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RIO – A Engenharia brasileira comemorou em 2010 os seus 200 anos. A história mostra que junto com essa ciência se desenvolveu uma prática biblioteconômica quase que indissociável desta. No início, os engenheiros assumiam os postos de bibliotecário, fazendo ora dinamizar, ora retroceder os acervos. A trajetória da Engenharia no Brasil chega mesmo a se confundir com a história da biblioteca (hoje Biblioteca de Obras Raras do Centro de Tecnologia da Universidade Federal do Rio de janeiro – UFRJ) das instituições que hoje compõem o Centro de Tecnologia da UFRJ. Com o bicentenário, a Engenharia se vê na necessidade de rememorar seu caminho. Nesta entrevista o professor da Escola Politécnica da Univesidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e superintendente do museu da mesma instituição, Heloi José Fernandes Moreira, dá uma verdadeira aula sobre a história da Engenharia no Brasil, onde os livros cumpriram e continuam a cumprir um papel fundamental.

Chico de Paula.: Professor, eu queria que primeiro o senhor começasse falando um pouco da sua trajetória acadêmica, seu interesse de pesquisa e estudo.

Heloi José Fernandes Moreira: Eu estudei na PUC Rio. Quando fiz vestibular, eu queria estudar eletrônica e o que se dizia na época sobre o ensino da eletrônica aqui na Ilha do Fundão – a escola acabava de ser transferida pra cá – era de que haviam muitas dificuldades no curso. Eu quis fazer eletrônica. Mas, depois que eu já estava na PUC não queria mais fazer eletrônica; queria fazer elétrica, mas, já estava lá e por lá fiquei. Depois, quando me formei, fui trabalhar na Universidade Federal do Pará como professor. Na época, um professor com dedicação exclusiva, recebia muito bem; era muito bem pago. Depois voltei para o Rio. Fiz mestrado na Coppe [Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-graduação e Pesquisa de Engenharia], e já trabalhando também na Escola Politécnica, na época Escola de Engenharia, aqui permaneci. Comecei a fazer o doutorado um pouco mais tarde, na Unicamp, em 1984, mas perdi uma filha; foi um problema muito complicado para mim, etc. Voltei e acabei ficando aqui no bloco H no laboratório de máquinas elétricas. Quando eu entrei como diretor da escola fiquei um pouco preocupado porque eu não havia estudado aqui e eu desconhecia a historia da instituição. Então comecei a ler e a estudar e ver como era interessante a história da escola e isso foi enveredando na minha cabeça. Foi aí que eu resolvi resgatar o nome original da escola de Escola Politécnica. E assim as coisas foram seguindo. Quando minha filha faleceu eu estava fazendo doutorado em Engenharia Elétrica, mas depois eu resolvi fazer doutorado em Historia da Ciência e em especial sobre uma parte da história da escola, que é a Escola Central [antigo nome da Escola Politécnica]. Estou trabalhando, fazendo uma coisa que eu gosto muito. Estou muito satisfeito. Tenho apresentado muitos trabalhos e espero esse ano concluir o doutorado.

C. P.: Professor, eu queria que o senhor falasse um pouco sobre a relação da trajetória da Engenharia no Brasil, que o senhor tem bastante conhecimento, ressaltando aspectos relevantes, interessantes, engraçados, tudo que ao seu entender é digno de nota, por favor.

