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Desde a sua invenção no século XIX até hoje, a sociedade nunca mais foi à mesma, pois os homens e as mulheres começaram a ver o mundo de modo diferente. A fotografia, tão popularizada em câmeras e nos aparelhos celulares, ocupa vários espaços na sociedade atual, desde uma função simples de entretenimento popular, até mesmo funções mais complexas como meio de informação e de arte, documento, instrumento de ciência e tecnologia. Irei tratar desta técnica em formato papel e digital, desde a sua invenção, a sua chegada ao Brasil, a sua importância e sua presença em acervos.

História da fotografia analógica

Etimologicamente, a palavra “fotografia” vem do grego photo (que significa luz) + graphy (que significa escrita). Logo fotografia é desenhar com luz ou escrita da luz.  Portanto, a fotografia é uma técnica que permite obter uma imagem que é inalterável, sobre uma superfície, criada por uma ação fotoquímica, isto é, pela reflexão da luz.

O daguerreótipo é muito citado como o precursor da fotografia, porém Marli Marcondes, em seu artigo Conservação e Preservação de Coleções Fotográficas menciona que “[…] segundo Gisele Froend, parece que naquele período muitas forças convergiam em um mesmo sentido, daí outras pessoas em outros países terem chegado à descoberta isolada da fotografia ao mesmo tempo que Daguerre, como Hercule Florence (Brasil, 1833), Hippolyte Bayard (França, maio de 1839), Henri FoxTalbot (Inglaterra, janeiro de 1839), entre outros.”

A Revista de História da Biblioteca Nacional (RHBN, ano 5, número 52, 2010) informa o mesmo ao colocar que  não podemos definir um inventor apenas para a máquina de fotografar, pois muitos colaboraram para o desenvolvimento e aperfeiçoamento desta técnica, entre eles Joseph Nicéphore Niépce (inventor e litógrafo francês) e Louis Jaques Mandé Daguerre (francês).

Em 1826, Niépce conseguiu fotografar uma mesa posta num jardim. Essa fotografia levou oito horas de exposição para ser conseguida e o resultado foi uma imagem escura e pouco nítida. Em 1827, Niépce recebeu uma carta de Daguerre, que manifestou seu interesse em gravar imagens. Eles tornaram-se sócios e estudaram juntos. Porém, Niépce veio há falecer cinco anos depois. Após mais alguns anos de estudos e aperfeiçoamentos, Daguerre revela à Academia Francesa de Ciências um processo que originava as fotografias ou os daguerreótipos (1839).

Ele descobriu um método para revelar a chapa em menos tempo e com melhores resultados e tornou-se o descobridor do princípio de fixação que utilizava o método da câmara escura. Este método já era conhecido desde o século IV a.C e também há registros que na época de Aristóteles se conhecia o fenômeno de produção de imagens pela passagem da luz através de um pequeno orifício e boa parte dos princípios básicos da óptica e da química, que envolveriam mais tarde o surgimento da fotografia. Após a Revolução Francesa, surge uma nova profissão: o fotógrafo.

Já fotógrafo amador surgiu quando George Eastman (empresário e inventor norte-americano, 1854-1932) fabricou os primeiros modelos de máquinas portáteis. Ele inventou uma máquina pequena que permitia ao próprio fotógrafo trocar o filme e deu o nome de Kodak (1888). George Eastman, ao invés de usar as chapas de vidro, as trocou por rolo de filme. Com isso, a fotografia tornou-se mais popular, pois era de baixo custo, leve e simples de operar.

O primeiro auto-retrato conhecido foi de Robert Cornelius (norte-americano, 1809-1893) e foi produzido com um daguerreótipo em 1839. Já a primeira selfie foi tirada em 1920 pelos fotógrafos da a Byron Company, em Nova York.

A fotografia e o Brasil

Embora muitos ainda não saibam, o Brasil é considerado um dos precursores da fotografia, haja vista que Hercule Florence (inventor francês, 1804-1879) teve a ideia de fixar a imagem numa câmera escura em 1832 na cidade de Campinas (SP), antes da invenção dos daguerreótipos em 1839. Por estar no interior do Brasil, sem muitos recursos, a proposta de Hercule Florence ficou apenas como uma idéia, sem ser concretizada.  A obra que trata sobre essa história é Hercule Florence, 1833: a descoberta isolada da fotografia no Brasil de Boris Kossoy, publicado pela EDUSP (2006).

