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RIO – No dia do Bibliotecário, a seção de diálogos traz pela primeira vez bibliotecários em dobro. As origens, a história e as mudanças da Biblioteconomia ao longo dos séculos são apenas alguns dos temas pelos quais permeou o bate-papo sobre epistemologia da Biblioteconomia, entre Márcia Feijão Figueiredo, bibliotecária do Colégio Pedro II, mestre em Ciência da Informação pelo IBICT e graduada em Biblioteconomia pela UNIRIO, e Gustavo Saldanha, bibliotecário do IBGE, professor assistente do curso de Biblioteconomia da UNIRIO, mestre e doutorando em Ciência da Informação e especialista em filosofia medieval. Ambos participando do grupo de pesquisa “Epistemologia Política e Ciência da Informação” do IBICT. Estes profissionais nos mostram que a Biblioteconomia, dialogando consigo mesma, acaba por dialogar naturalmente com muitas outras áreas.

 

Emilia Sandrinelli: A discussão de temas como Política e Filosofia relacionadas à Biblioteconomia é pertinente atualmente? Por quê?

Gustavo Saldanha: Eu acho que ela é pertinente e ela é intrínseca ao campo. Eu não vejo a política de lado na Biblioteconomia e muito menos a filosofia. Num primeiro momento, por questões históricas: nos primórdios do elo entre sociedade e organização do conhecimento é relacionada a presença de filósofos dentro do espaço de organização do saber. A gente vê uma coisa que é muito forte do filosófo atuando e colaborando ou sendo duplamente filósofo e bibliotecário na Antiguidade. A gente tem sempre a demarcação de Alexandria como grande “status” onde isso ocorreu, mas em outros momentos da história também tivemos esse encontro – outros momentos incluindo a Modernidade: filósofos se dedicando à organização dos saberes e grandes bibliotecários que foram eruditos que atuaram com essa relação. O campo da política me interessa mais agora e a sua questão bate com a minha formação atual que é o desenvolvimento do doutorado. Eu cheguei a tocar um pouco nesse ponto antes, mas nunca foi o meu foco. E por conta do contato direto com a minha orientadora – e orientadora da Márcia no seu recém-concluído mestrado – …ela tem um viés muito político no plano de estudos filosóficos. E a proposta da relação dela acabou me atraindo um pouco para o campo político e me levou a observar com mais atenção o quanto existe de um “quase imperativo”, um dever político do bibliotecário. Eu nunca parei para refletir onde está historicamente essa relação. Então pensar na política bibliotecária, retomando, não é uma questão atual, é uma questão permanente do pensamento biblioteconômico.  E agora, por conta da tese, eu comecei a mapear vários espaços de atuação política. E existem trabalhos incríveis, trabalhos como: a presença do bibliotecário e sua função no âmbito da espionagem da União Soviética e dos Estados Unidos durante a Guerra Fria – qual foi o papel político deles ali? Ou então: o papel político do bibliotecário em massacres na África. Quando a gente pensa na Biblioteconomia internacional, vemos a atuação política do bibliotecário como “atuação”, ou seja, eu faço organização dos saberes, eu trabalho com o processamento técnico, mas isso é de fato uma atuação política e, além disso, salta para a presença de movimentos de emancipação bibliotecária no meio político. Uma coisa que eu tenho visto, até então, é que “política” é importante, mas aparece em discursos prospectivos: bibliotecário tem que aparecer na mídia, bibliotecário tem que aparecer na discussão política, bibliotecário tem que batalhar. E isso é muito presente no nosso tempo. Bibliotecário tem que se auto-promover, ele tem que buscar sua afirmação. Isso cai muito no discurso de identidade profissional. E eu ficava só nesse olhar, política era só isso. Mas não, nós temos uma atuação histórica no âmbito político como um agente da democracia, como um agente dos direitos humanos. Presença de projetos como os da IFLA hoje, só para a gente mapear, por exemplo, um capítulo da IFLA que se chama “Genealogia e história local” (Seção 37), você já vê ali os bibliotecários “simplesmente” atuando como agentes políticos.