H. J. F. M.: A engenharia nasceu no seio militar. Com o desenvolvimento dos materiais bélicos, tornou-se necessário construir fortes para defesa de territórios que resistissem melhor as balas e aos ataques mais fortes dos inimigos; construir fortes que utilizassem materiais mais adequados e dimensões de paredes que melhor resistissem aos ataques. Paralelamente a isso também, como foi à época dos descobrimentos, descobriam-se terras, mas a navegação que havia entre o velho mundo, a Europa, e o novo mundo, era muito precária. Mas lá pelas tantas começa a haver uma preocupação em delimitar o território que havia sido a conquista portuguesa. Por exemplo: Brasil, uma conquista portuguesa, como era seu litoral, até onde iria sua conquista, etc ?. Então, além da questão de como era uma Engenharia para construir melhor uma fortificação, havia também uma Engenharia para ultrapassar rios, chegar do outro lado do território, fazer limites, as estradas eram de barro, de terra, comunicação não havia, etc. Então foi crescendo a Engenharia aqui. No Brasil ainda teve um outro aspecto: o Brasil foi descoberto em 1500, mas até o final do século XVII e mesmo no XVIII, Portugal simplesmente tratava esse grande território aqui como um local com umas riquezas que ele vinha aqui, explorava e pronto, como a madeira, o pau Brasil, açúcar etc. Só que exatamente no fim do século XVII são descobertos os diamantes e o ouro na região das minas gerais onde era Vila Rica, [atual] Ouro Preto [Minas Gerais] e ai as coisas se tornaram diferentes para os reis de Portugal, porque isso era extremamente valioso. Nada melhor do que um colar de uma rainha cheio de diamantes, né? [risos]. Mas aí você observa como esse material ia para Portugal. Evidentemente que ia de navio, mas vinha lá do interior. Então ele vinha por um caminho, hoje conhecido por Caminho Real. Saía de lá de Ouro Preto, Vila Rica e chegava à Baia de Paraty; só que a Baia de Paraty é cheia de reentrâncias; era muito fácil dar uma emboscada em um navio, em uma caravela que já estava carregada. Então construíram o caminho novo direto para o Rio de Janeiro. O tempo de transporte ficou reduzindo a um terço. Porque também tinha assalto pelo trajeto terrestre: quanto mais tempo você leva, maior a probabilidade [de ser assaltado]. Então foi reduzido. E chegava aqui no Rio. Aí aparecem em 1738, 1774, as aulas. Que na época eram chamadas de aulas, mas eram escolas. Nós chamamos de Escolas. Para ensinar Engenharia dentro do exército, para artilheiros. Leva quase cem anos e em 1792 aparece a Real Academia de Artilharia, Fortificação e Desenho funcionando na Casa do Trem, uma edificação que hoje é parte do Museu Histórico Nacional, perto do aeroporto Santos Dumont [Centro do Rio]. Ali se instituiu uma Academia em analogia com outra que havia em Portugal, de 1790. Dois anos depois apareceu aqui no Brasil e é uma Academia que nós consideramos como o marco original do ensino formal de engenharia. Havia antes o ensino, mas a gente não sabe, pelo menos até o momento, o que de fato era ensinado, não se tem nome de alunos, aonde era ensinado, o que o professor ensinava, quem eram todos os professores. Era só um, dois, três? Quando ele viajava, como foi o caso do Alpoim, a aula aqui no Rio parou? Teve alguém que o substituiu?

C. P.: Não existe documentação sobre esse período?

H. J. F. M.: Pode ser até que exista, mas pelo que eu saiba até agora não se encontrou.

C. P.: Como vocês trabalham com a pesquisa, como vocês vêm a produção bibliográfica sobre esse período? Ela é escassa? Não existe consistência? Ainda dá pra ser encontrada? Quais as instituições que têm essa documentação?

H. J. F. M.: Eu acredito que ela seja escassa. Lembre-se que ali no Arco dos Teles, ali na Praça XV [no Centro do Rio], ouve um incêndio e se perdeu muita coisa. Eu não poderia dizer que teria ali muita documentação, mas o fato é que se perdeu documentação.

C. P.: Qual era esse período?

H. J. F. M.: Não sei ao certo, mas acredito que tenha sido no século XVIII, mas não posso assegurar não. Ali eu sei que perdeu. Assim como em Portugal teve um terremoto e também que se perdeu muita coisa. Então é escasso. A referência sobre essa academia de 1792, o livro que eu conheço mais antigo que faz referência a ela é o livro do coronel Adailton Pirassinunga. O ensino na época colonial ou O ensino no Brasil na época colonial. Alguma coisa assim, que tem na Biblioteca do Exército. Esse livro foi escrito em 1958.

C. P.: Biblioteca do Exército daqui do Rio?

H. J. F. M.: É, na biblioteca aqui do Rio tem. E ele fala dessa academia de 1792. Depois tem um livro de 1962, História da Casa do Trem. Daí até o livro do Pardal, do professor Paulo Pardal, de 1985, eu desconheço quem tenha escrito mais sobre ela. O livro do coronel Adailton, no meu entender, certamente teve uma tiragem pequena e ficou muito restrito ao exército. Então não teve uma grande difusão. Já o do professor Paulo Pardal, como ele trabalhava no Cepedoc, em outra época, já aparecendo os computadores, em 1980 e pouco é que isso já se deslanchou. Se teve algum antes do coronel Adailtom, falando sobre essa academia, eu não conheço.