Porém, data que a fotografia chegou ao Brasil em 16 de janeiro de 1840 por intermédio de Louis Compte (padre francês, 1798-1868), que desembargou no Rio de Janeiro, trazendo consigo vários daguerreótipos. Ele fazia parte da expedição na Terra, viagem de circunavegação do Oriental. Nessa viagem fizeram registros da América Latina e dos habitantes e difundiram a fotografia.  O capelão fez várias demonstrações, entre elas no Brasil (esta ocorreu no dia 21 de janeiro), sendo a primeira no continente. Uma delas foi ao Imperador Dom Pedro II (1825-1891) e registrou aspectos da fachada do Paço e vistas ao seu redor. O Imperador, com apenas 14 anos, se encantou com a invenção, tornando-se o primeiro fotógrafo brasileiro e patrocinador da difusão do processo da fotografia no país. As primeiras fotos da família imperial datam de 1840 e foram registradas por Augustus Morand (1815-1862, fotógrafo norte-americano).

Luciana Rodrigues - foto 3

O Imperador D. Pedro II, sua esposa a Imperatriz Dona Thereza Cristina e o neto mais velho, Pedro Augusto, filho da falecida Princesa Leopoldina Thereza (1887). Fonte: Facebook Fotografias da História.

A burguesia local adotou a fotografia como hobbie e era uma forma de mostrar-se perante a sociedade. Segundo Mariana Muaze, no artigo Sem perder a pose! na RHBN no bolso – Imagens de uma nação (2009), os álbuns de fotografia, como os da família Ribeiros de Avellar, “foi um elemento fundamental na constituição da identidade do grupo e adquiria a função de narrativa familiar. […] No entanto, não se tratava de um ato de despojamento, e sim de ‘invenção de si’. Travestidos de símbolos de sua classe posando com tributos que evidenciavam a sua condição, procuravam deixar revelada no papel a imagem como gostariam de ser vistos”.

Em outro artigo desta mesma revista, Memória afetiva da escravidão, Rafaela de Andrade Deiab explicita também a questão das condições das famílias ao serem fotografadas crianças brancas sendo seguradas por suas amas pretas bem trajadas no período da escravidão, como na Coleção Militão Augusto de Azevedo (1875). Quando a escravidão passa a ser malvista pela sociedade, as imagens das escravas negras foram aos poucos sumindo das fotografias.

Deste período imperial e início da República, vale destacar, um dos fotógrafos mais importantes, Marc Ferrez (1843-1923, franco-brasileiro), que retratou cenas do cotidiano brasileiro, mais precisamente da cidade do Rio de Janeiro entre 1865 e 1918. Seu trabalho possui mais de 5 mil fotografias, constitui um dos mais importantes documentos visuais deste período. Esse valioso acervo, desde 1998, está sendo guardado e preservado pelo Instituto Moreira Salles (IMS). Segundo o instituto, sua obra equipara-se aos maiores nomes da fotografia no mundo.

Outro grande nome que merece ser destacado é Augusto Malta (1864-1957, fotógrafo). Ele foi nomeado (1903) como primeiro fotógrafo oficial da prefeitura do Rio de Janeiro (então Distrito Federal) pelo prefeito Pereira Passos (1836-1913). Augusto Malta exerceu o cargo até 1936 e pôde registrar as diversas mudanças ocorridas na cidade como a demolição do Morro do Castelo e a abertura da Avenida Presidente Vargas. O acervo é constituído de 80 mil fotografias e encontra-se dividido entre o Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro (MIS-RJ) e o Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro.

Outras personalidades brasileiras, que se apaixonaram pela fotografia, foram Santos Dumont (1873-1932, inventor brasileiro) e Mário de Andrade (1893-1945, escritor brasileiro).  Santos Dumont comprou seu equipamento em Paris, montou um laboratório e fotografou os voos dos pássaros, isso antes da invenção do avião. Já o escritor Mário de Andrade tornou-se um fotógrafo amador, com a sua Kodak portátil simples e fez vários registros, desde parentes e amigos em Araraquara a viagens, como a que fez para a Amazônia em 1927, chegando a registrar mais de 500 fotos.  Mário de Andrade escreveu o livro “O Turista Aprendiz”, onde narrou suas viagens.