Márcia Feijão: Enquanto você falava, eu fiquei pensando também que a política não só permeia o espaço de atuação do bibliotecário com ele atuando como um “ser político”, como alguém que desenvolve políticas para pesquisa, para o desenvolvimento do seu trabalho, mas também que “sofre” políticas públicas. Ele, na verdade, quando atua em qualquer espaço, ele tem uma política local, que pode ser de uma biblioteca particular ou de uma biblioteca pública – essa política, ela intervém diretamente no trabalho dele. Por exemplo, eu trabalhando no Colégio Pedro II, se for olhar o lado político, a gente tem políticas públicas de educação, do envio de materiais, a compra de materiais, a preocupação de ser uma biblioteca escolar. Tudo isso influi diretamente no nosso trabalho, mesmo a gente sabendo que o bibliotecário ali é um bibliotecário escolar que atua com um segmento de usuários que é um segmento infanto-juvenil. Mas a influência das políticas públicas e do modo político até da instituição mexe com o modo do trabalho do bibliotecário. E com relação à filosofia, ela é extremamente necessária hoje para o nosso campo, sempre foi necessária, mas acho que em determinado período da história houve uma falta de atenção à filosofia, que agora está retornando. Quando eu estudava na UNIRIO, eu me lembro que, durante as aulas, o professor Marcos Miranda falava da epistemologia e a gente até ficava assim “mas, poxa o que é epistemologia?” e quando eu acabei me direcionando para a linha de epistemologia da informação no IBICT, atuando com a professora Maria Nélida González de Gómez e as pessoas que participavam daquele grupo como o Gustavo Saldanha e outras, a gente percebe o quão pouca é a reflexão na área. Na verdade, nós nos tornamos bibliotecários – e eu falo isso pela minha experiência, pela minha formação, pois quando eu chego ao meu trabalho ou na área de pesquisa percebo que falta aporte, falta subsídio filosófico para refletir a pesquisa, a atuação, a prática.

E. S.: Isso me faz pensar em uma questão muito antiga, que é a tentativa de definir a Biblioteconomia como arte ou como ciência. E esse afastamento da filosofia e a aproximação dessa parte tecnicista, eles afastam a Biblioteconomia de ser arte e ao mesmo tempo não a tornam ciência.

G. S.: Sem dúvida, eu me pego volta e meia fazendo uma brincadeira conceitual e estou trabalhando com a tentativa de afirmação dessa virada na tese de não falar muito de “organização do conhecimento”, mas falar muito de “organização dos saberes”. E esse conhecimento enquanto matéria científica, ele é fundamentalmente tecnológico e o sinônimo desse termo “conhecimento” é o termo “tecnologia”. Por saberes não. Pegando uma linha conhecida de pensamento que geralmente nos aproxima mais de uma corrente culturalista, esta linha nos leva a pensar que nós só “conhecemos” saberes. A gente não faz “conhecimentos” na academia. A academia é um outro espaço de elaboração dos “saberes” e, nesse sentido, a gente recupera – ou na verdade, elimina – a preocupação em dividir a nomenclatura [ciência ou arte]. Mas nós somos ou não somos ciência? Nós somos ou não somos arte? Nós somos ou não apenas um pacote de técnicas que precisa de um aporte de tecnologia, desdobramentos da técnica – e também de um aporte humanista. Não, nós somos um outro saber. E nesse sentido a sua colocação é pertinente: quanto mais nos aproximamos da tecnologia, talvez mais nos afastemos… A batalha agora não é por contestar a tecnologia, a batalha é para perceber o quanto a tecnologia tem de humana e o quanto ela tem de uma arte.

 

E.S.: Eu não estou falando exatamente da tecnologia, mas de uma prática tecnicista, que ele vai se importar em aprender uma parte totalmente prática, que não vai se importar com uma reflexão, com um lado político, que não vai se tornar um bibliotecário pensante.

