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Com o marcante título “Biblioteca não é parque de diversões”, o Blog da Letrinhas apresenta entrevista da pesquisadora Fabíola Farias (Coordenadora da Rede de Bibliotecas e projetos para a promoção da leitura da Fundação Municipal de Cultura de Belo Horizonte) sobre a biblioteca e seu papel de introdução do sujeito ao mundo escrito, seja ele pela leitura ou pela produção de conteúdo.

A abordagem do tema pela pesquisadora nos instiga a pensar o potencial das bibliotecas, enquanto nossa vivência profissional particular nos provoca a discutir a partir de diferentes prismas, diversas questões sobre a biblioteca e a formação do leitor literário, o papel da leitura na formação dos sujeitos dentre outros temas, conformados em um debate da Liga Bibliotecária. Assim, a construção deste texto é uma tentativa de estimular ainda mais o debate sobre as muitas questões em aberto que permeiam a ideia de biblioteca como “um parque de diversões”.

Crianças participam do 1º Baile na Biblioteca Parque da Rocinha. Foto: Salvador Scofano / www.rj.gov.br.

A biblioteca seria (também) um lugar para o entretenimento e demais atividades além da leitura?

A pesquisadora sugere que na biblioteca seja “fundamental ensinar o que significa ler e escrever, qual a importância da cultura escrita”, mas legar à essa instituição a função específica de dar sentido à leitura e à escrita da palavra, rechaçando as ações lúdicas, culturais e até mesmo de entretenimento, pode não atender às expectativas de quem frequenta e trabalha naquele espaço. O “Manifesto da IFLA/UNESCO sobre bibliotecas públicas” (IFLA, 1994) indica como algumas de suas missões “promover o conhecimento sobre a herança cultural, o apreço pelas artes e pelas realizações e inovações científicas” e também “possibilitar o acesso a todas as formas de expressão cultural das artes do espetáculo”.

Em complemento, o “Manifesto IFLA/UNESCO para a biblioteca escolar” (IFLA, 1999) relaciona como um de seus objetivos “organizar atividades que incentivem a tomada de consciência cultural e social, bem como de sensibilidade”. Para que as missões de um e o objetivo de outro manifesto sejam alcançados é preciso entender que a biblioteca não é apenas o lugar da promoção da leitura e da escrita, mas um espaço que deve se abrir para diversas possibilidades que dialoguem com as múltiplas formas de expressão e produção de conhecimento.

Escola Municipal Professora Maria da Penha Correa Sanches, em Itanhaém (SP), dialoga o brincar com o aprender. Atividades acontecem diariamente na sala de aula e uma vez por semana na biblioteca da escola. Foto: www.itanhaem.sp.gov.br.

Contudo, na tentativa de dinamizar a biblioteca por meio de outras formas de expressão e produção de conhecimento, adotam-se atividades de entretenimento que podem trazer efeitos colaterais como a propagação da lógica de mercado nos espaços culturais, de quanto mais público e lucro, melhor, e quanto menos usuários, menos útil e necessária uma biblioteca se torna; gerida nessa toada, uma biblioteca pode ser aparelhada como um local de eventos, onde as ações de entretenimento são promovidas de forma não integrada a uma política de desenvolvimento cultural da instituição. Na tentativa de comportar diversos eventos em sua programação, a biblioteca pode se tornar uma espécie de “espaçoteca”, depósito de tudo aquilo que não couber (ou não se quiser) na escola e/ou noutros espaços.

Mas será que o entretenimento é uma estratégia equivocada de ação?

O fato é que a adoção de atividades de entretenimento em si não deve ser considerada uma estratégia equivocada ou ruim; o problema se concentra quando a biblioteca adota apenas a política de eventos como a única forma de dinamização. É possível, sim, considerar iniciativas diversas como o estímulo ao jogo de xadrez, ao RPG, à adoção de filmes e outras atividades como formas de expressão artístico-culturais e de produção do conhecimento ao mesmo tempo que a biblioteca não deixa de ser o lugar privilegiado do livro, da leitura e da cultura escrita.

Jogadores de RPG na Biblioteca Parque Estadual, no Centro do Rio. Foto: www.rpgnoticias.com.br.

Não se pode negar que essas novas propostas de dinamização podem ter mais espaço e atender de forma mais abrangente à uma enorme parcela da população que, ainda, não tem acesso às bibliotecas e a tantos outros equipamentos culturais. Um bom exemplo a ser mencionado é o sistema de bibliotecas de Paris, no qual as bibliotecas passaram a ser conhecidas como “Médiathèque”, tentando comportar a diversidade de linguagens que elas colocam à disposição das pessoas; já nos EUA, existem os “Resource Centers”, com a mesma proposta.

O Biblioteca do Centro Pompidou (Paris, França) oferece uma escolha de 20.000 CDs e discos de vinil de música. […] Os visitantes podem escolher entre diferentes interpretações de uma obra musical clássica, encontrar os grandes álbuns de rock dos anos 60 [ou] descobrir a diversidade da música brasileira. […] dois pianos digitais são acessíveis gratuitamente na reserva no balcão de informações na área de música para sessões de uma hora. Eles são equipados com dois fones de ouvido […]. Foto e texto: www.bpi.fr.

As mudanças econômicas, sociais e políticas no mundo trazem a urgência de reinventarmos as nossas bibliotecas, tanto para não sucumbirmos perante novas mídias e iniciativas, quanto para atender e dar acesso universal aos acervos e serviços atuais e futuros. Para certo senso comum, a ideia de biblioteca remonta ao antigo, inviabilizando práticas contemporâneas. Não podemos, todavia, nos prender a algum suposto conceito tradicional que nos remeta certo academicismo injusto, pouco inclusivo, retrógrado e em descompasso com a sociedade.