Na década de 1930 surgem os primeiros fotoclubes e passam a ser decisivos na formação e no aperfeiçoamento técnico dos fotógrafos brasileiros. O movimento Fotoclubismo reunia pessoas interessadas na prática da fotografia como uma forma de expressão artística. Na década seguinte, inicia-se o fotojornalismo na revista O Cruzeiro que tornou-se uma revista de sucesso. A partir daí, a fotografia nunca mais esteve ausente dos meios de comunicação.

É através da existência da fotografia que surgiu o cinema. A fotografia tornou-se imprescindível no comércio, nos negócios, na indústria, na publicidade, no jornalismo e em muitas outras atividades. Essa técnica desempenha um papel fundamental para os diversos estudos da ciência abrangendo vários campos: zoologia, botânica, astronomia, entre outros. A fotografia também se tornou importante para a construção de imagens de pessoas famosas e políticos, construindo ou destruindo uma identidade. A fotografia tornou-se um documento, pois ela legitimiza a existência, servindo como comprovação para a história.

Fotografia digital: e agora?

A fotografia digital chegou ao Brasil na década de 2000, primeiro nas câmeras de fotografar e posteriormente, em outros aparelhos eletrônicos, como celulares, smartfones e tablets. Os brasileiros se adaptaram rapidamente as novidades do mercado tecnológico e passaram a fotografar muito, qualquer coisa e em qualquer situação com o objetivo de expor nas redes sociais, marcas de uma sociedade globalizada, consumista, imediatista e descartável. Um exemplo disto ocorreu em fevereiro de 2016, numa praia da Argentina, quando banhistas retiraram do mar um golfinho para fazerem umas selfies. Infelizmente, o resultado disto foi à morte precoce deste animal que estava fora do seu habitat natural, conforme informou o jornal O Globo. Aos poucos, a própria sociedade vem questionando seu comportamento, seus valores e o uso descontrolado da fotografia de forma irônica e irreverente de charges e tirinhas:

Luciana Rodrigues - Foto 5

Sociedade do espetáculo. Fonte: Internet.

De certa forma, estamos nos comportando como no período Imperial em que a burguesia construía sua imagem, exibindo assim em suas fotos as condições financeiras, as relações pessoais e de poder para as futuras gerações. Penso que a exibição agora está mais para uma valorização do próprio ego individualista, com “eu sou, eu tenho, eu posso, eu vi” sendo único objetivo mostrar para a geração atual o seu jeito de ser e de viver. A grande diferença é que com a fotografia digital, a classe média baixa pode também construir a sua imagem perante a sociedade real e virtual.

Os profissionais da informação vêm percebendo que com o avanço da fotografia digital, a fotografia vem tornando cada vez mais escassa em acervos históricos. Quando a fotografia era revelada em papel, a sua presença em acervos era bem mais presente. A mudança de suporte está fazendo que esse tipo de documento seja cada vez mais raro. A fotografia digital passa a ser mais efêmera e tem o grave risco de se perder entre outros arquivos ou de ser eliminada bastando apenas poucos cliques. Quem não conhece algum caso de um parente ou um amigo que perdeu o registro daquele momento especial porque estava em formato digital? É claro que a vantagem da fotografia digital é permitir ao fotógrafo, seja amador ou profissional, fazer vários registros em apenas um cartão de memória, o que antigamente não era permitido com os rolos de filme. Outra vantagem é poder escolher quais fotografias deseja revelar, porém a maioria das fotografias não passa pela revelação/impressão e dessa forma, a construção da imagem a ser deixada para a posteridade fica cada vez mais no presente.

E o trabalho dos profissionais da informação com a fotografia?

Os profissionais da informação sabem o quanto trabalhar com fotografias requer uma atenção especial. Ronni Oliveira (bibliotecário da Universidade de São Paulo -USP) possui larga experiência no assunto e escreveu o livro Fundamentos para a Gestão da Informação em Imagens para bibliotecários, arquivistas, museólogos e outros profissionais da informação (2014) em que apresentou sua experiência na gestão de imagens de forma introdutória e panorâmica, sem detalhes teórico – conceituais, como ele mesmo definiu.

Durante a gestão de imagens de um acervo fotográfico, estas precisam ser analisadas, descritas e representadas. Além destas atividades, há por fim, as atividades de conservação e de preservação de fotografias que também não são nada simples e requer recursos financeiros, de pessoal e de material adequado.