G. S.: Eu recupero o termo “tecnologia” porque quando pensamos em “tecnicismo”, a gente vai ter um diálogo rápido de uma indicação da Márcia que é um livro importantíssimo para a gente ler, por ser um documento brasileiro. Que é o livro do…

M. F.: Álvaro Vieira Pinto. O conceito de Tecnologia. È um livro de 1973, se eu não me engano.

G. S.: Isso. E esse é um livro em dois volumes que trata do conceito de “tecnologia” e uma das coisas que a gente mais observa ali é um fracionamento da ideia de tecnologia para tentar nos livrar um pouco do conceito que nós temos. Primeira coisa: tecnologia não é tecnologia da informação e da comunicação. E nós temos essa dependência de pensar que quando a gente está falando e criticando a tecnologia é porque às vezes nós estamos pensando  que o twitter nos torna mais dispersos e desconcentrados ou que o facebook é uma ferramenta de entretenimento e em momento nenhum uma coisa séria… Não. Essas são tecnologias importantíssimas para o conhecimento, mas não são as únicas tecnologias. E quando a gente fala muito do “tecnicismo biblioteconômico”, o “tecnicismo” ele é, fundamentalmente, uma absorção de uma epistemologia da tecnologia do nosso campo. Qual é a grande tecnologia que absorveu essa visão nossa e que às vezes é totalmente tratada como uma grande revolução pós-biblioteconômica? O movimento documentalista, a “tecnologia da ficha”. Essa tecnologia é revolucionária no mundo, a repartição do mundo, a tripartição do mundo, a diversidade dele colocada a partir de uma multiplicação infinita de fichas. Isso – essa grande tecnologia – levou o bibliotecário a perder um pouco da sua crítica, uma visão totalmente tecnicista do mundo. Qual é essa visão tecnicista? O ato de compreender muito bem a dinâmica dos fichamentos do mundo – o mundo comprimido, ali, apenas em uma pequena ficha – e desdobrar aquilo ao infinito. Se eu souber o conjunto de padrões que rege a feitura dessas fichas eu já sou bibliotecário. E nós sabemos que filosoficamente, que politicamente, o bibliotecário é mais do que isso. Ele não é menos porque domina a técnica, mas ele não pode ser colocado apenas “como” essa técnica. E o desdobramento disso é o conjunto de tecnologias, de uns ramos específicos de tecnologias que hoje nós chamamos de TICs, as tecnologias da informação e da comunicação. Hoje nós podemos passar a achar que simplesmente ter uma boa ferramenta de interação, uma boa ferramenta de web 2.0, de web semântica – o termo que nós quisermos utilizar -, que a Biblioteconomia finalmente se encontra com uma identidade – identidade que para alguns ela não encontrou. Não é isso. Eu vejo desse jeito uma possível crítica ao tecnicismo, que, de fato, nos afasta de um conjunto de disciplinas históricas que nos davam um caráter fundamentalmente de Humanidades: história da arte, história da literatura, a própria teoria da gramática, da língua local e o conhecimento de outras línguas, isso, de certo modo, foi sendo substituído por movimentos curriculares, durante a década de 70, por disciplinas tecnicistas.

M. F.: A técnica não surgiu sem conhecimento, a classificação não surgiu de um estalo de dedo. Dewey era filósofo, ele tinha uma formação muito enriquecedora que ajudou a fazer a classificação. A formação do bibliotecário, até ele se limitar à técnica ou até existir essa grande importância da técnica, era de um bibliotecário erudito… …os primeiros bibliotecários, no início da formação, não na época que o bibliotecário não se formava e se tornava um por inserção no ambiente… Ele tinha que conhecer a arte, as ciências, a filosofia, ele tinha que ser um erudito. E quando a gente começou a limitar a técnica como a grande mola propulsora da área, a gente deixou de dar importância a esse valor da erudição, do conhecimento e dos saberes, não só do conhecimento cientifico, mas o saber fazer, o saber conhecer, a filosofia, a política, esses conhecimentos que formam o bibliotecário condicionado a fazer um trabalho reflexivo, não apenas técnico. A técnica é importante, ninguém consegue formalizar um saber sem hoje ter uma técnica de padronização de trabalho que permite até fazer o compartilhamento, mas o bibliotecário não é só isso. Ele trabalha com público e esse diálogo que ele vai ter com o público também tem que colaborar com a construção do saber naquele usuário.

