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Olá geral,

A partir de agora inauguro minha colaboração com a Revista Biblioo. Uma parceria que venho namorando há alguns meses. Além da minha admiração pelo compromisso e engajamento de toda a equipe, considero que a Revista presta um inestimável serviço de divulgação da cultura informacional e todo seu universo. Sempre que possível, trarei informações, comentários e opiniões sobre o que acontece no cenário cultural.

Para começar, uma recente pesquisa de opinião internacional constatou o que cientistas sociais e o senso comum já evidenciavam: o brasileiro não se reconhece como latino-americano. O estudo de opinião pública é inédito e confirma o histórico distanciamento cultural dos brasileiros com o restante dos países latinos.

A pesquisa The Americas and the World: Public Opinion and Foreign Policy (As Américas e o Mundo: Opinião Pública e Política Externa) foi coordenada e divulgada pelo Centro de Investigação e Docência em Economia (Cide) do México. Além do Brasil, também participaram da pesquisa a Argentina, Chile, Colômbia, Equador, México e Peru. No Brasil, o projeto foi realizado em colaboração com a Universidade de São Paulo (USP).

Segundo a pesquisa, apenas 4% dos brasileiros se reconheceram como latino-americanos. Para a maioria dos outros seis países entrevistados (43%), ser latino-americano foi a principal resposta. Outra curiosidade da pesquisa é o fato dos brasileiros, mesmo não se reconhecendo como latinos, acharem que o país deve ser o líder da região. E ainda, 57% dos brasileiros não concordam com o livre trânsito de pessoas latinas pelo país sem o controle de fronteiras.

A matéria me chamou a atenção e me fez refletir sobre meu processo de construção de identidade latino-americana. E percebi que, não por acaso, ela sempre esteve lá. Nasci em Porto Velho, Rondônia, fronteira com a Bolívia. Minha mãe cresceu em Guajará-Mirim, cidade do interior, onde o rio Madeira Mamoré era a única fronteira com o país vizinho.

Desde cedo tive familiaridade com o idioma, pois a proximidade com a fronteira fez com que minha mãe aprendesse a língua. Nas férias, visitávamos os parentes e também cruzávamos o rio para passear nas cidades bolivianas. Lembro-me do encantamento ao conhecer aquelas cidades. Algum tempo depois nos mudamos para Boa Vista, Roraima. Também na companhia de minha mãe, visitei algumas cidades venezuelanas da fronteira. E durante a viagem brinquei com crianças e jovens estudantes venezuelanos. Uma experiência afetiva marcante da minha infância.

Na Universidade de Brasília, onde estudei, conheci professores apaixonados pela latino-américa. Esses encontros me reacenderam o interesse em conhecer melhor quem são nossos irmãos vizinhos. Naquela época já percebia comentários e desinteresses a cerca da cultura latina. Aliás, revisando curiosamente meus arquivos, encontrei poucas referências de textos acadêmicos de Biblioteconomia escritos por autores latino-americanos.

Mas o divisor de águas realmente aconteceu quando estive diretor do Sistema de Bibliotecas Públicas do Distrito Federal (DF). A convite da embaixada, fiz uma viagem à Colômbia para conhecer os sistemas de bibliotecas públicas de Medellín e Bogotá. Foram semanas revolucionárias, de intensa agenda de visitas e reuniões, que reinventaram minha visão das bibliotecas e do seu imenso potencial transformador.

Em 2015, fui selecionado para fazer parte do programa INELI Iberoamérica, encontro promovida pelo Centro Regional de Fomento do Livro na América Latina e no Caribe–CERLALC (UNESCO) e pela Bill & Melinda Gates Foundation. Países como Guatemala, Costa Rica, México, Chile, Uruguai e Colômbia, enviaram mais de trinta representantes à Madrid, na Espanha, a fim de trocar experiências e formar uma rede de bibliotecários inovadores e criativos da Iberoamérica.

Wander no Encontro de Bibliotecários Iberoamericanos em 2015. Foto: The International Network of Emerging Library Innovators.
Wander no Encontro de Bibliotecários Iberoamericanos em 2015. Foto: The International Network of Emerging Library Innovators.

Praticamente não dormi durante toda a programação. Além dos encontros diários, íamos madrugadas à dentro conversando, trocando ideias e tentando entender um pouco mais da complexa realidade de cada país. Minha sensação era a de encontrar familiares que nunca havia visto. Existia um forte reconhecimento da nossa identidade coletiva latino-americano.

Durante as “manifestações” de junho de 2013, surgiram jargões contra os “bolivarianos”, em uma clara demonstração xenofóbica descontextualizada. Os xingamentos se intensificaram durante os dois últimos anos, ao ponto de, lamentavelmente, se tornarem bandeiras ostentadas por manifestantes ou vociferadas contra qualquer pessoa com orientação política humanista ou de esquerda.