Marli Marcondes nos coloca que “cabe, portanto, ao conservador uma análise do documento fotográfico e a elaboração de um diagnóstico. Nessa avaliação deve se relacionar o processo fotográfico, o formato, as medidas dos diferentes suportes, a coleção ou fundo ao qual pertence a unidade documental e o seu estado de conservação, bem como as formas de deterioração. Uma vez detectados os problemas, deve-se elaborar uma proposta de tratamento. Há de se analisar com cautela as medidas propostas para o tratamento, visando jamais comprometer a integridade do documento […]”.

Em 2014, a Prefeitura do Rio de Janeiro informou que o Acervo Geral da cidade recebeu um investimento de R$ 250 mil para contratar uma equipe para fazer a conservação de 32 mil negativos fotográficos, segundo reportagem do jornal O Dia, edição do dia 28/02/2014.

Não posso deixar de mencionar o projeto Brasiliana Fotográfica, uma parceria da Fundação Biblioteca Nacional (FBN) e o Instituo Moreira Salles (IMS), em 2015. Segundo o próprio site do projeto, este “é um espaço para dar visibilidade, fomentar o debate e a reflexão sobre os acervos deste gênero documental, abordando-os enquanto fonte primária, mas também enquanto patrimônio digital a ser preservado.” O site permite ao usuário ter acesso há mais de duas mil fotografias e conhecer um pouco mais da história do Brasil através de curadorias como A fundação do Recife e do Rio de Janeiro e Os fortes do Brasil.

Além da Brasiliana Fotográfica, a Biblioteca de Nova York disponibilizou fotografias raras do Brasil Imperial que se encontram em domínio público. O usuário ao acessar o site da biblioteca  e realizar a busca por “BRAZIL”, encontrará 748 resultados, entre fotografias e litografias.

Outras fontes

Um excelente material de referência na área da informação sobre preservação de fotos é a publicação Preservação de fotografias: métodos básicos para salvaguardar suas coleções (2001), escrito por Peter Mustardo e Nora Kennedy, do Projeto Conservação Preventiva em Bibliotecas e Arquivos que se encontra disponível na internet. Também recomendo o livro Como tratar coleções de fotografias escrito por Patrícia de Filippi, Solange Ferraz de Lima e Vânia Carneiro de Carvalho, publicado pelo Arquivo do Estado de São Paulo e Imprensa Oficial do Estado em 2002.

Outro material bem interessante é o Glossário De Técnicas e Processos Gráficos e Fotográficos Do Século XIX elaborado para a exposição Panoramas: a paisagem brasileira no acervo do Instituto Moreira Salles em 2011. Este glossário trata tanto da fotografia quanto da litografia, ambas criadas no mesmo século e que revolucionaram a comunicação visual.

Algumas considerações

Não preciso mencionar que sou uma amante desta técnica/arte que vem encantando a muitos desde o século XIX.  Como bibliotecária, percebo o quanto é rico trabalhar com acervos fotográficos e que os profissionais da informação devem possuir um conhecimento mais aprofundado sobre o processo de gestão das mesmas e que muitas vezes, isso é adquirido na prática. Vejo que a sociedade atual está mais interessada em valorar este tipo de acervo e que muitos se interessam pelos assuntos. Esta situação fica clara para mim, quando percebo a participação ativa de usuários em grupos e comunidades do Facebook, como GuarAntiga (com mais de 95 mil curtidas) e Rio de Janeiro Memória&Fotos (com mais de 150 mil curtidas), onde estes interagem, comentam sobre as imagens, postam outras, recordam memórias etc.

Para finalizar, recomendo o brilhante documentário Sal da Terra (2015), dirigido por Juliano Salgado, que trata da trajetória do renomado fotografo Sebastião Salgado, de renome internacional, seu pai. Sebastião Salgado dedicou-se a registrar os problemas do mundo, como refugiados e imigrantes em Êxodos, Trabalhadores em Serra Pelada, A luta pela Terra. Mais recentemente registrou as belezas e as destruições no meio ambiente, em Gênesis, e a história das pessoas que trabalham com café na mostra Perfumes de Sonho – Uma Viagem ao Mundo do Café. Como Sebastião Salgado afirma, “você não fotografa com sua máquina, você fotografa com sua cultura.”

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