E. S.: E isso também pode ser considerado uma prática social. Você acha que a área de Biblioteconomia está suficientemente voltada para essa parte da prática social?

M. F.: Acho que se tem falado muito disso, mas no momento, na prática, falta mais desenvolvimento. A gente tem essa consciência, a gente discute essa importância, reflete sobre isso, mas o agente social às vezes se esconde atrás da ficha de catalogação e ele não deveria se esconder na salinha de processamento ou no espaço dele. Ele tem que atuar e aí entra a importância do diálogo com o usuário e até de conhecer também além da biblioteca, sair da biblioteca, conhecer sua instituição, a missão. Se for, por exemplo, uma biblioteca popular, uma biblioteca pública, ele deve conhecer o seu entorno, conhecer o bairro e a necessidade do morador do bairro, a necessidade daquele usuário em potencial que pode utilizar o ambiente da biblioteca. E essa atuação social do bibliotecário passa pela reflexão, ele não consegue fazer um trabalho se ele se atentar apenas para a técnica ou para a tecnologia que ele vai utilizar. Ele precisa fazer a atuação dele como um ser político, como um ser reflexivo no mundo que ele atua.

G.S.: Eu concordo com a Márcia e isso retoma a sua questão anterior. O que o bibliotecário aprende sobre o seu fazer no meio social, no meio em que ele vive?  Essa movimentação curricular nos afasta de um desenho, de um conjunto de disciplinas que nos permitiriam pensar dentro da graduação o que é esse movimento político de envolvimento com o meio social. Não significa que a gente não possa buscar esse contato, apesar da grade curricular, da matriz curricular que nos é apresentada naquele momento. Mas nós perdemos o viés. Hoje nós encontramos escolas de Biblioteconomia – fora do país; aqui no Brasil, ainda não diretamente -, ligadas a institutos de ciências exatas. Esse não é um problema, esse é um índice para a gente pensar. E essa pergunta sua sobre a questão do envolvimento social… ela se perde, mas ele, esse bibliotecário x que tem essa formação, que conseguiu alinhar, ampliar a questão da tecnologia com o viés social, que é na verdade um viés humanista… Mas em geral ele não vai ter, porque ele não tem essa formação, ele vai ser talvez um grande e bom programador. Esse é o futuro que nos encerra? Eu acredito que não seja, mas o resultado dessa separação curricular nova nos fez cada vez menos agentes sociais. Em termos filosóficos, temos bons movimentos, a gente tem depoimentos de autores, por exemplo, do marxismo, que colaboram para demarcar o papel desse bibliotecário, leituras a tradição na UFMG do carro-biblioteca. A partir daí podemos mapear as ações locais realizadas por projetos da biblioteca itinerante. Esse é um dos exemplos, a gente têm vários dessa atuação social, mas – como a Márcia abriu colocando na fala dela que nós temos muito pouco de ações – isto serve para a gente olhar o tamanho da oportunidade nossa do que pode ser feito no meio social.

E.S.: No Brasil, hoje em dia, nós encaramos uma realidade de um bom desenvolvimento científico e tecnológico, estamos caminhando muito nessa direção, mas ao mesmo tempo, a gente encara números alarmantes de analfabetos, semianalfabetos e não leitores, pessoas que não tem a cultura da leitura. Vocês acham que o bibliotecário está atuando bem nessas duas vertentes, ou vocês acham que ele está mais inclinado para o usuário que vai utilizar a Biblioteca especializada do que para o usuário em potencial que ainda precisa ser levado para a biblioteca?

