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Quando eu era pequena minha mãe sempre tentou me ensinar que deveria pensar muito bem antes de falar. Algumas amigas me acusam de não ter filtro entre o cérebro e a boca ou os dedos já que agora grande parte de nossa comunicação é feita de forma escrita. Se expressar se tornou uma tarefa diária de diplomacia.

Os conselhos da minha mãe se tornaram muito mais importantes em uma época que determinadas palavras se tornaram verdadeiros palavrões. Temos de nos comportar de uma maneira esperada, proferir as opiniões apenas agradáveis aos outros, pois se não corremos um serio risco de sermos vistos como racistas, xenófobos, machistas, radicais…

E o mais engraçado é que você pode ser acusada de coisas diferentes no mesmo dia e até de coisas que se confrontam. Pensemos juntos: se você chegar para sua amiga que entrou na moda da não depilação e falar “eu não gosto desta ideia, acho que depilação é uma forma de higiene”, bem você provavelmente vai ser acusada de estar corrompida pelos moldes sociais impostos às mulheres e vai escutar a tal frase: “moça, você é machista”. Mas se chegarmos para um amigo e começarmos a falar sobre o direito da mulher sobre seu próprio corpo, acredite você vai se tornar a feminista mais radical na visão dele.

Já no governo Lula em 2004 foi lançada uma “Cartilha do Politicamente Correto” que vem sendo atualizada e ganhando outras versões pela rede. Na tal cartilha há palavras e expressões que segundo a autoria não se encaixam no falar “correto”. A primeira frase que, segundo a cartilha, é politicamente incorreta é “A coisa ficou preta”, pois “a frase é utilizada para expressar o aumento das dificuldades de determinada situação, traindo forte conotação racista contra os negros.” Ou então indo à letra B encontramos o termo “Barbeiro – O uso da expressão, no sentido de motorista inábil, obviamente é ofensiva ao profissional especializado em cortar cabelo e aparar barba.”

Agora todo mundo tem que gritar: “vai lá motorista sem grandes aptidões ao volante!”. Mas será que vou estar ofendendo o volante?! Na verdade gritar, seja na rua, seja no transito, não é um comportamento aceitável. Ainda mais em um país feito para “Inglês ver”.  Pronto, fui politicamente incorreta!

Hoje, há uma superlativação dos fatos e, principalmente, de termos, mas a tal cartilha consegue levar isso ao extremo. Vou demonstra com um exemplo que acredito irá ficar muito claro, se é que já não ficou: “Comunista – Termo utilizado até recentemente para discriminar ou justificar perseguições a qualquer militante de esquerda ou de causas sociais. Desde as revoluções que explodiram na Europa, no final dos anos 40 do século 19, e principalmente depois da Revolução Russa, em 1917, os adeptos do socialismo e do comunismo tornaram-se os principais alvos das polícias dos Estados liberais e dos propagandistas do capitalismo. Contra eles foram inventadas as piores calúnias e insultos, para justificar campanhas de perseguição que resultaram em assassinatos em massa, de caráter genocida, por exemplo, durante o regime nazista na Alemanha”.

Comunista para mim era a pessoa que tinha inclinações às ideias comunistas. Então, segundo o pensamento de tal cartilha, jamais poderei falar que meu namorado é anarquista – afinal os mesmos também sofreram perseguições por seus ideais e ainda sofrem – ou ainda, na ideia pregada pela tal cartilha sobre o termo comunista, toda vez que me dirigir ao meu querido amigo Edilmar Alcantara, um bibliotecário extremamente questionador, um ativista (conhecidamente comunista), como “comuna”, estarei cometendo algo em detrimento à imagem dele?!

Temos de pensar se o politicamente correto na realidade não é uma forma de se viver os preconceitos de maneira velada, afinal se eu não falar, não expor os meus pensamentos, eu não ofendo o outro. Usar o bom senso para falar ou escrever é usual, mas o que estamos vendo é uma censura do tal politicamente correto. Não basta mudar a maneira de falar, mas sim a forma de agir, de pensar. Um país sem preconceitos não tem de ter cartilhas para se falar.

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