C. P.: Casa doTrem, onde é hoje o Museu Histórico Nacional?

H. J. F. M.: Exatamente! Lá foi onde começou. Você observa assim, em termo de Engenharia, no âmbito militar, e repare que logo no início em 1710, 1712 houve duas invasões francesas aqui na baia de Guanabara, onde o ouro já saia do porto daqui do Rio. Então você vê a relação entre a descoberta de riquezas de maior valor como os diamantes e o ouro e a questão de delimitar território, de ocupar território etc. Imagine essa academia de 1792, já havia uma parte no sexto ano (a gente conhece nome de aluno, nome de professor, estatuto, conteúdo de cadeiras).Tem no livro do professor Paulo pardal, um de capa amarela, tem lá o estatuto dela, o tempo de duração do curso. Então está formalizado. Tanto que a Congregação da Escola, já vem com uns 20, 30 anos, considera essa a origem do ensino nosso. E aí, pelo estatuto dessa academia você observa que já se ensinava conteúdos da Engenharia Civil, Hidráulica, Portos, Canais, Estradas, ou seja, ocupar o território e defender o litoral. Mas o território você tinha que ocupar, porque se deixa vazio alguém acaba entrando lá. E aí, o que acontece? A corte não estava ainda aqui no rio; ainda estava em Portugal; veio pra cá em 1808. Então a Academia ficava muito em função das ordens régias. Por exemplo, há uma carta para o Conde de Resende, que era o governador geral na época, dizendo que os alunos da Academia daqui [do Rio] tinham que seguir as mesmas coisas que os alunos da Academia de lá. Ficava limitado. E aí Portugal começa a ser de interesse da França. Napoleão tinha uma visão de tomar a Europa toda etc, e desde mais ou menos 1803, 1805 o Conde de Linhares, que era um dos ministros de Dom João VI, ele dizia que o futuro de Portugal estava nessa colônia daqui do Brasil. Portugal tem um território pequeno; talvez seja do tamanho de Pernambuco; com muito menos riquezas naturais, como se falava; aqui, é uma imensidão, só que politicamente era complicado vir pra cá e largar o território de origem. Em 1808 quando Napoleão começa a invadir realmente Portugal, eles vêm pra cá. Alguns dizem que D. João VI fugiu e tal, mas eu entendo que não. Que ele fugiu, fugiu, claro! Mas ele não fugiu pensando assim: “Pra onde é que eu vou?”. Já havia uma discussão. O Conde de Linhares havia se formado na Universidade de Coimbra; tinha passado muito tempo na França, na Inglaterra e tinha um conhecimento muito grande sobre economia. Ele percebia a importância da ciência como desenvolvimento econômico e ele era muito amigo do Jose Bonifácio (um brasileiro que estava lá em Coimbra, que estudou em Coimbra, que era um mineralogista), ou seja, um especialista nesse tipo de riqueza. E ai Dom João vem pro Rio, pro Brasil, passa por Salvador e se estabelece aqui no Rio. Em 1810 o Conde de Linhares, Dom Rodrigo de Souza Coutinho, cria a Academia Real Militar no final de 1810. Em 04 de dezembro de 1810. A anterior de 1792 não se tem mais nenhuma informação. Pelo menos desconheço sobre essa Academia a partir de 1810. Alguns professores dessa primeira instituição tornaram-se professores da academia de 1810. Alguns alunos, na própria criação diz assim, em 1810, que “as provas dos alunos do sexto ano…”. Ora, se há uma Academia iniciando agora, como é que ela já teria alunos do sexto ano, quinto ano? Vieram da anterior, né? Agora, você comparando o conteúdo programático das cadeiras, das disciplinas das duas Academias, a de 1810 é muito mais profundo do que a anterior. Acho até lógico: a anterior ficava a mercê do que era mandado fazer de lá e a segunda foi criada por uma pessoa que tinha um conhecimento científico maior e aí então começa essa Academia em 1810. Ela foi criada em 04 de dezembro e as aulas dela só começam em abril de 1811 na própria Casa do Trem onde funcionava a anterior. É um fato que não significa exatamente uma continuidade, mas tinha um forte indicio e com isso um dos detalhes do conteúdo programático que o professor ou teria que escrever o seu compêndio ou traduzir um compendio adotado. Então em termos de biblioteca (eu acho que um aspecto interessante) é que você tem a definição de uma atividade com livro. Mas não podemos esquecer que nos meados do século XVIII, ainda em 1744 e 1748 foram escritos dois livros de Engenharia aqui no Brasil: Exame de ArtilheirosExame de Bombeiros pelo José Fernandes Pinto de Alpoim que era professor da Aula Militar. Estes dois livros, o primeiro você vê que ele foi editado em Portugal. Na época era proibido ter imprensa no Brasil. E o segundo diz que foi impresso em Madri, mas os pesquisadores acreditam que ele tenha sido impresso aqui no Brasil mesmo, porque, como que iria imprimir um livro na Espanha que era um dos inimigos de Portugal? Parece que foi impresso aqui, mas escrito para burlar a corte. E esses são os dois primeiros livros de ensino de Engenharia aqui no Brasil. Aqui [na Biblioteca de Obras Raras do CT/UFRJ], acho que nós temos uma edição de xerox. Na verdade uma edição reprográfica de Exame de Artilheiros. Mas eu acredito que não tenha aqui a do Exame de Bombeiros, mas com certeza tem na Biblioteca Nacional. Então em termos de livros, tem esses livros do Alpoin, e eu já vi aqui também livros que teriam sido adotados na academia de 1792. Eu não estou lembrando o autor, mas não é difícil ver isso [risos].

