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No comecinho da Avenida Brigadeiro Luis Antonio, em São Paulo, numa ponta de estoque de livros a preços muito bons. Uma grande quantidade de livros da Brasiliense, uma grande quantidade de exemplares da série Primeiros Passos que eu tanto li.

Eu já estava há uns vinte minutos no lugar que taca vazio, quando percebi que meu único  parceiro de garimpagem era o cara que escreveu “A Palo Seco”. Fiquei na minha.

Naqueles minutos viajei no tempo da minha vida, nos meus trinta e poucos anos. Era tudo vivo: Retrato 3 x 4, Alucinação, Galos Noites e Quintais, Paralelas, De Primeira Grandeza, era tudo tão cristalino, muita coisa que fez a trilha da vida.

O desespero de 1973 eu senti menino ainda, menino de sete anos, um dos anos mais duros da minha vida. Eu nem ouvia ainda Belchior, mas ele estava lá.

Foi um tempo curto ali ao lado do Belchior, os livros e o cantor anasalado quieto aproveitando a liquidação; eu com uma pilha de livros, ele com outra, no meio, o silêncio e as lembranças. As léguas tiranas andadas.

Calei, ouvi as músicas na imaginação, não falei com o compositor que fez a minha cabeça, um deles, pouco falei com esses caras na vida. Mas ele falou comigo, prosaico e anasalado, era o Belchior mesmo:

– Você conhece esse livro? Tô vendo que você tá com uma pilha ai, a gente se entusiasma, né? Sorriu o cearense. O livro que ele perguntou era “O que é Semiótica”, da Lucia Santaella.

– Cara, é sim, já li, ela professora da PUC, especialista, dá uma boa ideia do assunto.

Ele agradeceu, sorriu e nos despedimos. Não falei mais palavra, congelei, perdi a oportunidade de contar o como as músicas que ele tinha feito me fizeram também.

Fui vendedor de livro, fui bibliotecário com o bardo. Acho que é isso que sou: o cara que fala dos livros.

Eu lembrei dessa história no último domingo e passei dois dias ouvindo Belchior com as lágrimas nos olhos de ouvir o Belchior e lembrar das coisas da vida, fui até ler a biografia dele escrita pelo Jotabê Medeiros.

A música, a nossa história, os compositores e as histórias nossas com eles.

A minha com o Belchior foi de um silêncio cheio, cheio de bombas semióticas e é bom lembrar dessas coisas que batem no coração.

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