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O Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2019 trouxe as estatísticas de violência apuradas pelas secretarias de segurança pública em 2018. Nas diversas pesquisas a população negra continua sendo o alvo de um genocídio contínuo e ascendente.

A tendência com o candidato eleito nas eleições gerais de 2018 é que o anuário de 2020 traga aumento nestes números, primeiro pela certa permissividade à violência contra grupos subalternizados do presidente eleito e outra pela política de oferta e disponibilidade de armas de fogo capitaneadas por esse mesmo sujeito e os grupos políticos majoritários nas casas legislativas.

A classe profissional bibliotecária é formada majoritariamente por mulheres e chamou atenção as estatísticas do feminicídio no país. Este crime cresceu 4% em 2018. Foram 1.206 vítimas, 61% mulheres negras, 88,8% o autor foi o companheiro ou ex-companheiro, 70,7 % tinham no máximo ensino fundamental.

Mulheres bibliotecárias têm como fator de proteção a maior escolaridade formal, mas isso não afasta essas mulheres de estarem nas estatísticas de violência doméstica que teve um registro a cada 2 minutos.

A violência contra a mulher não deve somente nos mover a fazer posts de indignação nas redes sociais, devemos utilizar do nosso lugar de privilégio na sociedade para fazer algo em favor da vida das mulheres. A seguir algumas dicas para o enfrentamento da violência contra a mulher no ambiente de unidades de informação.

1) Realize seleção e aquisição de documentos sobre o tema

A entrada de documentos em uma unidade de informação é uma oportunidade de disponibilizar ao público usuário informações que podem ser úteis para o enfrentamento da violência. Para conhecer a realidade de violência do território da biblioteca, busque os dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN)  do Ministério da Saúde.

Neste sistema são notificadas os atendimentos médicos que tiveram como motivação a violência. Por meio desses dados se pode ter ideia do tipo de violência que está sendo perpetrada contra a mulher no território e buscar equipar o acervo com informações que possam auxiliar as mulheres nesse enfrentamento.

Houve diminuição pelo governo federal dos materiais impressos, mas muitos ainda publicam materiais virtuais e governos estaduais e ONGs têm publicado materiais que abordam a violência contra a mulher. A ONU Mulheres publica diversos materiais que você pode solicitar para compor o acervo da sua instituição.

2) Faça exposição sobre o tema da violência contra a mulher

A cada leitor seu livro, a cada livro seu leitor. A biblioteca precisa ser conectada à comunidade. Precisamos criar formas da biblioteca ser da comunidade e a comunidade ser da biblioteca. Precisamos estar conectados. Essa conexão passa por propor atividades para o público usuário.

Algumas bibliotecas comunitárias, públicas e escolares não terão espaço físico para realizar atividades, mas estas podem divulgar ações extramuros. Verifique na sua região se o Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) ou Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS) realiza atividades para vítimas de violência e divulgue nos canais da biblioteca.

Se no seu território tiver um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) é bem provável que ele ofereça uma atividade de terapia comunitária que você pode deixar os horários afixados no mural da biblioteca físico ou virtual.

Uma das necessidades de mulheres em situação de violência é o empoderamento econômico. A dependência econômica é um dos fatores que faz com que a mulher, principalmente a que tem filhos, continue o relacionamento. Por isso é importante dispor informações sobre as políticas de assistência social para que a mulher possa participar de programas sociais de desenvolvimento de renda ou que ofereçam atividades  educacionais que possam dar a ela alternativas econômicas para que ela possa sair do ciclo de violência.

A biblioteca pode fazer exposição sobre a violência contra a mulher abordando formas de enfrentamento a violência, dispositivos legais, espaços de assistência, espaços de acolhimento. Se a biblioteca tiver espaço físico pode, por meio de voluntários, oferecer noções de defesa pessoal para mulheres.

3) Insira nos acervos publicações que tratem de outras visões teológicas

A religiosidade pode ser um fator de risco para a violência contra a mulher, quando a mulher é instada a permanecer em um relacionamento mesmo que seja violento.  Nos casos de visões teológicas permissivas à violência de gênero, a bibliotecária pode inserir nos acervos publicações que tratem de outras visões teológicas.

Mesmo sendo uma esfera de foro íntimo, a religiosidade que coloca em risco a vida da mulher precisa ser enfrentada, com respeito a individualidade e o tempo da mulher. Muitas mulheres religiosas não estarão prontas para sair de uma situação de violência e por isso é preciso indicar o CAPS, CREAS, CRAS e organismos da sociedade civil que possam ajudá-la a sair do ciclo de violência.

4) Coloque nos acervos documentos que abordem as masculinidades

Em 2018 foram notificados 66.041 estupros aos órgãos de segurança pública que responderam ao Anuário de Segurança Pública 2019. 50,9 % das mulheres vítimas de violência sexual eram negras, 63, 8% foram cometidos contra vulneráveis menores de 14 anos.