C. P.: Ano passado a Biblioteca de Obras Raras do CT da UFRJ completou 200 anos. Muito provavelmente esse acervo pode ser até mais antigo do que esse de 1810.

H. J. F. M.: É possível sim. É possível que já tivesse livros aqui da academia de 1792 e com certeza tinha os livros do Alpoim. Se estão na Biblioteca Nacional; se foram impressos aqui, é anterior, com certeza.

C. P.: Na verdade a data 1810, de 200 anos, se refere ao ano da …

H. J. F. M.: Criação da Academia Real Militar. Mas lembre-se também que a gente deve agregar a isso que certamente livros vieram de Portugal na transferência, na vinda da corte para o Brasil.

C. P.: Por exemplo: aqui a biblioteca conta coma “Pricipia Mathematica” do Newton de 1739. Muito provavelmente esse livro fez parte dessa longa viagem…

H. J. F. M.: Não tenho dúvida! Com certeza fez parte. Ou seja, na verdade os 200 anos, a comemoração dos 200 anos da Academia Real Militar é um estimulador para analisar essa questão das bibliotecas. E depois da Casa do Trem, só em 1812, ou seja, levou-se um ano para ser transferida paro prédio do Largo de São Francisco [no Centro do Rio]. E essa biblioteca foi para lá e acabou dando origem a Biblioteca da Academia Real Militar. Nos estatutos dessa Academia Real Militar, se não me engano, fala de um guarda livros, do bibliotecário e isso é muito interessante para a profissão.

C. P.: E alguns estatutos, regimentos posteriores à biblioteca já constam o nome dos engenheiros que assumiam a posição de bibliotecário, e mostrando, exatamente, que a biblioteca necessitava deste conhecimento sobre o que o acervo tinha em termos de conteúdo.

H. J. F. M.: É verdade.

C. P.: Professor, eu gostaria de perguntar, como o senhor avalia a importância deste acervo, da Biblioteca de Obras Raras do CT para a questão da memória da tecnologia, sobretudo para a Engenharia no Brasil, e sobretudo pensando nos pesquisadores?

