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É fato: nunca se publicou tantas antologias como agora. Parece que o universo editorial tenta fazer um resgate de autores que, por alguma razão, deixaram de ser lidos, ou foram pouco privilegiados em reedições de obras. Organizar antologias por temas ou épocas e oferecer ao publico é também uma estratégia de fazer circular a literatura como pílulas, em doses miúdas, oferecer um menu de autores, temas, debates e, quem sabe, garantir novos leitores. Estratégia mercadológica? Sim. Mas por que não unir o útil ao agradável? Todos saem ganhando. Exemplos de sucesso de vendas são as antologias com cem melhores (contos, crônicas e poemas) organizadas pelo professor Ítalo Moriconi. Uma antologia é como uma vitrine repleta de sugestões, direcionadas, é claro, pelo seu organizador; funciona como sugestão de leitura, indicando caminhos para os leitores. Mas, além disso, pode indicar os caminhos pelos quais a literatura está sendo gestada, suas interfaces, as temáticas dos novos autores, seus anseios, suas preocupações estéticas, suas configurações.

A literatura do continente americano: olhares plurais

Recentemente, foi publicada uma antologia que tenta abarcar o que se escreve na ficção atual no continente americano. Montar uma antologia constitui um risco, uma ousadia, porque por mais que se monte um mapa, é sempre subjetivo e, assim, excludente. Incluir supõe também o contrário. E se o caso é oferecer um mapeamento continental, deve-se destituir qualquer pretensão de abarcar o todo, tarefa inglória, impossível. Mas o pesquisador francês Stéphane Chao, residente no Rio de Janeiro, que trabalha como agente literário, promovendo autores latinos, sobretudo brasileiros, conseguiu traçar um mapa, a seu modo.

Denominada Antologia Pan-Americana, a coletânea é composta de 48 contos contemporâneos, contemplando autores de todas as Américas, num esforço de apresentar uma literatura pan-americana. Numa primeira leitura, pode-se perceber a diversidade temática, o interesse pelo local, mas sem localismo, o desejo de mostrar um mundo, sem, no entanto, situá-lo com a velha casca do nacionalismo. Uma descoberta, a do organizador, que se impõe ao leitor e, certamente se doa a inúmeros estudos comparados, a literatura pan-americana é desconfigurada nos limites das nações, das línguas, das culturas, para se configurar sob um outro enfoque, novo, estranho, mas tentador: a literatura de um bloco continental. Seria uma nova descoberta da literatura? É o que propõe Stéphane, no prefácio. Mas, mais uma vez, é a América sendo vista aos olhos de um europeu. É a América sendo oferecida à América pelo olhar interessado do outro, assim como aconteceu com a descoberta do Novo Mundo pelos europeus, há 500 anos; assim como os europeus indicaram os caminhos para a construção (romântica) da nação através de um projeto literário (caso de Ferdinand Denis, francês que induz os brasileiros a pensar um projeto nacional literário a partir da paisagem e do indígena. E isso, em 1834).

Resguardadas as devidas proporções, o projeto de Stéphane, ele mesmo um divulgador da literatura das Américas na França, expõe uma geografia literária contemporânea sem, no entanto, fazê-las dialogar ou forçar identificação. Menos mal. A América multicultural e polifônica não quer ter uma cara homogênea; nem pretende ter unidade. E parece que o organizador se preocupou com isso. O diálogo se dá pela diferença, mais do que pelas afinidades. As escolhas nacionais também não seguiram um lugar comum.

A nova literatura das Américas

Como exemplo, para apresentar os autores brasileiros, Stéphane escolheu um autor do norte, o paraense Edyr Augusto, dois autores nordestinos (Raimundo Carreiro e o recém-descoberto, Ronaldo Correia de Brito), do Centro-Oeste um jovem descoberto em um concurso literário (André de Leones, de Goiânia), Do Sudeste, três autores bem traduzidos, Marçal Aquino, Luiz Ruffato e Alberto Mussa; da região Sul dois menos conhecidos, Amilcar Bettega e Miguel Sanches Meto. Todos os autores nasceram a partir da década de 40, sendo que o mais jovem é de 1980. Qualquer critico ou leitor que acompanha mais de perto a produção literária contemporânea no Brasil, se pergunta por que esses autores foram os escolhidos para representar o país, já que temos uma efervescência de novos autores, com temáticas e estéticas variadíssimas. A antologia, como o próprio organizador propõe, seria um “devaneio geográfico”, preferindo delimitar sua opção de leitor a partir do termo geográfico “pan-americano” em detrimento do histórico “América Latina”.

Ler a literatura atual deste imenso continente é empreender uma viagem pelo imaginário das Américas. Mas não esperemos encontrar essa americanidade definida, os limites e fronteiras delimitados, porque não há isso. A literatura contemporânea não está atrelada a marcar o lugar do autor, pelo contrário. Autores de Cuba, Chile, Argentina, Antilhas Francesas, Canadá, EUA… O que têm em comum? Como podemos ver neles um a marca de pertença a este nosso continente? O que faz deles de fato “americanos” ou “pan-americanos”?

O que havia de comum entre Guimarães Rosa, Borges, Cortázar, Neruda, García Marquez, Vargas Llosa, Henry James, Ernest Hemingway? Qualquer um destes autores constituiu um universo literário, independente de sua história e de seu local. Todos são extemporâneos e desterritorializados, para não pensarmos no polêmico qualificativo “universal”. Todos traçam a geografia humana, paisagens da alma, caminhos do humano.

Organização: Stéphane Chao

Editora: Record

Ano da edição: 2010

Páginas: 373

Preço: R$ 49,90

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