G.S.: Perfeito. O bibliotecário está muito mais “formado” hoje para ir para o lado da especialização. Ele não tem nenhuma pós-graduação que permita a ele – em termos de conjunto de uma matriz curricular – que permita a ele esse olhar mais social. Ele não está preparado para isso, ele não tem uma formação, exatamente por conta desse estreito curricular que nós tivemos dos anos 70 para cá. Então eu não percebo de fato esse movimento hoje, há uma grande guerra departamental para você fazer essa tentativa de recuperação de currículos. Por que nós devemos ter Sociologia ou Sociologia do Conhecimento no currículo de Biblioteconomia? Hoje isso é muito questionado, não porque não seja bom, mas porque existe uma demanda de novas disciplinas que envolvem um discurso tecnológico que é urgente e aí você tem o conflito de se saber como encaixar um currículo.

M. F.: Na verdade como é que você vai colocar um bibliotecário de frente para uma determinada tecnologia se ele não tem uma formação teórica erudita suficiente para utiliza-la? Ele vai ser um usuário mediano. Por exemplo, se você tem uma tecnologia que permite que ele faça um trabalho mais aprimorado e ele utiliza apenas para fazer uma catalogação, ele vai utilizar pela metade todas as possibilidades dela. È importante a tecnologia porque na verdade a gente não pode fugir ao seu uso, hoje ela já alcançou muitas classes sociais. Do outro lado do computador, daquele instrumento, será que o ser humano, o bibliotecário, ele tem uma formação que torna aquele trabalho melhor, mais substancial, mais robusto? Ou será que a gente aprende a fazer uma catalogação e depois a gente faz aquilo no computador e acabou? A gente usa a tecnologia, mas não promove mudanças. Um exemplo interessante é que a PUC tem uma conta no twitter e ela utiliza essa conta extremamente bem. Essa conta fala desde coleções gratuitas na Internet, ela fala de usos da biblioteca, de regras e de normas, de situações interessantes para o leitor, “olha leitor, dia tal, apesar das férias, nós vamos abrir de tal hora a tal hora”. Eles estão sempre dialogando com o leitor. E não estão utilizando a conta do twitter apenas para o alerta bibliográfico – vão além, falam de eventos na biblioteca ou de um material bom que eu encontrei para o meu usuário. A biblioteca de letras da UFRJ vem promovendo vários cursos gratuitos ou populares pela sua conta do facebook. Então a biblioteca não está pensando só no seu espaço catalogador ou técnico, mas ela está promovendo divulgação social, acaba atuando no social. Outra coisa que eu fiquei pensando, que é externa à Biblioteconomia, mas que acaba afetando, é em relação à educação. Quando você fala que o Brasil tem essa preocupação da ciência e da tecnologia, mas que tem também um analfabetismo muito alto, a gente tem que pensar que não é só o analfabetismo oficial, aquele que a pessoa coloca ali no governo que ela não lê e não escreve, mas a gente tem também o analfabetismo funcional, não só os bibliotecários, mas a grande população tem uma formação muito singela, muito frágil e quando chega na graduação ela não tem condições de entender quando a gente acaba oferecendo disciplinas a mais ou coisas que façam ele refletir para que não se torne apenas um técnico. Na verdade, a gente tem uma cultura muito técnica nas profissões, cada profissão pensa na técnica para elaborar um documento, na técnica para fazer um procedimento, a técnica para, no nosso caso, fazer serviços de padronização de acervo para organização, mas é um problema maior até, é um problema cultural de formação desde lá de traz. Desde o momento que a criança é alfabetizada até ela chegar na graduação, a gente tem um problema cultural de falta de formação, tanto que os melhores colégios, – por exemplo, aqui do Rio, o Santo Agostinho, o Santo Inácio, o Colégio São Bento – oferecem disciplinas de Humanidades, que torna aquele aluno quando ele se forma não só bom de português, mas um pensador, de certa forma iniciante, mas ele está ali pensando o Brasil dele, a cidade dele, o futuro dele. E em geral a gente não tem isso na formação do brasileiro que também se reflete na formação do bibliotecário. Como a gente importou essa formação tecnicista e com o tempo se ampliou o número de escolas de Biblioteconomia, essa formação exige menos da escola, do professor e talvez até do aluno, mas nos torna mais rasos para desenvolver o trabalho dentro de uma biblioteca.

