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Tendo um jovem retornado para casa após uma temporada de estudos, foi indagado pelo pai sobre o que havia aprendido: “calar e consentir”, respondeu o jovem resignado. Pois bem, é essa a realidade em que vivemos diariamente na vida social brasileira. O liberal John Kenneth Galbraith já havia admitido: “nada estabelece limites tão rígidos à liberdade de uma pessoa quanto à falta de dinheiro”. Como a maioria esmagadora da população brasileira não dispõe deste detalhe chamado dinheiro (nem que seja para suprir suas necessidades básicas), ela se vê relegada a um arremedo de liberdade, que livre não tem coisa nenhuma.

Se não vejamos:

No direito penal brasileiro os chamados crimes de menor periculosidade não garantem aos seus autores (ladrões de galinha, por exemplo) a possibilidade de alcançar a liberdade por meio de fiança, enquanto os autores de crimes muito mais graves (como os de “colarinho branco”, que só podem ser praticados por privilegiados socialmente), a liberdade é garantida mediante o pagamento de uma quantia que em nada abala sua fortuna. Na escola e no trabalho a mesma lógica é verificada todos os dias, posto que os indivíduos ali inseridos nada podem questionar em relação aos superiores (professores e patrões, respectivamente), garantindo uma lógica de “micro escalas de poder”, como Foucault já destacava.

A liberdade é e sempre foi um artigo caro. Que o digam aqueles que viveram os anos de chumbo no Brasil. A suposta liberdade alcançada se projeta no tempo, fazendo que muitos acreditem nela. Mas é tão fato que ela não existe que até hoje alguns fatos daquele período não foram e possivelmente não serão esclarecidos. Vide a questão dos arquivos da ditadura, onde se perece ouvir de seu interior suplicas por justiça, mas que pouco foi feito.

Não tenhamos dúvidas de que a questão não é fácil. De modo algum! As forças reacionárias estão à postas para reagir a qualquer momento. Um indicativo disso foi o evento em comemoração no Centro do Rio pelos 48 anos da “Revolução Democrática” (que é como eles demagogicamente chamam àquela data tenebrosa) e que acabouem pancadaria. Areunião dos reacionários é uma resposta clara ao governo Dilma pela aprovação da Comissão Nacional da Verdade.

Comissão Nacional da Verdade, a propósito, é o tema de uma de nossas matérias de capa, Eu não volto mais para casa, não… de Luan Yannick. Ainda na capa, mais questões sobre o período da ditadura, em Ação censória no regime militar, por Miller Martins e uma matéria especial, triste e já saudosa nos contando um pouco da vida, obra e luta de Millôr Fernandes.

Na nossa Estante desse mês, um trecho de “1968, o ano que não terminou” de Zuenir Ventura, que retrata um dos muitos momentos da época que dão a todos calafrios. E também a resenha do romance histórico “Traduzindo Hannah”, por Janda Monteiro.

A hora e a vez dos e-books, por Chico de Paula vem nos mostrar os empreendimentos que as novas tendências tem estimulado. E é também com nas novas tecnologias que os movimentos pela abertura dos arquivos da ditadura têm se utilizado para se fortalecer; veja uma lista de site interessantes em Arquivos da ditadura on-line: como saber mais sobre os anos de chumbo, por Hanna Gledyz. As novas tecnologias ainda trazem muitas discussões sobre direitos autorais e como falar de direitos autorais sem lembrar dos últimos acontecimentos envolvendo o ECAD? É isso que discute a matéria Direitos autorais: quando a sua cobrança passa a ser contraproducente?, por Fábio Sobral.

Na seção Educação, especialmente esse mês traz uma matéria de Rodolfo Targino que nos conta a jornada, as motivações e as dificuldades de uma bibliotecária que ainda tenta desvendar um pedaço da censura vivida durante os anos de chumbo; confira em Um capítulo sequestrado da história do livro no Brasil. Já na seção Atitude, nada melhor do que um retrato da luta e da garra dos estudantes durante o regime militar e também, como não poderia falta, uma chamada aos estudantes de hoje em Seja mais ativo, saia do arquivo!, por Cynthia Ramos.

Por último, o Cotidiano que nunca falha. E em discussões sobre um período tão cruel quanto a ditadura militar nem o cotidiano deixaria de ficar sombrio, mesmo que no conflito entre a tristeza de Carta da Ditadura, por Ronny Laeber e a indignação de Você é um ditador e um fantoche ao mesmo tempo!, por Agulha.

1968 é o tão conhecido ano que não terminou. Mas é 1964 onde se inicia tudo o que ainda não terminou. São 27 anos de um país que peleja, às vezes tendo sucesso às vezes não, para se livrar do que foi herdado do regime militar: a economia ainda não-democrática, a fragmentação da educação, o sucateamento da saúde e, entre tantos outros que não deveriam deixar muita gente dormir a noite, o sofrimento das famílias que nunca puderam saber o destino de seus desaparecidos.

Tudo isso já foi dito e repetido desde que se pode falar sobre o assunto, mas ainda precisa ser dito e repetido sempre mais uma vez.

Para que nunca se esqueça e para que nunca mais aconteça.

Uma boa leitura!

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