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Por André Miranda, Leonardo Cazes, Liv Brandão, Lucas Altino, Mariana Filgueiras e Sérgio Luz de O Globo

Ruas mais vazias, menos público na Tenda dos Autores. Mais gente assistindo aos debates no telão, encontros concorridos na programação paralela. Um fim de sábado com aplausos para a mesa que reuniu os poetas Kate Tempest e Ramon Nunes Mello, um início de domingo com vaias para o sírio Abud Said. Após 14 anos, está claro que os contraditórios convivem na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). Na edição em que Ana Cristina Cesar foi homenageada, a poesia e as mulheres se destacaram, mas a ausência de convidados negros provocou críticas à curadoria.

Logo na quarta-feira à tarde, na abertura do Espaço Itaú Cultural de Literatura, o curador Paulo Werneck foi confrontado pela escritora Conceição Evaristo sobre a falta de negros na programação principal. Werneck respondeu que convidou vários, citando a cantora Elza Soares e o rapper Mano Brown, e até “aporrinhou” alguns nomes. Conceição respondeu que adoraria ter sido “aporrinhada” pelo curador.

Já na programação principal, na Tenda dos Autores, a conversa sobre sexo da jornalista peruana Gabriela Wiener com a escritora Juliana Frank, na sexta à noite, foi um desastre. Juliana brigou com os fotógrafos, levantou o vestido e até miou no palco. O mediador, Daniel Benevides, gerou constrangimento ao chamar Gabriela de “devassa” e dizer, ironicamente, que ela “não era de família”. A jornalista não gostou e retrucou que tinha “muito orgulho” da sua vida.

Constrangedora também foi a mesa “Síria, mon amour”, que reuniu, ontem, o escritor sírio Abud Said e a jornalista Patrícia Campos Mello. Said repetiu o que vinha falando desde sua chegada a Paraty: não gosta de falar de política. O escritor desviou do tema, por vezes de forma grosseira, e ainda criticou os repórteres que cobrem o conflito — como Patrícia — e “a turma dos direitos humanos”. Na sua visão, todos fazem jogo sujo. Foi vaiado pelo público.

Em entrevista coletiva, ontem de manhã, o arquiteto Mauro Munhoz, presidente da Associação Casa Azul (organizadora da Flip) e o curador Paulo Werneck negaram que houve “curto-circuito” na mesa sobre sexo. Para Munhoz, nem todos os debates funcionam e essa “exceção confirma a excelência da programação”. Sobre o sírio, Werneck disse que era legítimo ele não querer falar de política:

— Diante de uma crítica (feita por Said à “turma dos direitos humanos”), é natural que a plateia tenha a sua reação. Também houve autores britânicos que não quiseram falar sobre o Brexit.

flip

FATOR OLIMPÍADA

Na entrevista coletiva, outro assunto dominante foi a crise. Munhoz ressaltou que a Flip passou por percalços para captar recursos e precisou encontrar soluções criativas para manter as suas atividades. Sobre o menor número de visitantes em Paraty, ele lembrou as dificuldades causadas pela Olimpíada. E explicou que, caso o evento fosse realizado uma semana depois, os custos seriam maiores devido à proximidade com os Jogos.

Até o sábado, a Tenda dos Autores recebeu mil pessoas a menos em comparação com o ano passado: 12.251 contra 13.253. Já o telão, colocado do lado de fora, com acesso gratuito, teve mais de mil espectadores a mais: 23.246 contra 21.990. O destaque do telão foi a mesa da prêmio Nobel bielorrusa Svetlana Aleksiévitch, vista por 1.800 pessoas do lado de fora, segundo a organização.

De qualquer forma, quem veio encontrou bons debates e alguns momentos que serão saudados por um bom tempo. Além de Svetlana, o norueguês Karl Ove Knausgård, o americano Benjamin Moser e a britânica Kate Tempest foram alguns dos estrangeiros mais aplaudidos.

Na Livraria da Travessa, parceira oficial do evento, os cinco livros mais vendidos foram: “A guerra não tem rosto de mulher”, de Svetlana Aleksiévitch; “A teus pés”, de Ana C.; “Vozes de Tchérnobil”, de Svetlana (os três da Companhia das Letras); “Autoimperialismo, três ensaios sobre o Brasil” (Planeta), de Benjamin Moser; e “Todos os contos” (Rocco), de Clarice Lispector, organizado por Moser. Veja a lista dos 10 mais vendidos.

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