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“Como será o amanhã? Responda quem puder”. Temos necessidade de conhecer, de nos informar e nos comunicar. E ao mesmo tempo sabemos que é certo que todos os seres vivos chegam ao seu fim e que tudo um dia chegará ao fim. Profetas, adivinhos, embusteiros são pessoas de prestígio em todas as sociedades. Mesmo com todo o prestígio estão em descrédito e não é culpa da participação do hipnólogo Pyong Lee na última edição do Big Brother Brasil. Ao mesmo tempo as colunas do horóscopo continuam fixas nos jornais impressos e virtuais.

Temos uma necessidade de antecipação que nos causa ansiedade. Algumas profecias do mercado audiovisual acabaram por se cumprir. Lembro vagamente dos LPs, do videocassete, de ir na locadora para alugar filmes em VHS e depois DVD, e agora vejo por plataformas de streaming. Não deixei de consumir esses produtos, somente modifiquei as formas de fazê-lo. Confesso que nem me lembro da última vez que fui a um cinema, graças à SMARTV e ao preço alto dos ingressos.

Profecias apocalípticas à parte, o mercado livreiro passou por profundas transformações nos últimos anos, de empresas familiares a megastores. Localizado no bairro da Asa Norte, a Achei Livros, sebo gerenciados por tios maternos fechou as portas após diversas tentativas de enfrentar o mercado predatório, aluguel e falta de incentivo estatal para a manutenção do mercado. As mega livrarias que dominaram o mercado saíram das ruas e foram para os shopping centers, adicionaram cafés, jogos, papelaria e produtos eletrônicos para navegar no mar revolto.

Enquanto isso, empreendedores por necessidade, como os meus tios, fecharam as portas dos seus negócios. No meio da pandemia de coronavírus fico pensando nesses corajosos que lutam para disseminar o livro, como o Chiquinho da UnB. A Livraria do Chico é um pequeno espaço localizado no campus Darcy Ribeiro da Universidade de Brasília (UnB) que, com resistência e coragem, já contabiliza quase cinco décadas.

Sobre as consequências da pandemia no mercado livreiro, no momento ainda se tem mais especulações que dados. Mas com a concentração em shoppings de livrarias que foram fechados durante a pandemia e a restrição de funcionamento somente a comércios essenciais, fica o questionamento sobre quais serão as consequências em livrarias pequenas como a do Chico e sebos de pequenos empreendedores como eram dos meus tios.

A internet possibilita que muitas pessoas possam adquirir livros online, mas não se pode esquecer que não existe equidade no acesso à essa tecnologia e que muitas pessoas estão sendo deixadas para trás, sobretudo se consideramos que um em cada quatro brasileiros não tem acesso à internet. Neste cenário de pandemia, o fortalecimento do comércio local também pode ser uma ferramenta coletiva de manutenção das pequenas empresas que compartilham o conhecimento registrado em livros.

Essa possibilidade de fechamento de mais livrarias e sebos irá conduzir a uma nova forma de aquisição de livros no pós pandemia. A informação é a mola propulsora do conhecimento. Esta não se enclausura em um padrão, em um tipo. Precisamos parar de romantizar a informação como um objeto celeste indelével. A romantização da informação nos conduz a hierarquizar informações a partir de quem a constrói e de quem a consome. Nesta hierarquização alguns usos desvirtuados, como as fake news, não são abordados com a seriedade necessária para o seu enfrentamento.

A disseminação da distribuição de mamadeiras em formato de órgão genital masculino durante a campanha presidencial de 2018 não foi enfrentada com a seriedade necessária para que ela fosse desmentida. O mesmo aconteceu com o tema da ideologia de gênero e a doutrinação de professores nas escolas. Essas fake news se transformaram em retrocessos na discussão de gênero, sexualidade e afetividade no ambiente escolar e ainda no retrocesso nas políticas voltadas para pessoas LGBTQI+, tendo como pano de fundo o moralismo e o conservadorismo. Enquanto se fazia graça das notícias falsas, pessoas acreditaram nelas e em maio de 2020 estão nas ruas acreditando no milagre da cloroquina em plano mundial para derrotar o presidente, comunismo no Brasil, entre outras bizarrices.

Enquanto se fecham livrarias e sebos, as informações têm sido consumidas mais pela internet e redes sociais. Mas com a fragilidade educacional, parte do povo tem capacidade crítica reduzida para analisar uma fonte de informação e um conteúdo disseminado. Essa fragilidade da crítica não se deve necessariamente à falta de acesso à educação formal e a recursos tecnológicos, mas a falta de construção crítica da realidade com base em fontes de informação congruente com a realidade social.

O terraplanismo, por exemplo, deveria desencadear processos de disseminação científica que informem as pessoas. Precisamos, como sociedade, desenvolver novas estratégias de disseminação da informação e crítica, pois nem os arquivos, dados, fotos, relatos conseguem suplantar o conceito introjetado por notícias falsas.

O futuro da informação passa por um contínuo processo de reconstrução. Segundo Bauman a nossa sociedade capitalista vive para o consumo, e consumimos até o termo, e depois cria-se uma nova necessidade que também consumimos até o esgotamento e ficamos presos nesse círculo vicioso de consumo. O uso da informação tem forte influência do consumismo exacerbado da sociedade, que nos leva a consumir em alta velocidade até a exaustão. O futuro é incerto, o fim pode estar próximo ou não, não temos como saber. Mas precisamos nos preparar para esse novo que surge com menos acesso à informação confiável e com mais desinformação.

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