Esses xingamentos não se limitaram ao campo político. De maneira sintomática, tornaram-se frequentes também nos debates entre bibliotecários nas redes sociais. Em reação a esse tipo de intolerância, eu e outros bibliotecários do DF e de outros estados, criamos a Liga de Bibliotecários Bolivarianos, um grupo de discussão com o objetivo de repensar práticas, agendas sociais e humanistas da Biblioteconomia.

Mas não se trata apenas do debate. A pesquisa que motivou esse post se reflete também em nossa falta de percepçãoenquanto bibliotecários. Historicamente nossa formação tem fortes referências estadunidenses e britânicas. Mas nos falta conhecer o que acontece aqui e agora, em nossa própria vizinhança.É incrível, mas a maioria dos bibliotecários brasileiros não sabe que as Bibliotecas-Parque da Colômbia são uma referência mundial de bibliotecas modernas e de iniciativas inovadoras na gestão e em serviços para o desenvolvimento humano.

Bogotá foi a primeira Capital Mundial do Livro, título concedido pela UNESCO em 2007. Além dela, apenas Buenos Aires, na Argentina, detém o título no continente. Os mega-colégios e escolas experimentais colombianas tem sido destaque internacional, recebido prêmios e com seus projetos pedagógicos replicados em vários países.

As redes de bibliotecas comunitárias na Colômbia, assim como na Guatemala, são importantes referências de mobilização e compromisso com a promoção dos povos indígenas e outras populações tradicionais excluídas. O programa de bibliotecas escolares do Chile tem mais de vinte anos e é referência internacional no ensino e aprendizagem da primeira infância na América Latina. Graças a programas de inclusão digital, de universalização das TICs e conectividade, oito em cada 10 crianças tem computadores e usam internet nas escolas do Peru.

Feira Internacional do Livro de Guadalajara (FIL), no México, é a segunda maior feira literária do mundo e a mais importante do calendário editorial da língua espanhola. Em sua 29ª edição (desde 2001, quando o país foi homenageado) foi explícita em sua missão de tentar incluir o Brasil no contexto editorial da América Latina. Inclusive com a curiosa frase de Laura Niembro, diretora de conteúdos da FIL, apaixonada pelo Brasil, que define o país como “o irmão ausente na América Latina”.

Certamente que minhas experiências fortaleceram minha consciência latino-americana. Mas mesmo que o senso comum já cantasse a pedra, ler a pesquisa foi constrangedor. É realmente embaraçoso imaginar o quão ignorantes somos quanto à diversidade cultural, humana e legado histórico da América Latina. Talvez pior do que a ignorância histórica, seja o sistemático desinteresse institucional em romper este ciclo. O ensino da alfabetização cultural, defendido pela UNESCO, nos ajudaria muito a enfrentar o preconceito e a desinformação sobre a cultura desses países. Seja pelo tipo de colonização, seja pelos diferentes processos de independência, pela geografia, idioma ou mesmo pelas crônicas esportivas que alimentaram rivalidades durante décadas, qualquer que seja a explicação, simplesmente não é possível que esse raciocínio continue em pleno século XXI.

Em épocas de agenda nacional negativa, de retrocessos em matérias de direitos humanos no congresso, de bancadas políticas conservadoras e bandeiras fascistas e xenofóbicas, essa pesquisa é definitivamente mais um prego no caixão. Neste exato momento, existem redes de cooperação, de financiamento, de transferência de tecnologia e conhecimento sendo construídas na América Latina. E parecemos não estar muito interessados nisso. Como bibliotecários, não seria nada mal jogar um pouco de informação nesse debate.

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3 Comentários

  1. 22 de janeiro de 2016 a 13:20 —

    Aliás, frequentemente usamos o argumento da barreira linguística para esse afastamento que nos impusemos da América Latina. Argumento que cai por terra se pensarmos que não nos aproximamos sequer dos países lusófonos. Optamos, há vários séculos atrás, por emular um comportamento europeu por conta de nossa colonização portuguesa, pela influência inglesa exercida sobre a família real lusitana e pelo pensamento, cultura e artes francesas (notemos que, no caso de Inglaterra e França a língua nunca foi considerada uma barreira). Hoje, assimilamos muito da cultura estadunidense.
    É óbvio que não devemos nos isolar ou mesmo desprezar influências, sejam de que países vierem, a questão é que precisamos perder a vergonha de nossa latinidade. Precisamos trocar mais com nossos vizinhos da América latina, influenciando e sendo influenciados. Sermos o maior e mais "rico" (muitas aspas aí) país da América do Sul (e da América Latina) não nos torna lideranças naturais.

  2. […] Uma reflexão sobre nossa identidade sócio-político-cultural  […]

  3. […] deixe de conferir também o texto “Bibliotecário latino-americano: uma reflexão sobre nossa identidade sócio-político-cultural“, publicado  na edição 52 da Revista Biblioo pelo bibliotecários e ativista Wander Filho […]

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