vida há muito tempo. Eu sou filha de dois militantes políticos e a Ditadura Militar é uma realidade na minha vida desde muito cedo. Demorei muito tempo para aceitar isso como um Trabalho de Conclusão de Curso na Universidade, acabou até atrasando minha formatura porque eu não achava ético trabalhar com um tema que eu tinha posturas muito firmadas, mas depois percebi que temos que trabalhar com aquilo que gostamos. Então eu não conseguiria estudar e escrever com tanto afinco uma coisa que não gostasse. Assim acabei indo para essa questão da censura e da literatura saindo da questão política.

R. T.: Com o término da monografia, a sua percepção sobre esse tema mudou ou continuou a mesma?

J. C.: Não. Na verdade se aprofundou, hoje eu tenho a vontade de estudar outra vertente da história, na monografia tratei dos livros que foram censurados, desde a censura prévia a censura punitiva. Hoje tenho vontade de pesquisar aquilo que não foi escrito, as autocensuras realizadas pelos autores ou os livros que foram produzidos e editados fora do país e até hoje não foram editados aqui, existem alguns casos ainda. Na verdade hoje tenho motivação para estudar outra linha que complementaria o que já foi trabalhado na monografia.

R. T.: Você mencionou que é filha de militantes políticos. Qual foi a contribuição deles quando você escreveu sobre Ditadura e censura?

J. C.: Tenho uma biblioteca em casa sobre isso, a colaboração deles veio desde o início, a chance de ter acesso aos livros e a percepção da realidade. Com certeza não teria escolhido esse tema se não fosse a convivência com os dois. Minha mãe, quando contei para ela, disse que finalmente eu estaria falando sobre uma coisa que realmente gostava e entendia relativamente da história.

R. T.: Durante a elaboração do seu Trabalho de Conclusão de Curso qual foi o livro ou artigo que mais te marcou?

J. C.: Acho que posso dizer o autor né? O professor Carlos Fico é brilhante, ele foi muito utilizado durante a monografia, desde as discussões que ele lançava no twitter. Agora como todos que gostam ou são influenciados por esse tema, o Zuenir Ventura é o papa, você consegue pegar desde 1964 até o fim, todos que trabalham com o tema conseguem tirar algo consistente. Então o Zuenir Ventura e o Carlos Fico com certeza.

R. T.: Na sua opinião qual a importância da abertura dos arquivos da Ditadura para a geração atual?

J. C.: Acredito que conseguimos ter noção da verdade, talvez seja até conflitante o que vou dizer, mas conseguimos montar clichês muito forte tipo: a esquerda foi vitimizada e os militares os malvados. Não estou dizendo que os militares estavam certos e nem que a esquerda foi vítima, mas com a abertura conseguimos enxergar as proporções de uma maneira real, acaba caindo algumas verdades montadas. Mas isso não está acontecendo, estamos com processos de aberturas que são mentirosos ou fantasiosos. Temos um processo de abertura e o Arquivo Nacional diz que você tem que tarjar a documentação, vai pesquisar e assina um termo de compromisso onde o pesquisador tem que dizer que não tem interesse em nomes e datas, você é pesquisador e se não tem interesse em nomes, datas e fatos, o que você foi fazer ali então? Eu fui até o Arquivo Nacional logo depois do lançamento da abertura, da teórica abertura, fui até o Arquivo Estadual de Fortaleza e tudo deles é tarjado. Você pega uma página e tem artigos: de, do, a. Se a abertura for realmente realizada para a nova geração perceber o que realmente foi feito, para nós pesquisadores termos acesso para embasamento das pesquisas é fantástico, mas até o momento não vejo nada disso acontecendo.

R. T.: Para terminar uma provocação, hoje vivemos em uma democracia ou em uma ditadura?

J. C.: Nossa, acho que tudo é velado, a censura está ai, muitas vezes ela não é tão velada assim. Ainda temos humoristas que são condenados por falar algo, durante as eleições para a Presidência da República no Arquivo Nacional os pesquisadores não tinham acesso a fichas dos candidatos, inclusive da nossa atual presidenta. Sinceramente não digo uma ditadura tão forte, mas a censura está presente largamente nas nossas vidas. Você sofre censura todos os dias nos seus atos, não só a censura do Estado, mas a sua autocensura. Estamos tão influenciados com as diretrizes que a sociedade prega que você se poda o tempo inteiro, cada um faz a sua censura.

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