H. J. F. M.: A Biblioteca de Obras Raras é uma das mais importantes do Brasil. Neste aspecto, a cidade do Rio de Janeiro é privilegiada por ter a Biblioteca Nacional e o Real Gabinete Português de Leitura. Temos um acervo espetacular, e a Biblioteca de Obras Raras que está associada ao pioneirismo do ensino de Engenharia Militar e Civil e em especial do Rio de Janeiro. Aqui tem um álbum fotográfico da construção da Avenida Central, que foi uma obra para transformar a capital da República, da recém-criada República, como a cidade modelo para o Brasil todo. Associada a obra da Avenida Central houve a construção do Canal do Mangue, saneando toda uma região que gerava epidemias, etc. Mas não só isso! Construindo um cais em que um navio pudesse encostar, pois até então ficava fundeado na baía. Escaleres que ficavam levando e trazendo coisas. Algo extremamente difícil, complicado, demorado e que ocasionavam perdas de material; e essa Biblioteca seguramente tem a memória da história do ensino de Engenharia no Brasil, final do século XVIII, todo o século XIX e primeiro quartel do século XX. Foi nessa Escola que se deu início da Tecnologia Brasileira, o ensino da teconologia, pois de 1810 até 1858, o ensino era em academias militares e em 1858 foi criada a Escola Central. Essa escola teve uma peculiaridade, pois era uma das escolas militares, dentro de um conjunto de escolas militares. Ela não tinha um diretor. Tinha um comandante. Os alunos usavam uniforme, mas ela era destinada a ensinar Engenharia Civil e também complementava o ensino dos alunos militares das outras escolas. Em 1874 ela é transformada em Escola Politécnica [com y, t, ch, etc.], e passa a ser uma instituição civil do Ministério do Império, destinada a continuar o ensino. Ela assume perfeitamente, sem nenhum questionamento, sua identidade civil. Em 1876, Dom Pedro II cria a Escola de Minas [Ouro Preto], dois anos depois, destinada a questão minerológica daquela região. Provavelmente naquela época a exploração já entrava em decadência e Dom Pedro II, que era um homem que gostava de ciências, certamente entendeu que se ele adotasse um processo científico naquela exploração, ele resgataria um aumento na produção, ou seja, numa escola localizada no interior, pequena e específica para um determinado assunto. Só em 1794 foi que surgiu, vinte anos depois da Politécnica do Rio, a Politécnica de São Paulo. Em todo o século XIX, o ensino e o desenvolvimento da tecnologia foi feito no Rio de Janeiro. Foi aqui, ainda na Escola Militar da Corte, a primeira experiência de telegrafia, feita pelo Barão de Capanema, em 1851. Também em 1872 houve a primeira experiência com iluminação elétrica, em comemoração do cinquentenário da independência, colocaram a estátua do José Bonifácio no Largo do São Francisco e fizeram um grande evento. Tinham faixos de luz elétrica iluminando a estátua, uma grande novidade. No livro do professor Silva Telles, ele fala de uma experiência em utilizar gás de mamona nessa época, ou seja, isso era a tecnologia brasileira iniciando aqui.

C. P.: Então é o prédio onde hoje funciona o IFCS, né?

H. J. F. M.: É o prédio onde funciona o IFCS, exatamente, no Largo de São Francisco de Paula. Em 1811 não havia outro lugar para funcionar. As aulas da Academia Real Militar só começaram em 1811 na Casa do Trem, onde funcionou a academia anterior, imediatamente após a sua criação em dezembro de 1810. Funcionou durante o ano de 1811 e em 1812 é que começa a funcionar no Largo do São francisco de Paula, e ficou nesse local bastante tempo.

C. P.: Professor, e uma outra questão: como é que o senhor avalia uma eventual possibilidade de digitalização do acervo. Como o senhor encara essa questão da preservação deste material bibliográfico, que tanto serviu e tanto serve para a pesquisa na área de Engenharia e nas outras tecnologias?

H. J. F. M.: Bom, essa é uma questão complicada, porque depende muito de recursos. Eu particularmente acho que de onde se poderiam retirá-los é da Lei Rouanet. Eu vejo uma destinação de forma muito intensa a eventos considerados culturais, como por exemplo uma peça teatral, ou um filme, etc. Claro, são acontecimentos culturais, mas são de certa maneira financiados e que também trazem recursos para os seus produtores. A pessoa vai ao teatro e paga para ver a peça. O mesmo acontece com o cinema. Numa biblioteca, a consulta a um livro não é paga. Se é dentro de uma instiuição pública, então não é paga. Há muita dificuldade para se conseguir recursos vultosos para, por exemplo, uma digitalização. Então agora, você vai a um evento desse com sua entrada paga e antes de começar a peça ou o filme, você vê que esta produção tem o apoio de uma empresa aérea ou de um restaurante. Tem o nome de uma empresa estatal, tem toda uma publicidade. A Petrobras financia e faz propaganda de um time de futebol, por exemplo, e outras instituições também.