E. S.: Para finalizar, vocês dois participam do grupo de pesquisa “Epistemologia Política e Ciência da Informação”. Eu gostaria que vocês falassem um pouco da pesquisa que vocês desenvolvem nesse grupo e dos projetos de pesquisa de vocês também.

G. S.: O grupo ele é formado por pensadores que estão envolvidos com o programa de pós-graduação em Ciência da Informação do Instituto Brasileiro de Informações em Ciência e Tecnologia e é coordenado pela professora Maria Nélida González de Gómez, professora de grande importância para a pesquisa epistemologia no Brasil, além do conteúdo de seu trabalho, mas por ser uma das principais personagens da única linha de pesquisa em epistemologia da Ciência da informação no Brasil. Então, o que tem sido feito sobre organização dos saberes no país, em termos de pós-graduação, nós temos poucos programas e desses apenas um deles manteve historicamente uma linha voltada para os estudos epistemológicos. A Nélida então montou esse grupo [com Lena Vânia Ribeiro Pinheiro, chamado Teoria, Epistemologia e Interdisciplinaridade em Ciência da Informação] cujo principal objetivo é o encontro dos profissionais que estão de algum modo envolvidos com estudos epistemológicos dentro do IBICT, não necessariamente orientandos dela, mas que fazem parte dessa temática ali dentro. A Márcia se integrou ao longo do mestrado, depois ela vai falar um pouco sobre a pesquisa dela e eu, como doutorando do programa, também me integro. A minha pesquisa, por ter feito exatamente uma tentativa de reconstrução filosófica do pensamento da Ciência da Informação – mas não focado na gênese da Ciência da Informação, mas sim focado na gênese da organização dos saberes – envolveu por isso os domínios que estiverem ligados a esse campo, então passando pela Ciência da Informação, pela Documentação, pela Bibliografia, pelo Bibliologia, pela Biblioteconomia e teve parte da pesquisa sustentada nas duas grandes disciplinas das Humanidades, que, partindo de uma hipótese de trabalho, sustentam boa parte dos nossos cursos de fundação no século XIX, como também boa parte dos nossos cursos de renovação hoje, que são as disciplinas: Retórica e Filologia. Esse seria um resumo bem sucinto do que eu pesquiso e daquilo que leva a minha integração a esse grupo de pesquisa.

M. F.: Cada pessoa nesse grupo trabalha com o viés epistêmico da informação dentro da sua pesquisa. Nem todos são bibliotecários no grupo – temos arquivistas, museólogos, historiadores e, cada um dentro do seu interesse, desenvolve a sua pesquisa. A minha pesquisa continua atrelada à validação, porque eu quero trabalhar com a validação da informação pelo usuário na Internet, na verdade, eu trabalhei com a informação imagética, eu queria entender como o meu usuário, ao fazer buscas na Internet, utiliza critérios de julgamentos. Como ele julga aquela imagem informacional quando recupera essa informação em um site de buscas ou em uma base de dados científica fechada. E eu quero me manter nessa pesquisa até porque a reflexão que a dissertação me trouxe talvez me leve a um novo patamar, um patamar do conhecimento como a credibilidade primeira, o primeiro critério de julgamento para a validação dessa informação. Então eu vou continuar dentro dessa linha de validação, dentro das buscas de informação na Internet, na web e compreendendo também como é que o pesquisador utiliza essa informação imagética no seu ambiente de pesquisa.

 

 

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1 Comentário

  1. Giannina
    26 de janeiro de 2013 a 19:36 —

    Essa matéria pode ser um excelente ponto de partida para pensar mudanças nas diretrizes dos cursos de Biblioteconomia.

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