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Um homem pasa pela biblioteca de literatura ucraniana em Moscou, Rússia, 29 de outubro de 2015. A diretora da biblioteca, Natalya Sharina, está atualmente sob prisão domiciliar acusado de distribuir propaganda "anti-russa" e incitar o ódio étnico. Foto: Reuters.
Um homem pasa pela biblioteca de literatura ucraniana em Moscou, Rússia, 29 de outubro de 2015. A diretora da biblioteca, Natalya Sharina, está atualmente sob prisão domiciliar acusado de distribuir propaganda “anti-russa” e incitar o ódio étnico. Foto: Reuters.

Por Howard Amos, do International Businnes Times. Traduzido por Hanna Gledyz.

Os funcionários da Biblioteca de Literatura Ucraniana de Moscou brincaram dizendo que recebem mais visitas de oficiais do serviço de segurança interna da Rússia, o FSB, do que de pessoas que querem consultar os livros ou usarem a sala de leitura.

A diretora da biblioteca, Natalya Sharina, está sob prisão domiciliar desde outubro, acusada de distribuir literatura extremista. Além disso, cerca de metade dos bibliotecários que trabalham no local foram convocados para interrogatórios e pelo menos dois funcionários tiveram seus apartamentos revistados por policiais pela madrugada.

“As pessoas estão com medo”, disse Anna Pavlenko, filha de Sharina e funcionária da biblioteca desde 2008.

A pressão sobre a biblioteca – que estoca cerca de 60.000 livros, principalmente na língua ucraniana – vem em meio a feroz retórica anti-Kiev, em Moscou, que mostra sinais de queda. As relações entre as duas ex-nações soviéticas piorou depois de 2014, com a revolução na Ucrânia que derrubou o governo pró-Rússia e desencadeou uma luta sangrenta no leste no país entre o exército ucraniano e os rebeldes apoiados pela Rússia.

O conflito dividiu famílias que atravessam as fronteiras russo-ucranianas e viram os países cada vez mais isolado um do outro por meio de sanções econômicas e reduções de ligações de transportes. Cidadãos ucranianos têm estado sob investigações de crimes de guerra, de espionagem e julgamentos de terrorismo na Rússia desde 2014.

“O caráter especial deste caso é revelado na palavra ‘Ucrânia’- tudo associado com a Ucrânia é especial e motivado politicamente”, disse o advogado de Sharina Ivan Pavlov ao International Business Times em audiência no dia 27 de janeiro, quando a prisão domiciliar de Sharina foi prorrogada por três meses.

Investigadores russos armados com metralhadoras invadiram a biblioteca, um modesto edifício no centro de Moscou, em outubro, e confiscou o que eles disseram ser “propaganda anti-russa”, acusando Sharina de distribuir livros de Dmitry Korchinsky, um ex-apoiador do presidente Vladimir Putin, que lutou contra aliados russos no leste da Ucrânia. As acusações de incitação ao ódio étnico contra Sharina pode levá-la para uma pena de prisão de no máximo três anos.

Funcionária da biblioteca ucraniana, Tatyana Muntyan. Foto: Reuters.
Funcionária da biblioteca ucraniana, Tatyana Muntyan. Foto: Reuters.

O caso foi amplamente coberto pelos meios de comunicação estatais russas. O canal de televisão simpatizante ao governo russo, a NTV, exibiu um pequeno documentário em dezembro, alegando que a biblioteca realizou ações do serviço de segurança ucraniana a mando da CIA (Agência Central de Inteligência do governo dos Estados Unidos) – uma leitura que se encaixa com as antigas desconfianças russas do regime ucraciano, como um “junta” fascista controlada de Washington.

“Recebi informações de que eles estavam espalhando propaganda nazista na biblioteca… Estes livros criam ódio entre os ucranianos e russos e eles não deveriam existir”, disse Dmitry Zakharov, deputado municipal para um distrito de Moscou, que apresentou a denúncia junto a polícia russa que desencadeou a investigação. Ele se recusou a dizer de onde ele obteve essa informação.

Sharina, 58, nomeada uma prisioneira política pela “Memorial”, uma organização de direitos humanos com sede em Moscou, negou veementemente as acusações contra ela e disse ao Tribunal Distrital Presensky de Moscou em janeiro que a prisão domiciliar em curso era uma tentativa de “quebrá-la emocionalmente ou fisicamente.”

