0
Compartilhamentos
Redefinição de Impressão Google+

Por Leonardo Cazes de O Globo

Depois de sete décadas fora das prateleiras das livrarias, o livro “Minha luta”, de Adolf Hitler, caiu em domínio público no dia 1º de janeiro deste ano. Na Alemanha, o número de encomendas da nova edição crítica superou em quatro vezes a tiragem inicial. No Brasil, onde o livro foi publicado pela primeira vez em 1935, a Geração Editorial e a Centauro Editora decidiram enfrentar a polêmica em torno da obra e reeditá-la. Prevista para março, a edição da Geração será comentada. A da Centauro, que já começou a ser distribuída, virá apenas com o texto integral original. Terceira editora brasileira que publicaria a obra, também sem comentários, a Edipro voltou atrás na quinta-feira passada.

As razões alegadas pela editora paulista para cancelar o projeto vão no cerne da discussão sobre “Minha luta”, uma obra que defende abertamente ideias fascistas, racistas, homofóbicas, antissemitas e eugênicas. Em nota, a Edipro alegou que considera o livro “um documento histórico e de relevância para os estudiosos, pesquisadores e principalmente para a comunidade acadêmica” e por isso iria lançá-la. No entanto, mudou de ideia pelas “críticas surgidas principalmente de nossos leitores de que essa tradução [de Julio de Matos Ibiapina], por ser antiga, não possuir comentários, interpretações ou notas explicativas, poderia ser mal entendida pelo público leitor, tendo consequências maléficas a todos que tiveram seus direitos humanos desqualificados ou vilipendiados”.

Luiz Fernando Emediato, publisher da Geração Editorial, defende a publicação do livro. Na sua opinião, a tragédia que provocou e a proibição de reedições desde 1945 pelo governo da Baviera, detentor dos direitos autorais, criaram um mito em torno de “Minha luta”.

Não é possível entender a mente de Hitler sem ler seus textos. Não é possível combater completamente e honestamente suas ideias sem combatê-las na fonte — argumenta o publisher, reforçando que as ideias do livro são “racistas, violentas e abomináveis”.

A edição da Geração Editorial está sendo preparada há mais de três anos. O tradutor Willian Lagos verteu o texto direto do alemão para o português. A introdução, as notas e os apêndices foram traduzidos da edição norte-americana de 1939. Haverá ainda textos do próprio Emediato, do historiador e professor da USP Nelson Jahr Garcia, morto em 2002, e da professora da PUC-Rio Eliane Hatherly Paz. O publisher estima que o livro deve ter cerca de mil páginas, das quais o texto original ocupará 600. Ele reconhece que é preciso tomar alguns cuidados ao lançar a obra. A editora estuda ainda imprimir uma sobrecapa, que teria apenas nome de autor e obra, por cima da original.

Adolf Hitler recebido com a tradicional saudação nazista na Alemanha em 1933 / Arquivo O Globo
Adolf Hitler recebido com a tradicional saudação nazista na Alemanha em 1933 / Arquivo O Globo

A apologia do nazismo é crime, assim como racismo é crime. Acredito que publicar “Minha luta” sem os necessários cuidados pode ser crime. Nossa editora é democrática e não está a serviço de nenhuma causa do bem do ou mal. Nossa edição conterá todas as advertências — diz Emediato.

Já Adalmir Caparros Fagá, sócio da Centauro Editora, não vê necessidade de uma edição comentada. A casa lançou “Minha luta”, com tradução de Klaus von Puschen, em 2001. Contudo, em 2007, após ser notificada pelo governo da Baviera, a Centauro retirou o livro de circulação e agora vai relançá-lo. Em 2005, a companhia foi acionada judicialmente pelo Ministério Público do Rio por causa do livro, mas a simples publicação, por ser de autor conhecido, não foi considerada crime.

Pela sua experiência anterior, Fagá espera dificuldades na comercialização da obra nas livrarias. Mesmo quando as lojas aceitavam comercializar a obra, em geral o faziam discretamente e não a deixavam exposta. Agora, o editor acredita que o problema será menor por causa da popularização das compras pela internet. Ele ressalta que a Centauro não defende nenhuma bandeira e acredita que ninguém vai virar nazista por ler o livro.

