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Na iminência de saíres da minha vida

pela porta da frente

Deixei claro no fundo dos meus olhos

que farias tuas malas para nunca mais voltar.

Não esquece a escova de dentes.

Leva também essa camisa que eu jamais suportaria encontrar novamente

ao abrir o armário e lembrar das infinitas vezes que passei pra você vestir antes de sair.

Vai. Vai embora.

Mas desta vez cumpre com a palavra que tantas outras vezes deixaste pra trás.

Leva tudo.

Não ouse deixar sequer uma meia ou um toco de cigarro.

Nenhuma cinza tua eu irei juntar.

Já me bastam as minhas. O que restou de mim por enquanto são só cinzas mesmo.

De todos os cigarros que fumei enquanto vivia na incerteza do dia que tu sairia por aquela porta da frente

levando essa mala que eu nunca imaginei que farias tão rápido.

Ó!! Toma aqui!

Pode levar isso também.

Não quero as más lembranças, nem as noites de exílio de mim mesma, em que tantas vezes

parti de mim pra estar em ti.

Leva o teu cigarro.

Nas manhãs depois das noites de álcool e das madrugadas de sexo, era ele que ganhava o primeiro toque da manhã.

Podes ir agora.

Leva tudo que te pertence, sai e bate forte a porta faz favor.

Pra nunca mais, vê bem, nunca mais voltar.

Deixa só o amor, esse que sempre me pertenceu e que,

nunca na verdade te alcançou.

Deixa os livros.

Porque esses são

sempre foram

e oxalá serão aqueles que me lêem,

que me ouvem, e que me falam de amor, da vida e de tudo que me espera do bater da porta em diante.

Sim.

Pode levar as chaves.

Guarda-as pra te lembrar que amanhã eu trocarei a fechadura.

E que as próximas cópias eu farei modelo Dobermann.

As mais caras chaves de segurança.

E só as terá de novo quem chegar em confiança a este coração

que agora se fecha, até que a casa esteja de novo em ordem.

Sentada na porta dos fundos, ainda de camisola

Não sinto o frio nem o calor das seis da manhã.

Uma xícara de café preto em punho, a carteira de cigarro do lado.

Do que foi que eu vivi no último ano??

Não lembro mais da última vez que meu sorriso foi espontâneo.

Hora do banho.

A porta já bateu.

A casa já silenciou.

O coração já se partiu.

Hora de extravasar o choro contido pela raiva do adeus.

Uma ducha demorada pra lavar a alma da lama.

Toda ferida aberta leva um tempo pra cicatrizar e dessa vez não foi só um joelho esfolado.

Tive que dar alguns pontos pro corte fechar.

Mas eu sei.

Uma semana, um mês, talvez um ano.

Estarei nova.

Com uma cicatriz a mais, mas pronta pra ser eu mesma de novo.

Não foi você quem me deixou.

Fui eu que me tomei de volta.

 

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