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Alguns fatos que ocorreram durante a última Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), bem como em outros eventos congêneres pelo país, mostra que as trevas batem na porta das festas do livro e da leitura no Brasil. Disso se conclui que não existem ilhas de excelência, tampouco espaços protegidos e isentos diante do obscurantismo.

Os exemplos:

Rojões e hino nacional no talo para tentar calar o jornalista Glen Greenwald na Flipei, em Paraty. O sociólogo Sérgio Abranches e a jornalista Miriam Leitão foram barrados da programação da Feira do Livro de Jaraguá do Sul, em Santa Catarina, através de uma enquete feita com moradores da cidade pela Internet.

Não é por acaso que as feiras do livro e leitura estão no centro dos ataques à liberdade de expressão. Todos os espaços possíveis de respiro e reflexão serão sempre ameaçados em estados de exceção.

Mas é preciso que se diga: a biografia dos retrocessos não teve seu início em 2019 ou há poucos meses. Essa história vem sendo costurada há alguns anos. A era Bolsonaro é resultado, não causa. Quem hoje está sendo vítima das perseguições da turba, tempos atrás enxergou possibilidades de omelete no ovo da serpente que estava sendo chocado.

A cada dia, durante anos, os veículos de comunicação, e mesmo os espaços privilegiados da cultura, através dos seus discursos oficiais, relativizaram o avanço do pensamento conservador.

A solução mais confortável e preguiçosa era de colocá-lo no balaio de uma suposta polarização, na qual “direita” e “esquerda” estariam nivelados numa batalha anti-civilização, sem nuances e distinção.

O resultado é que os próprios condutores desse perigoso discurso distorcido hoje são parte das vítimas da truculência gerada pela tolerância ao fascismo. A conta veio e é muito alta. Aqueles que estavam apenas fazendo o serviço sujo, agora querem mandar na festa.

Cada feira do livro censurada, cada galeria de arte invadida, cada livro vetado em escolas tem um pouco dessa irresponsabilidade do mundo da comunicação e da cultura, dessa aliança tácita que pasteurizou durante anos as disputas políticas e as diferenças entre avanços e retrocessos.

Em tese, feiras de livros seriam o espaço legítimo da pluralidade de ideias e da diversidade. O que está ficando cada vez mais claro é a velha máxima do mundo pós Gutemberg: em tempos de trevas, os livros serão queimados primeiro e depois o resto.

Portanto, nesse momento, feiras de livros, mais do que nunca, devem ser entendidas como espaços da política e da resistência e isso não fere as suas faces literárias e estéticas. Pelo contrário, a política é o instrumento mais eficaz da sua defesa e manutenção.

A palavra autocrítica é bastante adequada e necessária para o momento em que vivemos. É preciso que façamos uma reflexão sobre os espaços que foram abandonados e os valores que foram distorcidos. Antes que seja tarde, antes de chegar o tempo em que o revólver será sacado sem que a palavra cultura sequer seja falada.

Assista abixo a participação de Glen Greenwald na Flipe, momento em que teve sua fala atrapalhada por protesto de bolsonaristas:

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