Prisioneiros do campo de concentração de Buchenwald durante a II Guerra Mundial / Arquivo O Globo
Prisioneiros do campo de concentração de Buchenwald durante a II Guerra Mundial / Arquivo O Globo

Não acho que uma pessoa vai ler e se transformar num nazista. Isso é chamar o brasileiro de burro. Esconder esse texto das futuras gerações não é bom. Para combater o nosso inimigo, devemos conhecê-lo — afirma o editor, que não descarta fazer uma versão comentada no futuro.

“SEM VALOR FILOSÓFICO”

“Minha luta” não foi escrito diretamente por Hitler, mas ditado por ele ao seu ajudante de ordens, Rudolf Hess, quando estava na penitenciária estatal da Baviera após o malsucedido putsch de Munique, em novembro de 1923. A obra, o seu grande manifesto político, foi lançada na Alemanha em dois volumes, o primeiro em 1925 e o segundo em 1926, quando seu autor já estava em liberdade. A primeira edição no Brasil saiu em 1935, com exclusividade, pela Editora do Globo, de Porto Alegre.

O historiador Mateus Dalmáz, que fez sua dissertação de mestrado sobre as representações do Terceiro Reich na imprensa gaúcha, conta que o livro foi promovido como o principal lançamento da política internacional no momento, sem entrar no mérito das suas ideias racistas e antissemitas. Dalmáz explica que a editora estava longe de ser simpatizante do nazismo, mas era, sim, alinhada ao presidente Getúlio Vargas.

Nos anos 1930, a conjuntura no Brasil era de um país muito amigo da Alemanha nazista. Já na década seguinte, quando Getúlio rompe com o Eixo e entra na guerra do lado dos aliados, “Minha luta” é proibido pelo Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP, criado em dezembro de 1939) e não foi mais editado pela Editora do Globo — afirma o historiador, lembrando uma situação curiosa vivida pela editora. — Quando foi lançada a obra, ela divulgou na orelha outros títulos seus, e a embaixada alemã no Brasil reclamou, porque alguns autores eram judeus. Na segunda tiragem, a editora trocou as obras. Só que os outros que entraram também eram judeus, e a embaixada reclamou de novo. Mas aí a editora disse que não ia mais mexer porque não investigava se os autores eram judeus ou não.

Judeus no campo de concentração nazista de Auschwitz na Polônia - Arquivo/The Hulton Deutsch Collection/1939
Judeus no campo de concentração nazista de Auschwitz na Polônia – Arquivo/The Hulton Deutsch Collection/1939

O historiador Francisco Carlos Teixeira da Silva, hoje professor visitante na Universidade Livre de Berlim, é um crítico contumaz da reedição de “Minha luta”. Para o professor, a obra de Hitler é somente um instrumento de propaganda e convencimento. Na Alemanha, ele explica, o livro sempre esteve disponível para a consulta de pesquisadores nos arquivos. No entanto, assim como para acessar os documentos referentes ao Holocausto e demais genocídios, é preciso assinar um termo de responsabilidade. Silva lembra ainda que “Minha luta” já foi exaustivamente analisado em diversas obras publicadas em português, o que é suficiente até para os pesquisadores.

Trata-se de um livro de propaganda nazista, sem valor filosófico, histórico nem biográfico, já que Hitler mentiu ali. A única forma pedagógica de expor o nazismo é pelos seus resultados, não pelas suas promessas. E o livro são as suas promessas — diz o historiador. — O livro foi utilizado como um manual de doutrinação e voltará a ser. Estamos num momento de ódio ao outro na sociedade, de ódio ao diferente. É só ver o parlamento brasileiro. A publicação dessa obra vai favorecer enormemente a expansão da ideologia nazista e a reorganização desses grupos no mundo.

Cursos online de qualificação em Biblioteconomia e Ciência da Informação. Acesse!

Comentários

Comentários

Postagem anterior

Antropoceno: a era da manipulação da informação

Próximo post

"Como conversar com um fascista", de Marcia Tiburi

Sem comentários

Deixe uma resposta