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Carlos Guilherme Mota. Foto: TV Cultura
Carlos Guilherme Mota. Foto: TV Cultura

O historiador Carlos Guilherme Mota pediu demissão na última sexta-feira (29/08) do cargo de diretor da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, que pertence à Universidade de São Paula (USP). Segundo ele, o afastamento foi motivado pela crise da instituição, que tem professores e funcionários em greve há mais de três meses por reajuste salarial.

Leia abaixo a íntegra da carta de despedida de Mota:

Após muito refletir, cheguei à conclusão que meu papel se esgotou nesta etapa de instalação efetiva da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin no campus da USP. Creio que consegui, com a empenhada Vice-Diretora professora Giuliana Ragusa – e uma escassa minoria igualmente brilhante de Professores e uns poucos funcionários dedicados – mudar hábitos, acertar contas, saldar parte das dívidas herdadas, definir um Regimento Interno, restabelecer relações com outras bibliotecas nacionais e internacionais, criar Comitê Acadêmico de alto nível para orientação cultural, científica e também biblioteconômica da Biblioteca. Além do Comitê Acadêmico, contei com a superior competência da curadora e bibliófila Cristina Antunes e da Secretária Cleide Marques.

Não logrei entretanto mudar a mentalidade da maioria dos funcionários que encontrei, herdados da gestão anterior, por falta de educação institucional universitária, inclusive de parte das bibliotecárias. Esforços no sentido de inovação e agilização administrativa esbarraram muitas vezes na máquina burocrática, a despeito da boa disposição da competente Procuradoria da Universidade e da Pró-Reitoria de Cultura e Extensão, à qual a Biblioteca está subordinada, que nos deu todo apoio e liberdade. Da mesma forma, pudemos contar com total apoio do Conselho Deliberativo, que inclui entre seus membros o professor Celso Lafer, que muito nos incentivou e inspirou nesta caminhada. Para esclarecer problemas herdados da gestão anterior, a Reitoria instalou competente sindicância e auditoria, em curso.

Com decisivo apoio dos herdeiros do casal Mindlin, da lúcida Pró-Reitora Maria Arminda do Nascimento Arruda e de alguns professores e pesquisadores associados, logramos preservar a liberdade e integridade da Biblioteca nesta transição, após seu tormentoso primeiro ano no campus. Enfim, dar-lhe um rumo, inspirados na visão de biblioteca do historiador Robert Darnton, Diretor da Biblioteca de Harvard e autor do importante A questão dos livros, e dos saudosos José e Guita Mindlin, além de Rubens Borba de Morais. E também definir com mais rigor a identidade da Biblioteca Brasiliana e normatizar suas funções. Colocamos a Biblioteca nos trilhos, corrigimos alguns desvios de rota, suspendemos atividades inapropriadas e atalhamos usos indevidos do espaço, além de cuidarmos de sua manutenção e segurança. Estes dois temas são deveras precupantes, dada a escassez de verbas da USP e falta de um corpo especializado de segurança.

Outro problema que demandará atenção é o da ampliação do acervo, fazendo notar que obras raras são caras. Nossas boas relações com o Instituto de Estudos Brasileiros foram aprofundadas, para maior e melhor cooperação no campo da pesquisa.

Quanto à Reitoria, arrastando a pesadíssima herança da gestão Grandino Rodas, não vem tornando claros seus projetos e medidas que visem minorar os efeitos da inflação que castiga duramente os salários. Por seu lado, os movimentos grevistas têm atropelado regras mínimas de boa, educada e justa convivência. Na USP, tampouco tem-se logrado escapar da mediocridade governamental do governo Alckmin no trato dos problemas maiores da instituição universitária; e, não menos grave, a miopia das lideranças corporativas de professores e funcionários no campus, que não entenderam, entre outras coisas, que Bibliotecas não devem participar de greves, e sim ficar abertas, civilizadamente! Infelizmente, bibliotecárias que deveriam zelar por elas abdicaram de sua missão, com poucas exceções.