Enxergar as bibliotecas com olhos contemporâneos significa observar ao nosso redor, de forma que a reinvenção dos espaços aconteça e acompanhe um mundo tão multifuncional e “multinecessitado”. Assim, imbuídos de empatia, teremos condições de fazer com que as nossas ações prezem pelo bem-estar dos indivíduos e o atendimento de suas necessidades, indo além das demandas técnicas e profissionais, buscando o desejo pelo lúdico, pelo lazer, por diversidade de linguagens e por variedades de propostas.

Diante de tantas possíveis mudanças e “crises” vividas e vistas, estamos exatamente na hora de reinventarmos as instituições e aprimorarmos as já criadas. Certamente em um mundo ideal, talvez fosse mais produtivo, focal e coerente com a visão “tradicional” se as bibliotecas se preocupassem e desenhassem apenas atividades para reforçar a tradição escrita, literária e etc. Mas, por que não nesse momento, com a ciência de que não estamos em um mundo ideal, não usarmos esse cenário para repensar nossa instituição e sua missão à luz da necessidade da coletividade?

Missão: A missão baseia-se na análise das necessidades dos consumidores, seus desejos, e os produtos que serão oferecidos para satisfazer essas necessidades. Deve orientar-se para o exterior da organização, nas necessidades da sociedade e dos seus indivíduos. Nesse sentido, a missão não está relacionada somente ao lucro ou as funções realizadas, mas ao objetivo social. Toda missão deve nortear os objetivos financeiros, humanos e sociais de uma organização (Costa, 2008; Faria, 2009; Jesus, 2008; Porto, 2008).”

Fonte: Fernando Modesco (2010).

A criação de um espaço multifuncional pode ser uma forma de aproximação para levantar uma questão cultural que envolve o próprio imaginário das pessoas em relação a certos ambientes. A tendência, por exemplo, das bibliotecas escolares se tornarem espaços maker é muito forte e é uma realidade no mundo todo, porque é preciso mudar, se adaptar às necessidades de aprendizagem dos alunos.

Maker: O Movimento Maker é uma extensão da cultura Faça-Você-Mesmo ou, em inglês, Do-It-Yourself (ou simplesmente DIY). Esta cultura moderna tem em sua base a idéia de que pessoas comuns podem construir, consertar, modificar e fabricar os mais diversos tipos de objetos e projetos com suas próprias mãos.

Fonte: Movimento Maker – Wikipédia, a enciclopédia livre.

Pensando no ambiente escolar, outro ponto importante é a paulatina adaptação escolar ao formato de ensino integral, com o entendimento de que é preciso promover uma série de outras atividades para ajudar a desenvolver competências com crianças e adolescentes. Parece ser algo que a escola ainda não conseguiu dar conta no tempo regular das aulas.Além da utilização do espaço, é possível problematizarmos também o modelo de educação: que sujeitos estamos formando, qual tipo de perfil de educandos queremos formar? Se o mundo mudou, as exigências para o mercado de trabalho, as formas de acessar culturas e demais riquezas do mundo, também mudaram. Diante de tantos novos cenários, por que nossas bibliotecas ainda tentam formar leitores da mesma maneira, trabalhando a leitura como sendo o único aspecto dentro de um mundo absolutamente multifuncional, conectado, convergente, transversal?

A Biblioteca Comunitária Livro Aberto (Belo Horizonte, Minas Gerais) programou para o mês de férias várias atividades diferentes e entre elas estava a sessão cinema. Foto e texto: www.soudeminasuai.com.

Podemos então nos ater a cumprir a missão da formação leitora, da letra, da escrita em descompasso com as demais exigências contextuais do mundo? Não dá para ser só isso! A biblioteca, sobretudo a pública, deve ser integral como a vida é.

Se temos tantos descompassos na nossa sociedade, tantas carências e lacunas, vários estágios a serem alcançados, diversas injustiças, muitos raciocínios acadêmicos anacrônicos, nós acreditamos que, mesmo radicalizando a missão de uma biblioteca tal como ela está tradicionalmente estabelecida hoje, ainda seremos conservadores.

O que debatemos aqui é que essa propensão ao múltiplo pode ser a vocação mais atual e moderna das bibliotecas. Não à luz do que era, mas do que ela pode ser.

Parque de diversões apenas? Não, posto que daria a impressão de um espaço do entretenimento por natureza, mas um local que por tantos anos esteve associado ao livro, cuja etimologia nos remete ao latim liber, que além de ser uma membrana de casca de árvore usada para um antepassado dos livros, também significa livre, poderíamos pensar, então, num local com mais liberdade para experimentar: uma “liberteca”.

A Liga Bibliotecária

A Liga Bibliotecária é constituída por bibliotecárias e bibliotecários que se reuniram a partir de um grupo fechado de uma rede social voltado à discussões ligadas à Biblioteconomia e temas transversais como política, cultura, educação e sociedade, sempre sob um viés progressista.

Na dinâmica das discussões realizadas no grupo percebemos a riqueza na exposição dos pontos de vista, fruto da diversidade de nossas origens, interesses e sonhos de extrapolar os muros da nossa comunidade.

Agora resolvemos encarar um novo desafio e fazer pontes com outros indivíduos e grupos em um canal como a Biblioo. Para colocarmos esse desafio em prática, resolvemos transformar alguns debates em artigos para que nossas ideias tornem-se acessíveis a um número maior de pessoas.

Os artigos são compilações das ideias de integrantes que se envolveram nos debates do grupo e foram, posteriormente, organizados pelos administradores.

Foto em destaque no topo: www.ma.gov.br.

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