O ápice da violência sexual se dá entre meninas aos 13 anos e dos meninos aos 7 anos. Entre os 5 e 9 anos se dá a maior proporção de estupros entre meninos com 27% das vítimas. Esse perfil de vitimização deve nos conduzir a ações de proteção à infância. O “Escola Sem Partido”, por buscar retirar a discussão de sexualidade no ambiente escolar, pode facilitar que a violência a esse grupo possa continuar sem a interferência da comunidade escolar.

Nas escolas é preciso que toda a comunidade escolar esteja atenta aos sinais de um relacionamento abusivo e de violência sexual. Devido ao machismo da sociedade brasileira, os homens podem ter sido ensinados a viver sua masculinidade de forma violenta. A biblioteca pode inserir nos acervos documentos que abordem as masculinidades.

O plural é porque existem muitas formas de ser homem, e que é possível a um homem viver sem atitudes e comportamentos machistas. A ONU criou o Movimento ElesPorElas (HeForShe), que é um esforço global para envolver homens e meninos na remoção das barreiras sociais e culturais que impedem as mulheres de atingir seu potencial, e ajudar homens e mulheres a modelarem juntos uma nova sociedade.

Pereira et al (2019) analisaram no capítulo “Feminicídios no Brasil” no Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2019, que os feminicídios produzem muitas vítimas de forma indireta. Quando já aconteceu o desfecho fatal da violência, a comunidade escolar precisa adotar medidas para minorar os efeitos. As autoras analisaram que esse crime deixa crianças órfãs e pais presos ou foragidos, crianças e adolescentes traumatizados quando a violência acontece na sua presença.

Essas crianças e adolescentes ficam traumatizados e desamparados financeiramente. O feminicídio assim pode ser um motivo que leva crianças e adolescentes para o trabalho infantil, mudando a trajetória educacional que eles deveriam ter.

A comunidade escolar deve acionar os mecanismos de Estado como CAPS, CREAS e CRAS, para que a criança e adolescente não fique em situação de vulnerabilidade. O acervo assim deve ter documentos que abordem o luto, a morte e formatos de famílias que essas crianças e adolescentes possam se sentir inseridos.

Outro ponto importante que a comunidade escolar é obrigada pela Lei nº 11.645/2008 é contemplar conteúdos referentes à história e cultura afro-brasileira e dos povos indígenas brasileiros. Essa obrigação se estende às bibliotecas escolares, porque a biblioteca está na escola para subsidiar a educação.

Devido a essa obrigatoriedade, é importante que os acervos contemplem documentos que abordem a afetividade de mulheres e homens negros. As mulheres negras são 61% das vítimas de feminicídio e as crianças e adolescentes negros por conseguinte serão as maiores vítimas indiretas de feminicídio.

5) Promova informações sobre o tema no âmbito da biblioteca universitária

A biblioteca universitária deve servir ao tripé da educação superior: educação, ensino, extensão. Nas atividades de extensão os estudantes poderão realizar atividades voltadas para mulheres vítimas de violência e por isso os acervos devem subsidiar com informações para que a atividade extensionista possa ser a melhor possível para a troca de conhecimento entre comunidade acadêmica e população.

O acervo virtual pode conter relatórios como o Anuário Brasileiro de Segurança Pública e o Atlas da Violência; livros que abordam estatísticas criminais e atendimentos de saúde como o Saúde Brasil editado pelo Ministério da Saúde; análises como os livros produzidos por institutos de pesquisa; pesquisas acadêmicas.

O público de pesquisas sobre a temática da violência pode ser de diferentes áreas do conhecimento como o direito, saúde e serviço social, áreas que atuam para o atendimento de vítimas e punição de agressores.

Os órgãos citados e as Delegacias de Atendimento à Mulher, Varas de Família, Conselhos Profissionais e outros podem ser acionados para informar sobre medidas no ambiente institucional para enfrentamento da violência contra a mulher. É muito importante que nós mulheres bibliotecárias nos fortaleçamos na luta por uma sociedade sem violência contra mulher.

Violência estrutural começa pela invasão de nossos corpos no ambiente público e perpassa a violência psicológica, física, moral e financeira. Lembremos sempre que a culpa nunca é da vítima e que nenhuma ação, reação de uma mulher justifica violência contra ela. Informe as mulheres sobre seus direitos, sobre o 180 e se presenciar situação de violência denuncie!

Cadê meu celular?

Eu vou ligar pro 180

Vou entregar teu nome

E explicar meu endereço

Aqui você não entra mais

Eu digo que não te conheço

E jogo água fervendo

Se você se aventurar

[…]

Cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim

Cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim

Cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim

Cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim

Mão, cheia de dedo

Dedo, cheio de unha suja

E pra cima de mim? Pra cima de moi? Jamé, mané!

(Maria da Vila Matilde – Elza Soares)

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