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Somos muito, mas muuuuito mais complexos do que podemos imaginar. Daí, num daqueles fabulosos saltos evolutivos, desenvolvemos a ciência para dar asas à nossa imaginação e trazer de volta na bagagem evidências que nos permitem entender as pulsões da vida em nós e para muito além de nós. E, é show de bola usar o conhecimento adquirido para promover melhorias à todas as vidas. Ao menos é assim que deveria ser. Muitas vezes têm sido. Muitas vezes essas melhorias não chegam a toda a gente, como deveria. Foi assim, imaginando e fazendo ciência que descobrimos, por exemplo, o porquê de apesar de partilharmos com os chimpanzés 99% do nosso código genético não somos chimpanzés e os chimpanzés não são humanos: porque os genes se comportam de forma diferente nos órgãos, no sangue e no cérebro. Entre estes genes está o FOXP2, comum a todos os primatas aliás, mas mutante em nós, seres humanos, o que nos permitiu um estupendo salto evolutivo: o desenvolvimento da linguagem oral, aparentemente, há mais de meio milhão de anos, como consideram alguns pesquisadores.

E lá vamos nós falar de… ler e levar a ler, trilhando a trilha das descobertas científicas. Nosso cérebro não é programado para ler. Ou seja, a tecnologia da escrita foi um gigantesco salto evolutivo, uma invenção humana ocorrida há cerca de 6 mil anos — um fragmento de tempo para quem está no planeta há mais ou menos  7 milhões de anos. E segue, até hoje, dando muito trabalho para o nosso cérebro processar. E ele o faz usando diversas regiões cerebrais. “A região occípito-temporal esquerda reconhece a forma visual das palavras e distribui para inúmeras regiões, distribuídas por todo o hemisfério esquerdo, implicadas em graus diversos na representação do significado, da sonoridade e da articulação das palavras. Aprender a ler consiste, pois, em por em conexão as áreas visuais com as áreas da linguagem oral”, explica Stanilas Dehaene, neurocientista francês no livro “Neurônios da Leitura”.

NOSSO CÉREBRO NÃO É PROGRAMADO PARA LER

Aprender os sons da língua, a imagem da letra, o sentido das palavras é resultado de um longo e cuidadoso processo de interações entre humanos que nasce no útero materno e segue por toda a nossa curta eternidade neste pálido ponto azul – ou em outro qualquer que venhamos a habitar. Somos, primeiro, leitoras(es) de ouvir, seguindo o percurso do que é natural em nós e programado em nosso cérebro, para pouco a pouco, amparadas(os) por leitoras(es) e leituras, “ouvir de outra forma” por meio da escrita. Leia/ouça este trecho do poeta espanhol Francisco de Quevedo:

“Retirado na paz destes desertos, com poucos, porém doutos livros juntos, vivo em conversação com os defuntos, e os mortos eu escuto, olhos desperto”

Assim chamamos para nós nosso lugar de fala. E esparramamos nossa voz na escrita que anuncia e denuncia. Que nos põe alerta. Tece redes de sentido, de afetos, de indignação, de luta, de sonhos. No tempo e no espaço. Sem tempo e sem espaço. Na escrita a preservação da memória. No insurgimento da escrevivência, como nos ensinou Conceição Evaristo.

Ora, claro está a magnitude do estupendo esforço de células, genes, neurônios para que possamos aprender a LER e a gostar de ler. Saber ler e gostar de ler, bem como seu oposto, não é transmitido por herança biológica – embora o transtorno da linguagem, a dislexia, sim — e mesmo para ela há estratégias e recursos disponíveis para ser tratada. E como tem revelado a neurociência para o mundo: o ambiente é uma força motriz importante porque atua em cima da programação existente no cérebro. Falar de ambiente é falar de forma irrefutável na presença e ação de pessoas: famílias, professoras(es), bibliotecárias(os) leitoras(es). Ambientes estruturados e leitoras(es) afinadas(es) para promover práticas leitoras diversificadas e significativas, apoiando a jornada de formação leitora de crianças, jovens e adultos. Porque sim, apesar do trabalhoso percurso cerebral para viabilizar a constituição da habilidade leitora, todas(os) podem aprender. Melhor e imprescindível iniciar nos primeiros anos de vida, mas sempre é tempo, com o cuidado e apuro necessários, como nos ensinou o mestre Paulo Freire.

Alguém teve influência na sua formação leitora? Esta é pergunta que não quer calar em muitas pesquisas sobre alfabetismo e hábitos de leitura, cujos dados sempre informam mães, professoras(es) e pais no topo de influenciadores.  Mas há quem diga que ninguém influiu em sua formação leitora. É aí que, pra mim, “a porca torce o rabo”. A 4ª. Edição da pesquisa Retratos da Leitura do Brasil, por exemplo, com amostra de 5.012 entrevistas, revelou que para 67% ninguém influiu. Entre leitores o percentual é de 55% e entre não leitores 83% — páginas 206/207 da publicação editada pelo Instituto Pro Livro. Respostas desta natureza me inquietam profundamente, porque contraria, na raiz, o que é a base sem a qual não há aprendizagem para nada: o outro. Afinal, qual a possibilidade de atravessar oceanos de desafios na mais profunda solidão? A mim parece bem pouco provável que seja possível. Talvez seja uma “falsa memória” —algo bem possível como revela a neurociência acerca dos processos relacionados à construção de memória. “Em certa maneira, nossa memória é um ato criativo. Sempre que recordamos podemos recriar. É como trabalhar em um arquivo Word: abrimos, modificamos, salvamos, e quando abrimos novamente será sempre a última edição modificada à qual teremos acesso”, explica o neurocientista argentino Facundo Manes.

