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Por Leonardo Neto e Talita Facchini, do PublishNews

Decretos do “apocalipse do livro” não são novidades e nem vieram junto com o livro digital como podem imaginar alguns. O historiador e diretor da Biblioteca da Universidade de Harvard Robert Darnton, que abriu nesta quinta-feira (25), o Congresso CBL do Livro Digital, lembrou que, em 1928, Walter Benjamin já dizia que, ao que tudo indicava, o livro estaria chegando ao seu fim. Mas chegamos a 2016, e “o livro não está morto. Ao contrário, Nos EUA, no ano passado, foram publicados mais livros do que no anterior”, comentou Darnton.

“Já tivemos muitas profecias sobre o fim do livro, mas quero trazer uma mensagem mais otimista”, brincou com a plateia. Darnton disse acreditar que o futuro do livro será decidido pelo próprio leitor. Esse tema, o do fim do livro ou da substituição do físico pelo digital, foi recorrente nas discussões levantadas no Congresso. Carlo Gimeno, diretor Internacional de Vendas da ProQuest Books, sentenciou: “o que falta é achar um equilíbrio, um meio termo entre os dois”.

Sam Missingham, chefe de Desenvolvimento de Audiência da HarperCollins na Inglaterra, encerrou a programação lembrando aos participantes que a concorrência do livro não é entre as editoras. “Estamos competindo com outras coisas e não com outras editoras”, disse. Foi em nome dessa concorrência que Darnton, em 2004, comprou uma briga com o Google. Naquela época, o Google procurou as bibliotecas universitárias dos EUA com a proposta de digitalizar e disponibilizar os seus acervos. Só a biblioteca dirigida pelo historiador tem mais de 20 milhões de itens. “Adoramos a ideia, mas eles voltaram e disseram que queriam digitalizar todos os nossos livros, incluindo os que estavam protegidos por direitos autorais”, relembra. O assunto foi parar nos tribunais e o Google se viu obrigado a suspender a iniciativa. “É um mito essa história de que na internet estão todas as informações do mundo ou que as bibliotecas se tornaram obsoletadas. Claro, suas funções mudaram, mas estão mais vivas do que nunca”, comentou o historiador.

Autopublicação

O assunto “obsolescência” foi retomado em outra mesa. Para o editor alemão Leander Wattig, as editoras são outras que vão ter que se reinventar caso queiram continuar atraindo bons autores, vendendo bons livros e fazendo sentido dentro da cadeia do livro. Em sua palestra, intitulada Gamechanger Selfpublishing – fatores de sucesso no novo mercado editorial, ele apresentou dados de uma pesquisa feita na Alemanha com autores autopublicados. No país, um em cada dois livros digitais já são autopublicados. Entre os livros impressos, a relação é de um autopublicado para cada quatro livros lançados. E, segundo o editor, esse número só cresce, mas isso não é refletido nas estatísticas oficiais do setor (como aliás, também acontece no Brasil). Leander reconheceu que a fama de que os livros autopublicados são, na média, ruins ou mal escritos é verdadeira. “Mas não existem só coisas estranhas nesse segmento. Nem todos são livros como A biografia do papagaio. Tem muita coisa boa e que, pelo menos na Alemanha, tem ido muito bem”, defendeu e citou exemplos como Hopi J. Andersen, que já vendeu 400 mil exemplares; Hannes Müller, 295 mil exemplares vendidos, e Nuka Lubitsch, que já vendeu mais de 280 mil cópias de seus livros.

“Pode parecer banal que as listas de mais vendidos da Amazon tragam tantos livros autopublicados, mas não é”, declarou. “Os autores dessa área já estão entrando na mente das pessoas”, observou. A pesquisa de que Leander falou demonstra que autores autopublicados querem profissionalizar seu trabalho. Para isso, procuram cursos de aprimoramento e gastam dinheiro na produção do livro. “Todo autor que hoje trabalha com editoras, um dia, será um autopublicador”, previu.

Leander contou que, ao perguntar aos escritores autopublicados por que eles preferiram a autopublicação, eles responderam que querem liberdade. Entre os pesquisados, 83% declararam que preferem a autopublicação por terem controle pleno do dinheiro que ganham, 67% porque, nesse processo, têm controle da comercialização. “Eles têm a sensação de que as editoras não estão satisfazendo essas necessidades”, analisou Leander.

Apesar disso, 80% declararam que, sim, topariam publicar por uma editora, desde que estejam dentro de determinadas condições. A maior desvantagem apontadas pelos autores questionados na pesquisa é que, como autopublicados, têm dificuldades de entrar nas livrarias. “Eles estão interessados em ter seus livros nas prateleiras”, comentou Leander. Na Alemanha, as editoras estão reagindo a isso. A Ulstein, por exemplo, lançou dois selos digitais que abrigam trabalhos de autores autopublicados: o Forever, com livros de amor, e o Midnight, com livros policiais.

A visão agnóstica da Amazon

Alex Szapiro também falou de autopublicação, mas usou o seu espaço para… fazer um merchand da Amazon, empresa que dirige no Brasil. “Falaram para eu não falar muito dos nossos produtos, mas, entrem no nosso site…”, disse. Ao interagir com Marcos Pereira, presidente do Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL), que estava na plateia, levou uma resposta: “se você pagar, você pode fazer a propaganda que quiser”, disse bem-humorado.

Szapiro voltou a lembrar que a “obsessão da Amazon é ter um catálogo cada vez maior de livros digitais”, mas que a empresa que ele dirige no Brasil tem “uma visão agnóstica”: “para nós importa que as pessoas leiam mais, independente do formato. Não é inteligente colocar um formato contra o outro”, disse.

Avessa sempre a apresentar números, a Amazon divulgou alguns. Szapiro disse que, na média, as pessoas que eram clientes da Amazon que passaram a comprar livros digitais, não pararam de comprar livros físicos. Ao contrário, passaram a consumir 3,8 vezes mais livros. Segundo seus clientes, 42% buscam na Amazon o preço, 21% variedade e 20% comodidade. O preço do e-book também foi alvo de uma pesquisa da varejista. Segundo dados apresentados por Szapiro, quando os e-books são oferecidos com 30% de desconto em relação ao livro impresso, a versão digital vende 3,3 vezes mais e à medida em que o desconto cai, essa relação também cai. Livros colocados em pré-venda com um mês e meio de antecedência têm performance de venda 11% melhor. Se o e-book tem amostra, há aumento de 50% nas vendas.

Szapiro falou também do Kindle Unlimited e da resistência que alguns editores têm em colocar títulos na plataforma de subscrição de e-books da varejista. “O Brasil é um dos países onde o Kindle Unlimited mais cresce no mundo. A cultura da assinatura já está muito arraigada na nossa Cultura”, comentou citando a boa performance do Brasil em serviços como Netflix e Spotify. “Alguns editores já estão entendendo o Kindle Unlimited como uma ferramenta de marketing. As pessoas que assinam o serviço leem 30% mais e continuam comprando livros a la carte. Para nós, não há uma canibalização”, comentou. Os livros acessados pelo Kindle Unlimited, lembrou Szapiro, influenciam os rankings da Amazon.

O country manager da Amazon no Brasil encerrou a sua participação dizendo que não tem pressa para ver a empresa decolar de vez no País. “A gente não tem pressa. A nossa obsessão é se perguntar sempre se estamos fazendo a coisa certa: nosso catálogo está crescendo? Estamos melhorando as facilidades? É isso o que nos interessa nesse momento”, disse.

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