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Eu resolvi juntar o título do famoso historiador inglês Cristopher Hill com uma controversa teoria usada para retratar o momento político brasileiro: o mundo de cabeça para baixo + teoria da polarização. Para testar o cruzamento, vou usar duas polêmicas que ocorreram nos últimos dois dias, que trazem velhas cantilenas revisadas. Vejamos:

Cena 1: os  repórteres Tatiana Dias e Rafael Moro Martins, do site jornalístico The Intercept, escreveram mais uma peça da falsa simetria e da indumentária herdada da guerra fria, na qual equiparam o nazismo ao que chamam de “regimes autoritários de esquerda” (na leitura deles: todos os regimes comunistas do séc. XX).

Os jornalistas criticam o professor e youtuber Jones Manoel e a deputada do PSOL carioca Taliria Perone por reivindicarem a Revolução Russa e o seu principal líder, Vladimir Lenin. Para os nobres escribas liberais, esse tipo de atitude acirra a polarização e alimenta a extrema direita.

A conclusão a que se chegam é que os comunistas não podem se declarar comunistas e devem sair de cena para dar espaço para uma suposta corrente socialista nórdica, que é limpa e irrepreensível (seja lá de onde eles tenham tirado isso). Os intrépidos jornalistas culpam os comunistas pelo anticomunismo, numa epifania digna do Prêmio Shell.

Cena 2: debate entre o palpiteiro Rodrigo Constantino e o historiador e dublê de jornalista, Marco Antonio Villa, comentando uma comemoração dos 75 anos do fim do campo de concentração de Auschwitz, na Polônia, que foi destruído e teve seus prisioneiros resgatados pelo Exército Vermelho da União Soviética.

Vou resumir a contenda: Marco Antônio Villa, liberal, se ateve aos fatos e à bibliografia histórica e reafirmou o importante papel da União Soviética na libertação do campo e, de maneira mais ampla, na vitória dos aliados sobre nazismo.

Constantino ficou balbuciando um conhecido raciocínio revisionista e fraudulento, que tenta apagar o papel fundamental da União Soviética usando o argumento de que vinte milhões de russos foram mortos não pela crueldade e a violência da guerra e dos nazistas, mas pela crueldade do genocida Stalin.

Para complementar, o palpiteiro fica repetindo a velha conversa do heroísmo de Churchill e da hegemonia dos Estados Unidos no desfecho vitorioso dos aliados. Foi um massacre no qual Villa argumentou e Constantino misturou anticomunismo a perdigotos, citações desonestas do historiador Anton Beevor, e a inépcia já conhecida.

O mundo de cabeça pra baixo demonstra que a malfadada polarização não é tão polarizada assim. Os matizes da feijoada nas duas cenas, expostas acima, comprovam essa tese. Um mundo no qual os meninos prodígios do Intercept se juntam ao Rodrigo Constantino para equiparar o comunismo ao nazismo está de cabeça para baixo ou é o resultado da tal polarização?

E o que dizer de um mundo que cria o encontro entre o professor Villa, um arauto da direita ilustrada, com os bolchequives Jones Manoel e Talita Perone, para defender o legado da União Soviética na derrota do nazismo? Aqui temos uma polarização de cabeça para baixo?

Olhando esses fenômenos, assim, friamente, nessa sexta-feira, pleno verão de baixas temperaturas de 2020 no sudeste do país, a conclusão a que chegamos é a de que nem a preguiçosa e maleável teoria da ferradura dá conta de tamanho bafafá.

O resultado mais visível de parte desse debate, por ora, é que a deputada do PSOL, Talita Perone, está sendo atacada pelo exército bolsonarista, que usa como base a matéria do liberal Intercept, que denuncia o seu leninismo. Ficam as perguntas: o mundo está de ponta cabeça ou está polarizado? Ou será que juntamos os dois conceitos para criar uma corruptela?

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