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A violência de gênero tem crescido significativamente nos últimos 4 anos no Brasil. Segundo dados do Monitor da Violência (parceria do portal G1 com o Núcleo de Estudos da Violência da USP e o Fórum Brasileiro de Segurança Pública), enquanto os homicídios dolosos caíram 14,1% em 2019, nesse mesmo período, o feminicídio aumentou em 7,3%, em relação a 2018. Em 2015, para cada 100 mil mulheres, 0,4% foram mortas vítimas de feminicídio no Brasil, representando 445 mulheres. Já em 2019, esse índice subiu para 1,2% atingindo um total de 1.314 mulheres.

Além do feminicídio, que é a violência de gênero levada ao extremo, os dados de violência sexual e doméstica também cresceram assustadoramente. Em 2019, segundo dados de pesquisa do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 9% das mulheres de 16 anos ou mais sofreram violência física, o que significa que pelo menos 4,7 milhões de mulheres sofreram agressões, cerca de 536 mulheres por hora. Desse número, 76,4% foram agredidas por conhecidos e 42% dentro de casa.

Soma-se a esse quadro desolador, o contexto político de discurso conservador e machista do atual governo a estimular o ambiente de violência.  Embora existam leis que enquadram tanto o feminicídio quanto a violência doméstica, elas recorrentemente não têm sido respeitadas. Frente a isso, as mulheres sentem-se inseguras, uma vez que não encontram acolhimento e proteção nem no seio da família nem na sua comunidade, muito menos, apoio e suporte do poder público.

A situação é ainda mais graves em comunidades vulneráveis social e economicamente, localizadas nas periferias de todo Brasil, onde a principal característica é a ausência do Estado. Nesses locais as bibliotecas comunitárias podem exercer um papel importantíssimo para romper o silêncio e a invisibilidade da violência, reunindo as mulheres e compartilhando histórias e informações que as empoderem e contribuam para a sua resistência às situações de opressão.  Uma dessas experiências, que registro aqui para inspirar outras tantas que com certeza acontecem Brasil afora, acontece em Pernambuco, na Biblioteca Comunitária Amigos da Leitura, integrante da Releitura PE, coletivo de bibliotecas de Pernambuco.

Papo de Mulher: um espaço de confiança e resistência

O “Papo de Mulher” surgiu justamente para reunir e resistir com e entre mulheres. É um encontro mensal que acontece desde março de 2019, na Biblioteca Amigos da Leitura, no bairro de Alto Bonifácio, em Recife. Surgiu da necessidade das mulheres falarem das violências domésticas sofridas em suas casas. Recorrentemente, me procuravam para desabafar, o que me causava uma angústia imensa.  Decidi dividir essa angústia com a mediadora de outra biblioteca da rede, a Solar de Ler, que participa de vários movimentos de mulheres e vimos que era hora criarmos um grupo só de mulheres na comunidade para dar vazão à essa fala e provocar a reflexão, a partir de informações e de diálogos com outras mulheres. Aproveitando o 8 de março de 2019, convidamos a comunidade para o primeiro encontro, que contou com a participação de 17 mulheres.

O quadro de violência contra a mulher em Pernambuco não foge à realidade do país, atingindo especialmente mulheres negras e pobres, que vivem em território de vulnerabilidade social e econômica. Segundo a SDS/PE, a violência de gênero atingiu 39.945 mulheres em 2018, 19,26% a mais que em 2017.  Os estupros aumentaram 6,81% em 2018, em relação a 2017. E 75 homicídios de mulheres em 2018 foram considerados feminicídios, representando 32,9% dos casos de assassinatos.

O Papo de Mulher se revelou de fundamental importância.  Inicialmente, as mulheres traziam seus temas para mim e eu dava o tom do encontro. Em três meses, a dinâmica mudou, perceberam que era um espaço de fala, escuta, acolhimento e confiança, delas para elas!

Como na comunidade as casas são pequenas e coladas uma nas outras, há pouca privacidade na vida doméstica, o que resulta em intrigas e conflitos entre elas. Esse foi um outro aspecto superado entre as participantes. As dinâmicas de confiança contribuíram para a ruptura do clima de intrigas e a construção de afetos, laços que entre elas foram se fortalecendo.  A partir do quarto encontro, começaram a sugerir e se posicionar para definir o tema do mês e demandar a discussão para a biblioteca. As mulheres hoje, colocam suas dificuldades e vivências no coletivo.

Uma regra fundamental é que o encontro é de mulheres, com mulheres e para mulheres. O papel da mediadora é, a partir do tema sugerido por elas, procurar uma companheira que domine a questão para facilitar a conversa. Para ajudar as parceiras convidadas enviamos orientação para que possam ser didáticas e acolhedoras. Esse é nosso papel enquanto mediadoras das bibliotecas.

Ao longo desses 12 meses, percebemos que elas estão conseguindo reagir e resistir às violências domésticas e têm divulgado o espaço como referência para outras mulheres. Isso influenciou outras duas outras bibliotecas comunitárias a fazerem o mesmo: a Solar de Ler e a Lar Meimei, ambas em Olinda.  Hoje temos 65 mulheres participando dos encontros nas três comunidades. Só no Alto de Bonifácio, são 25.

“Faz um ano que participo do Papo de Mulher, hoje me sinto muito bem e se fosse possível passava a noite toda conversando com elas, pra mim é uma família fora de casa.”

“Conheci o Papo através de outra moradora há cerca de um ano, desde lá venho participando.  Pra mim, particularmente, é um meio concreto de ações para propagação dos direitos das mulheres e fortalecer o protagonismo individual de cada uma”.

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