Minha jornada leitora é profundamente marcada pela presença de muita, muita gente, começando com meu pai. Um dia, há alguns anos, escrevi sobre minha experiência com ele: uma percepção que levou décadas para irromper, e se você tiver a curiosidade de ler vai entender o porquê: nasceu de uma experiência atípica diante dos relatos mais comuns. E fico imaginando quantos e tantos outros relatos incomuns devem existir e que por assim serem podem mascarar — ou enganar nossa memória — acerca de quem influenciou/influencia nossa jornada leitora.

No livro “Memórias de um sobrevivente” o escritor Luiz Mendes — que se tornou um grande amigo e parceiro de trabalho — relata seus primeiros contatos com histórias de ficção em uma na penitenciária, enquanto estava na solitária: histórias contadas por um detento por meio de um canal de comunicação viabilizado pelo esvaziamento do vaso sanitário, permitindo a passagem da voz. No livro ele deixa claro que o contato com outra cultura fez desmoronar nele a cultura da violência. Luiz é leitor voraz, todos sabem. Um dia conversando com ele perguntei se tinha o mesmo sentimento que eu, de que a grande razão de sua conversão leitora tinha sido, antes dos livros, a companhia daquele narrador de histórias na prisão, que o havia guiado generosamente na direção dos livros e das leituras que se tornariam companhias frequentes em sua vida. Ele me olhou nos olhos com muita intensidade e disse: “sim, com certeza!”.

Nilma Lacerda, professora, escritora e pesquisadora, amiga tão querida e grande parceira, centrou foco com o devido espanto à esta resposta nas pesquisas: a ausência de alguém que influenciou na jornada leitora. Lemos em rede, em processo que não se realiza sem a intervenção de pessoas alfabetizadas. Quando Nilma fala de pessoas alfabetizadas, fala de pessoas leitoras. O artigo de Nilma, baseado nos dados do item Maior influência / Incentivo na disposição para a leitura, por grupos de alfabetismo, obtidos por meio de pesquisa realizada no Inaf 2015 (índice de Alfabetismo Funcional), é o único a que tive acesso até hoje que dialoga e diverge enfaticamente deste dado que aparece nas pesquisas para afirmar com convicção e poesia, como sempre faz: sim, ao lado de cada leitora e leitor existiu uma leitora ou um leitor que de alguma forma, em algum e por algum tempo, a(o) inspirou/conduziu no universo da leitura, no oceano das letras. Faço aqui um convite imperdível: mergulhe nesta live de Nilma Lacerda da qual, tenho certeza, você retornará convicta(o) e encantada(o) com a ideia de que não há outro modo de nos fazermos leitoras(es), escritoras(es), pensadoras(es), seres humanos, enfim. Nilma faz uma regressão a tempos ancestrais, quando ainda habitávamos cavernas: um pote de água, um utensílio de uso funcionário, sobre o qual está impresso uma imagem. “Para quê? Talvez para ver-se naquilo que faz”. Mergulhamos nas letras de onde imergimos para conhecer a saga humana na Terra, saber-se parte dela, e para dizer quem somos, com todos os nossos abismos, sonhos, grandezas de que somos capazes e melhor seremos na medida em que estejamos aptos a tomar a posse da palavra e com ela tecer no hoje e no agora o novo bom e melhor.

“A questão não é apenas do domínio de técnicas de decifração do alfabeto. Trata-se, sim, de possuirmos instrumentos para sermos felizes. E o segredo é estar disponível para que outras lógicas nos habitem, é visitarmos e sermos visitados por outras sensibilidades. É fácil sermos tolerantes com os que são diferentes. É um pouco mais difícil sermos solidários com os outros. Difícil é sermos outros, difícil
mesmo é sermos os outros” (Mia Couto). 

O que não falta, ao contrário, transborda, são reflexões acerca da importância da família leitora na formação leitora de crianças e jovens — uma dica de leitura é a sempre incrível escritora e pensadora colombiana Yolanda Reyes —, de professoras(es) leitoras(es),  de bibliotecárias(os) leitoras(es).

A “memória humana é um ato criativo”, ensina o neurocientista Facundo Manes: gera memórias falsas, como escrevi mais acima. Talvez, então, valesse muito incluir na equipe de formulação e análise de pesquisas desta natureza psicólogos cognitivos e neurocientistas, cujo conhecimento pode contribuir de forma expressiva para a acuidade dos processos de busca e consolidação de dados.

Bora efetivar hoje ambiências para apoiar, como se deve e tem direito, a atual geração de brasileiras e brasileiros, porque amanhã já é futuro.

E você? Puxe pela memória, com todo o cuidado, pense bem, junte-se a nós, partilhe com a gente: quem conduziu/conduz você na sua trajetória leitora?

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