O confinamento causou uma acentuada deterioração na saúde de Sharina, de acordo com a sua filha e advogado. “Ela tem uma dor terrível nas costas e está indo para o hospital”, disse a filha Pavlenko.

Os funcionários da biblioteca, que é gerida e de propriedade do governo da cidade de Moscou, disseram que pelos procedimentos padrões era impossível que livros banidos fossem parar nas prateleiras da biblioteca e sugeriram que a ausência dos carimbos da biblioteca nos livros confiscados significaria que eles poderiam ter sido plantados.

Acusações semelhantes contra Sharina foram realizadas em 2010 e acabaram por ser infundadas, mais tarde, foram retiradas pelas autoridades depois de uma investigação.

A pressão sobre a biblioteca ucraniana destacou um quase completo colapso dos laços culturais, antes extensos, entre a Rússia e a Ucrânia.

O diretor de cinema ucraniano, Oleg Sentsov, foi condenado a 20 anos de prisão no ano passado por acusações de terrorismo, em um caso que provocou um clamor internacional. Muitos ucranianos estão com medo de viajar para a Rússia por causa da hostilidade e relatos de cidadãos ucranianos sendo presos por acusações forjadas. Kiev (capital da Ucrânia) também baniu grupos e indivíduos que viajaram para a região da Criméia, anexada pela Rússia em 2014 e agora sob o controle do Kremlin (fortaleza que serve de sede do governo da Rússia).

Diretor de cinema ucraniano, Oleg Sentsov, condenado a 20 anos de prisão por acusações de terrorismo. Foto: Reuters.
Diretor de cinema ucraniano, Oleg Sentsov, condenado a 20 anos de prisão por acusações de terrorismo. Foto: Reuters.

“Basicamente não existe intercâmbio cultural entre os dois países”, disse Valery Semenenko, o chefe dos “Ucranianos em Moscou”, uma organização que executa eventos culturais para diáspora ucraniana da Rússia de mais de 2 milhões de pessoas. Os investigadores invadiram o apartamento de Semenenko e o interrogou em novembro em conexão com o caso contra Sharina.

Os funcionários da biblioteca temem que a investigação em curso leve ao fechamento da biblioteca.

O número de pessoas que visitam a biblioteca diminuiu drasticamente e em uma recente visita, havia apenas duas pessoas na sala de leitura quase deserta. De um grupo de doze funcionários, nos últimos três meses, seis foram embora – ou foram demitidos. Os bibliotecários restantes disseram que não tinham sido pagos desde dezembro.

“Estamos testemunhando a lenta liquidação da biblioteca”, disse Semenenko, cuja organização ajudou a biblioteca conseguir a entrega de jornais ucranianos.

A biblioteca será transformada em um “centro de mídia eslavo oriental”, de acordo com membros da equipe. O departamento de Política Multicultural, Inter-Regional de Cooperação e do Turismo da cidade de Moscou, que é responsável pela gestão da biblioteca, não respondeu às chamadas telefônicas e pedidos escritos de comentários.

Bandeira nacional ucraniana. Foto: Reuters.
Bandeira nacional ucraniana. Foto: Reuters.

Putin disse em dezembro que a biblioteca deveria “não ser perdida” quando perguntado sobre o caso de Sharina durante uma reunião com personalidades culturais de destaque.

Tradicionalmente a biblioteca ucraniana em Moscou – a única do tipo no país – organizava muitos eventos, como aulas de língua e até mesmo traduções e publicações de livros, mas a maioria foram cancelados, e o site não pode ser mais atualizado porque o profissional responsável pediu demissão.

A biblioteca ucraniana em Moscou foi fundada originalmente em 1989, uma biblioteca semelhante existia na União Soviética até 1938, quando Stalin fechou em meio a uma campanha de terror política. Muitos dos funcionários da biblioteca foram posteriormente presos.

Vladimir Krikunenko, vice-diretor da biblioteca, disse que a instituição era um elo cultural única entre a Ucrânia e a Rússia. “Estamos preocupados com os livros”, disse ele, apontando para as prateleiras abarrotadas da biblioteca.

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