Na greve atual, embora seja um direito consagrado, não se tem aproveitado o momento para a discussão de uma verdadeira e aguardada Reforma Universitária. De todo modo, não é terceirizando as punições – método que o Reitor atual pretende, ao ordenar que Diretores cortem o ponto dos funcionários grevistas – que os impasses se resolverão. O problema é muito maior, e angustiante para quem trabalhou em tempos melhores, sobretudo nas gestões dos Reitores José Goldemberg e Jacques Marcovitch. As atuais lideranças, sejam da Reitoria, dos professores e dos funcionários, sem ideias claras sobre a Reforma, não levarão a USP a nenhum lugar. E a BBM por certo sofrerá os efeitos do grave impasse que vive a universidade.

O problema é que, na atualidade, após tantas iniciativas absurdas e gastos monumentais da gestão anterior, alguma justificativa razoável deveria ter sido dada aos funcionários e professores. Ou seja, algum horizonte que permitisse otimismo, ainda que moderado. Pois uma certa competência de parcela silenciosa de nossos funcionários vem sendo desprezada, sem mais; e o corpo docente da melhor universidade do País mereceria sem dúvida ser ouvido com mais atenção. Nesse quadro, delegar aos Diretores de Faculdade e chefes de Departamentos a responsabilidade por medidas punitivas aos funcionários (ainda que possa haver razões “burocráticas” para tanto) revela insensibilidade, sobretudo num contexto e num clima universitário tenso em que o planejamento da Reitoria não acena com melhores horizontes…Terceirizar as punições não é a solução. E o governo do Estado está silente, como sempre.

Missão cumprida

Enfim, considero cumprida minha missão à frente da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin. Em nosso mandato de transição, a Brasiliana Mindlin alcançou sua “velocidade cruzeiro” no mar revolto do Butantã, e já agora, passada a “novidade”, merece mais atenção e consideração de todos. Se à Reitoria cabe um papel elevado para tirar a instituição do impasse, espera-se das lideranças dos professores maior responsabilidade e mais presença efetiva. E, dos funcionários, sobretudo das bibliotecárias, uma urgente atualização – sobretudo de seus métodos grosseiros e por vezes brutais de ação, intoleráveis em instituições que cuidam precisamente de… Educação. Afinal, “uma Biblioteca é uma Biblioteca”.

A Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin fica em muito boas mãos!

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2 Comentários

  1. Andre Serradas
    3 de setembro de 2014 a 13:04 —

    Ele foi o único que fez tudo certo pelo visto! Olha que o orçamento da USP começou a ser executado em março e a greve teve início em maio. E dizem que a perfeição não existe! O Prof. Carlos deveria substituir o Prof. Zago na Reitoria da USP.

  2. Marina Macambyra
    5 de setembro de 2014 a 18:37 —

    Bibliotecários são profissionais e trabalhadores como todo mundo e, como tal, têm o direito de greve garantido pela constituição. Mesmo que atrapalhe projetos de poder de uns e outros. Querem saber o que de fato acontecia na Brasilina? Perguntem para os funcionários que o professor resolver desqualificar dessa forma em sua carta. Escrevi alguma coisa sobre o episódio em meu blog: http://diadegreve.blogspot.com.br/2014/08/bibliot
    Vejam um trecho da resposta dos funcionários da Brasiliana:
    "Para nos ater especificamente à greve em que a USP se encontra desde maio deste ano (a Biblioteca está fechada ao público desde o dia 28/05/2014), Mota parece ter atentado para a importância da questão apenas no mês de agosto, quando nos dirigiu uma mensagem muito pouco educada, onde nos chama, entre outras coisas,
    de criminosos culturais por termos colocado uma biblioteca no circuito das greves. Antes dessa
    mensagem, ele buscou o diálogo somente uma vez, ocasião em que não fez muito mais do que nos dirigir
    ameaças, com o provável intuito de frustrar o exercício de um direito que está previsto na Constituição
    Federal – uma prática civilizada portanto, pois nem lá nem em nenhum outro lugar está previsto que
    funcionários de bibliotecas, incluindo bibliotecários, não devam participar de greves".

    Tenho a íntegra da resposta, caso alguém se interesse pela versão do lado mais fraco.

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