C. P: E por que não fazer esta propaganda na camisa de uma biblioteca, não é?!

H. J. F. M.: Exatamente! Mas não tem a visibilidade para o grande público. Então preste atenção no seguinte: são recolhidos recursos para atividades culturais. Eu concordo que são culturais, mas são atividades culturais que também dão retorno financeiro para o produtor, e não é o caso da biblioteca, entende? Então eu vejo que a preservação da cultura ainda está muito fragilizada no Brasil, não é verdade?! Muito fragilizada! Eu fico chateado porque, provavelmente digitalizar toda esta biblioteca, talvez seja da ordem de grandeza de 4, 5, talvez 10 peças teatrais produzidas. Esse evento cultural acaba quando deixa de haver uma procura grande pelo público, não é verdade? Enquanto aqui teria uma perenidade muito maior. Então eu acho muito injusta essa política, mas é um país que tem muitas injustiças, [risos], esta é uma delas.

C. P.: E uma outra pergunta professor: no início da nossa conversa, o senhor falou que quando chegou à UFRJ, o seu medo era sentir desconhecimento da história da instituição. O que o senhor sente hoje, depois de toda esta pesquisa, demonstrando todo esse conhecimento sobre essa história?

H. J. F. M.: Eu quero falar algo que eu não mencionei antes quanto a questão da transferência da escola para a Cidade Universitária. Bem, a Escola estava lá no Largo do São Francisco. Na época era chamada de Escola Nacional de Engenharia. Foi se construindo aqui uma Cidade Universitária. Este prédio, hoje ocupado pelo Centro de Tecnologia, todo ele foi construído e projetado para abrigar somente a Escola. Isso era uma demanda dos alunos, que já não cabiam mais no Largo de São Francisco. O laboratório de máquinas térmicas, da mecânica, funcionava na Rua Luís de Camões, onde hoje é o Centro Cultural Hélio Oiticica. Lá também ficava o restaurante da Escola. E a parte de eletricidade funcionava no Prédio na Praça da República 22 esquina com a Rua Visconde do Rio Branco, onde era o Instituto de Eletrotécnica, e ela não podia mais crescer. O prédio inicialmente tinha dois andares quando foi construido e foi aumentado, em 1905, se expandindo para três andares. Em torno de 1950 foi construído um anexo, ainda que considerado um quarto andar bastante desfigurado quanto à arquitetura néoclássica do prédio. Havia uma demanda muito grande por parte dos alunos para vir pra cá, só que estávamos no regime militar; os professores e a associação dos antigos alunos questionavam a conclusão das obras da Cidade Universitária, a conclusão dos laboratórios, do espaço para a biblioteca, etc. Num dado momento, a Escola foi transferida às pressas, segundo relatos dos professores Hugo Cardoso da Silva e Sidney Martins Gomes dos Santos, coincidindo com o que eu ouvi pessoalmente do professor Hugo Cardoso da Silva: “os livros da nossa biblioteca foram transportados nos caminhões da própria obra, como se fossem tijolos, foram colocados na boleia do caminhão”. Assim como você pega três ou quatro tijolos e joga para a outra pessoa que pega no ar. Os livros foram colocados assim. Os instrumentos foram transportados do centro da cidade pelos caminhões e pelos operários da obra, que estavam cumprindo seu dever, e lembre-se que a entrada só existia pelo lado da atual da Prefeitura [universitária]. Tudo era terra, e a poeirada que esse material todo pegou, os instrumentos que quebraram e o prédio que não estava acabado. Há relatos da turma de 1965 em que os alunos dizem que era mais fácil ouvir os barulhos da obra do que o professor dando aula. Então isso foi muito complicado para a Escola e de uma forma completamente desordenada. Não tinha local. Essa biblioteca não está nesse espaço desde aquela época. Foi colocada lá no térreo do bloco H. Uma vez, por volta de 1978 ou 1980, um professor nos procurou lá na elétrica e disse: “olha, tem uma porção de instrumentos numa sala aqui. Está tudo velho, tudo antigo e a gente está precisando dessa sala. São instrumentos de elétrica e a gente tirou muita coisa”. Eu infelizmente não tinha a noção da importância desse material cultural. Muita coisa se perdeu. Bem, então observa que, tanto o Museu da Escola [Politécnica] quanto a Biblioteca de Obras Raras, proveniente da Escola, sentiram, digamos, na carne o processo de transferência. Era muito importante… Desejava-se isso… Foi importante. Hoje a escola é muito maior. Cresceu bastante, mas foi um processo traumático para a instituição. Tanto para os alunos, quanto para os professores. Não tinha professor em tempo integral naquela época no Brasil inteiro. Os professores para vir aqui, tinham que sair do Centro da cidade para chegar aqui, como?! Aqueles que tinham carro, tudo bem! Os alunos, como é que vinham para cá? Poucos tinham carro. Muito poucos. Então não tinha aula direito. Era muito confuso isso aqui. A escola perdeu muito prestígio nesse período por causa dessa transferência traumática [risos].

