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Tenho participado de debates e rodas de conversas sobre o meu livro Eles: contos, que aborda alguns aspectos das identidades masculinas.  As conversas sempre são encerradas pela limitação do tempo dos eventos, mas não pela ausência (nos debatedores e na plateia) de se ter o que dizer.

Parece que estamos abrindo uma caixa até então lacrada e dela saem vivências, emoções, relatos que estavam silenciados.   Silenciados por uma sociedade machista, e, no caso dos homens negros, os silenciamentos são intensificados por nossa sociedade racista.

Pode um homem negro falar? E quem está disposto a escutá-lo? Os homens negros estão na posição de comentaristas? Escrevem artigos de opinião para os jornais? Falam de si e de como observam o mundo? Relatam suas emoções?

A palavra, quando fora do pensamento, auxilia na construção da identidade, serve para afirmar a existência, para observá-la, para estranhá-la e principalmente, serve também para curar e uma vez em processo de cura, pode-se amar em plenitude, missão maior de qualquer indivíduo.

Com a palavra caminha-se para a superação dos traumas, no caso coletivo dos homens negros (do trauma do colonialismo e da escravidão, com seus efeitos ainda presentes em toda a estrutura da organização social brasileira), cura-se pela possibilidade de o ouvinte absorver o relato, reconhecer a alteridade e gerar solidariedade.

Neste sentido, o espetáculo “Oboró – masculinidades negras” é um grande aceno solidário para um país que vê ascender pensamentos e discursos de intolerância, de aversão e de ódio voltados para as minorias sociais e para as liberdades religiosas.  É com muita satisfação que compartilho algumas impressões sobre o espetáculo que estreou no último dia 15, no teatro Sesi, no Rio de Janeiro.

Saí do espetáculo cheio de palavras, emoções e lembranças. Lembranças reavivadas ao ver e ouvir as narrativas dos personagens do espetáculo, homens negros, que apresentam pontos singulares nas suas vidas de batalhas, sucessos, fracassos, amores, sustos e vitórias. As experiências familiares que são apresentadas, as relações amorosas (bem resolvidas e mal resolvidas) com pais, mães e filhos, e, neste aspecto, é de uma beleza ímpar a cena do personagem Kinho (brilhantemente interpretado por Sidney Santiago), que sonha em morar em uma casa própria com a família.

Saí do espetáculo com um nó que parece, lentamente, se desfazer na garganta, em lágrimas, ainda durante o espetáculo, em reflexões após o cortejo final que nos conduz até “a vida lá fora”.

Estão em cena diversas trajetórias motivadas por escolhas que os personagens fazem durante a vida, a escolha profissional, a escolha de falar a verdade, a escolha de omitir, a escolha de não dizer que ama, a escolha de como dizer que ama e a essencial escolha de como ser na vida.

O que se quer ser e a luta para conquistar esse status que, de certa forma, é a própria construção da identidade. Todas estas escolhas são atravessadas pelo racismo, que transforma os destinos e os afetos de homens negros em uma sociedade racista.

Diante das diversidades dos personagens, não há como admirar a todos e, talvez, seja este um dos grandes pontos positivos de Oboró, os personagens são falhos na mesma medida em que tentam não ser, são humanos, fortes e frágeis, escudos e esconderijos, e isso nos é passado com uma emoção que, encenada com grande beleza, é verdadeira na voz e no olhar dos atores, chegando em quem assiste como punhais, ou como graça, ou como abrigo.

Isso já seria o bastante para tornar o espetáculo inesquecível, apresentar as subjetividades de homens negros sem maquiá-las, mas toda esta beleza conflui com o texto e com o trabalho dos atores, o desenho de luz, o figurino, o cenário, a trilha e a regência que fazem de Oboró um ponto alto no teatro brasileiro.

Destaco a cena do personagem Oswaldo, interpretado por Ernesto Xavier , durante o depoimento de Oswaldo (o personagem sonha em ser médico e para dar conta do seu sonho, sendo pobre, precisa empenhar um esforço sobre-humano), o personagem corre no palco, em círculos, quase caindo em alguns momentos, mas seguindo, insistindo, lutando, as folhas no chão, a iluminação, a interpretação e os “irmãos” pretos o observando a cena, tudo representando a essência da vida, que não tem chegada, que é movimento.

Mas, se tratando de corpos pretos, correr (se esforçar) significa fugir da morte, ou em diversos outros casos, se tratando de um país em que a cada 23 minutos um jovem negro é assassinado, e que este genocídio, e a estigmatização da pobreza e da negritude vêm se consolidando como uma política de governo, correr pode significar o encontro com a morte.

Oboró em yorubá é usado para designar orixás do sexo masculino e cada personagem do espetáculo é relacionado a um orixá, em uma cena Osanyin/Oswaldo, faz uso de folhas para cuidar da saúde física e espiritual de Frederico/Oxumaré (que trabalha na bolsa de valores e vê com angústia seu distanciamento em relação as suas raízes), e novamente, o espetáculo acena para a solidariedade, o cuidado e  o amor entre os oprimidos pelo machismo e pelo racismo.

A união do rebanho obriga o leão a deitar-se com fome, diz em certo momento o sábio Deoclides/Oxalá.

A afinação em tudo que é apresentado faz em alguns momentos Oboró nos parecer como um único organismo vivo, um organismo pulsado, gestado, gerido pela inteligência e sensibilidade de Rodrigo França, diretor e produtor do espetáculo, que merece todo reconhecimento que costumamos dedicar para quem se destaca no meio artístico-cultural.

O elenco é composto por Cridemar Aquino, Danrley Ferreira, Drayson Menezzes, Ernesto Xavier, Gabriel Gama, Jonathan Fontella, Luciano Vidigal, Marcelo Dias, Orlando Caldeira, Reinaldo Júnior e Sidney Santiago Kuanza.

O espetáculo tem o texto de Adalberto Neto, direção de Rodrigo França, direção de movimento por Valéria Monã e cenário e figurino assinado por Wanderley Gomes.

Serviço

Espetáculo: Oboró – Masculinidades Negras
Dias e horários: De 15/08 a 01/09 – quintas, sextas e sábados às 19h, domingo às 18h.
Local: SESI – Centro-RJ

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