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“Seria uma atitude ingênua esperar que as classes dominantes desenvolvessem uma forma de educação que proporcionasse às classes dominadas perceber as injustiças sociais de maneira crítica” (Paulo Freire).

Ao iniciar essa escrita, o mergulho nas palavras de Paulo Freire nos faz pensar nos caminhos e nas diferentes possibilidades que podemos criar para garantir o acesso à cultura letrada para milhões de brasileiros que ainda não têm o direito ao livro e à leitura garantidos.

Discutir e se mobilizar para as pautas da educação são atitudes esperadas dos professores e profissionais dessa área. Mas, pensar e propor a educação não deve se limitar a esses profissionais. É primordial que todos estejam engajados na luta por uma educação pública e de qualidade, que contemple também melhores condições salariais e de trabalho para todos os profissionais da área.

Nesse sentido, a Rede Nacional de Bibliotecas Comunitárias (RNBC) se engajou na Semana de Ação Mundial (SAM), uma iniciativa realizada simultaneamente em mais de 100 países, desde 2003, com o objetivo de mobilizar e envolver a sociedade civil em ações de incidência política em prol do direito à educação.

Biblioteca Comunitária Prazer em Ler em ação na SAM. Foto: divulgação

Este ano, a SAM teve como tema o Plano Nacional de Educação (PNE), que completa cinco anos e ainda não teve nenhuma de suas metas integralmente cumprida. As bibliotecas comunitárias da RNBC participaram da SAM promovendo atividades de reflexão e mobilização sobre a importância de lutar pelo direito da população brasileira à uma educação de qualidade.

Ao voltar o olhar para as diferentes estratégias que o Plano Nacional de Educação apresenta ao longo de suas 20 metas, a Rede Nacional de Bibliotecas Comunitárias reconhece a sua importância no fomento e incentivo de ações que se conectam com boas práticas culturais e se organiza em várias cidades do Brasil onde atua, com atividades que buscam colaborar com o processo de formação de leitores e escritores.

Vemos, no entanto, que é urgente estabelecer de forma mais efetiva, ações que dialoguem com as metas propostas pelo Plano Nacional de Educação, abrindo assim, caminhos para a promoção e inclusão social de milhões de brasileiros que ainda não sabem ler e nem escrever.

Num momento em que o povo brasileiro tem sido coagido, desrespeitado e furtado de tantas conquistas, é necessário trazer essa reflexão para dentro das bibliotecas, que estão inseridas em áreas periféricas das cidades, com negação de direitos básicos.

Não podemos compartilhar de um retrocesso que apoia o desmonte educacional em suas diferentes esferas de atuação. Com a proposta de discutir e colaborar com ações em diferentes perspectivas, nos lançamos a esse desafio de dizer a nossa palavra e possibilitar a criação de mundo possíveis por meio do livro, da leitura, da literatura e das bibliotecas.

Mônica Verdam e Fábio Rogério, integrantes da RNBC, estriveram presentes em Brasília no lançamento da Campanha da SAM, participando das mesas e debates do eventos. Foto: divulgação

Entre as diferentes atividades vivenciadas nos espaços das bibliotecas comunitárias, registramos a experiência com os pequenos mediadores de leitura da Biblioteca Comunitária Prazer em Ler, da cidade de São Luís do Maranhão, integrante da rede Ilha Literária.

A atividade desenvolvida teve como tema “PNE: com a palavra as crianças”, para que pudessem falar sobre a escola, os seus desejos, desafios e boas histórias por meio do registro de palavras que desejam deixar acordadas e adormecidas na escola.

Ouvir as crianças foi uma das experiências mais significativas que já vivi. Sempre nos debruçamos para planejar e discutir com os professores e profissionais da área da educação essas questões. Agora ouvi a quem de fato é uma das peças mais essenciais desse processo foi muito enriquecedor (Claudileude Silva, Coordenadora da Biblioteca Comunitária Prazer em Ler-São Luís-Ma).

Iniciativas como essas revelam que apesar de existirem diferentes iniciativas que priorizam as ações de formação de leitores, a exemplo das bibliotecas comunitárias, a situação ainda é preocupante. Se faz imprescindível o investimento continuado em ações que garantam o acesso à cultura, ao livro e à leitura envolvendo os diferentes atores, poder público e sociedade civil, adotando dessa forma uma responsabilidade compartilhada no propósito de disseminar o acesso à essa cultura letrada.

Os dados levantados pela Campanha Nacional pelo Direito à Educação em parceria com o Laboratório de Dados da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco) em 2018 apontam que mais uma vez o Brasil não conseguiu cumprir com o pacto firmado internacionalmente de reduzir pela metade o analfabetismo.

A maioria das metas e estratégias previstas no PNE para serem alcançadas até 2024 não foram cumpridas. Esses dados confirmam a necessidade de investimento contínuo em ações que sejam capazes de garantir que, em uma sociedade, na qual o acesso à leitura é tão valorizado, e ao mesmo tempo restrito à pequena parte da população, as pessoas façam uso de fato da leitura nas mais diversas situações que forem exigidas.

As bibliotecas comunitárias exercem um papel essencial no processo de formação de leitores, ampliando as possibilidades de potencializar as ações já existentes, bem como, o engajamento de vários agentes que, de forma articulada, se mobilizem para diminuir esse número tão expressivo.

“Se a educação sozinha não transforma, sem ela tampouco a sociedade muda” (Paulo Freire).

Encerrar com esse grande mestre é um convite para convocar todos para assumirem a responsabilidade de forma compartilhada de criar mundos possíveis para que o livro, a leitura, a literatura e a biblioteca estejam sempre presentes nas mais diferentes ações que transversalizam a educação.

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