C. P.: [Risos] A pergunta que eu tinha feito era como é que o senhor se sente hoje, depois de tanto tempo, tendo absorvido tanto conhecimento, ser um dos maiores conhecedores da história da instituição?

H. J. F. M.: Bom, [risos], eu não sei se sou um dos maiores conhecedores. Eu vim pra cá em 1973. Fiquei durante muitos anos, exclusivamente, no bloco H. Reformamos, eu e o professor Marcio Vinagre, que hoje está na UFJF, junto com os funcionários, com o Flávio, o Jorginho, o Sérgio, que estão lá no DEE. O Vítor, que já está em outro lugar; como o seu Casimiro que já faleceu. Nós reformamos todo um laboratório de máquinas elétricas. E até 1994, quando o Benzecry me “laçou pelo pescoço”, [risos], e virei vice-diretor. Em 1996 ele teve que sair da direção, e eu acabei assumindo, e depois fui eleito por duas vezes. Na hora em que assumi a direção da Escola, é que eu senti esse problema. Por que você vai a solenidades representando a instituição, isso é uma coisa que o diretor faz: ir ao Clube de Engenharia, ir ao Museu Histórico do Exército etc. E você tem que falar sobre a sua instituição. Quer dizer, a sua não, mas aquela que você está representando. Eu fiquei um pouco aperreado com essa história, e comecei a estudar, me interessar. Também tem um lado particular. Eu falei para você que a minha filha faleceu. Eu perdi uma filha. Ela foi atropelada. Foi um processo traumático também. Eu fiquei muito mal de cabeça por um ano. Inclusive eu abandonei o Doutorado em Engenharia Elétrica. Eu comecei a procurar coisas de memória dela, fotografias etc. Comecei a construir a memória dela para deixar para os primos etc. Então esse processo memorial, que não é história, começou uns 10 anos antes. Em 1996, quando eu assumi a direção, eu começei a entender, procurando saber mais sobre a história da instituição. Há uma relação, uma simbiose, uma intimidade entre memória e história, não é verdade? São coisas distintas, mas elas se tangenciam, elas se tocam. O Museu da Escola era um negócio que me encantava, mas eu era o diretor e ainda trabalhava no laboratório e ministrava minhas aulas de elétrica, eu não tinha tempo de me dedicar ao Museu. Quando estava acabando o mandato, me perguntaram o que eu gostaria de fazer, e eu disse que gostaria de tomar conta do museu. Em 2005, já próximo de terminar o último mandato, eu comecei a estudar história à noite na Universidade Veiga de Almeida. Foi muito bom! Evidentemente encontrei professores excelentes, e também alguns, digamos, não excelentes, como em qualquer instituição de ensino. E até me deu um embasamento mais científico sobre história. Só que depois começou todo um processo de eleição para o Clube de Engenharia. Acabei abandonando o curso, mas hoje eu não me considero o maior conhecedor não. Acho que o professor Silva Telles é a nossa maior referência, graças a Deus, embora fisicamente ele tenha uma certa dificuldade no andar, mas mentalmente ele está perfeitamente lúcido. Os livros dele, por exemplo o História da Engenharia no Brasil, são considerados, na minha opinião, referências obrigatórias para qualquer trabalho sobre ensino de Engenharia no século XIX, sem a menor dúvida. O livro do professor Mario Barata, um historiador que não foi Engenheiro, irmão do professor Fernando Barata, Escola Politécnica do Rio de Janeiro: berço do ensino na engenharia, Largo de São francisco, extremamente importante. Os livros do professor Paulo Pardal. O professor Sidney Santos, ele começou um projeto muito interessante sobre a Memória da Engenharia Nacional. Ele constituiu uma comissão. Ele foi da turma de 1935. Tomou depoimentos de colegas, de Engenheiros, etc, mas ele já estava com uma idade bastante avançada, e acabou ficando limitado o seu trabalho. Mas ele tem alguns escritos que reuniu em alguns livros, que temos aqui, que na verdade é como se fossem coletâneas de trabalhos que ele apresentou e discursou em aulas magnas. Pedro Carlos da Silva Telles, Mário Barata, Sidney Martins Gomes dos Santos e Paulo Pardal, são as referências, digamos, são as referências bibliográficas primárias. Bom, deve-se colocar também o Coronel Adailton Piracinunga, que falou mais sobre o século XVIII. Eu, talvez saiba um pouco dessa história, mas entendo que tenho muito mais a estudar, por exemplo, o próprio tema da [minha] tese, que é a Escola Central, qual é o seu objetivo. O objetivo da tese é mostrar que a Escola Central consolidou o ensino de Engenharia Civil brasileiro. Por que? Por que isso não foi considerado até então? Ela durou de 1858 a 1874. Foram 16 anos. Um tempo pequeno para você consolidar um nome. Ela se transformou em Escola Politécnica. Em 1874, quando tivemos um enorme investimento na construção do Império Brasileiro, no desenvolvimento das comunicações, do transporte, da distribuição de água, da urbanização. Esses investimentos tornaram-se intensivos na cidade do Rio de Janeiro, e foi até 1937. Então ela tem 60 anos de existência. O nome da Escola Politécnica ficou muito forte. Foi feita uma analogia com a École Politechinique de Paris, então, por exemplo, a época da Escola Central. Eu acho que ela foi e deve-se estudada mais ainda. Conheço alguma coisa, não vou fazer aqui falsa modéstia, mas acho que ainda tem muita coisa a se estudar. Uma das coisas que a gente observa nessa questão é que o livro do professor Silva Teles vai até meados do século XX, mas a partir daí, ficou muito difícil se escrever a história da Escola. Até porque a Escola foi crescendo muito, havendo a criação de muitas especialidades de Engenharia (a elétrica, a metalurgia e a mecânica já existiam). A própria Civil se desdobrou em transportes, em recursos hidráulicos e saneamento. Houve uma divisão forte nesse âmbito da própria Engenharia Civil e na Engenharia Industrial. Então o livro do professor Silva Teles, que vai até mais ou menos 1960, já tem seus 50 anos, seria necessário alguém (ele não tem mais condições físicas de segurar isso, até já procuramos ele: eu e um ex-aluno daqui da Escola que era diretor lá do Clube de Engenharia), para escrever um pouco mais sobre a história recente da Escola. Nós procuramos o Silva Teles, mas ele disse que precisa de uma equipe, pois não tem mais condições físicas, e é muita coisa. A escola aumentou o número de professores, o número de cursos e o número de alunos, nas suas instalações, na criação de laboratórios etc. A própria Engenharia no Brasil, a criação de escolas espalhadas pelo país inteiro etc. Talvez se possa fazer um estudo mais focado aqui nessa Escola. A história é um negócio interessante, por que ela nos remete no tempo, ao passado. Nos faz pensar o presente e nos dá elementos, ou parte de elementos para se projetar um futuro. É algo muito cativante, por que você viaja no tempo, assim como você lê um romance em que o autor começa a descrever uma praça em que o rapaz vai encontrar pela primeira vez uma namorada, ou alguém que ele está extremamente apaixonado e ao invés de falar, deixar de descrever a paixão do rapaz, para uma etapa posterior, ele descreve toda beleza da praça, etc., isso faz com que a gente comece a imaginar aquilo, e a imaginação é uma das coisas mais criativas do ser humano; ele viaja sentado, ele viaja no tempo, e a história, pelo menso para mim, ela faz isso… Fico imaginando como era o Largo de São Francisco, como era uma aula, então, [risos], espero ter alguns anos mais de vida, de ânimo e de vigor para venerar e me dedicar a tudo isso. É o que eu tenho feito no momento.

 

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