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Na mesma semana em que a realidade da pandemia do COVID-19 despontou no horizonte da sociedade brasileira,  o Ministério da Educação emitiu portaria[1] autorizando a substituição das aulas presenciais por aulas on-line nas universidades. A portaria trouxe de volta para arena pública (que em um mundo pandêmico se torna cada vez mais virtual), o debate sobre a universidade pública, agora na roupagem das aulas on-line.

Em menos de 24 horas nossas timelines, acompanhadas por reportagens em jornais televisivos[2] se encheram de postagens e matérias exaltando os benefícios das aulas on-line, no entanto, sem considerar algumas nuances. Acompanhar e participar (em alguma medida) desse debate abre a possibilidade de seguir algumas das trilhas pavimentadas a partir das referidas controvérsias.

A prática docente em uma universidade pública me leva, ao olhar para este cenário, a levantar algumas questões que emergem a partir do meu lugar de fala. Essa informação é de extrema importância, pois a convergência de nossos “lugares de fala”, trajetórias, experiências e interesses atuam e conformam as lentes que utilizamos para olhar e ler o mundo. Assim, as nuances aqui iluminadas são situadas no tempo e no espaço, voltadas para o atual contexto das universidades públicas no país, em tempos de quarentena.

São muitas as questões que podem ser formuladas em torno do “burburinho” gerado pela “solução” das aulas on-line. Para este momento, classifico algumas delas em quatro camadas: 1) estruturantes; 2) infra-estrutura; 3) habilidades técnicas e 4) conjunturais, que são exposta a seguir.

Ao olhar para a configuração do ensino superior no país e para as suas diferentes modalidades, a reflexão sobre os processos e práticas que as estruturam, é inevitável e propicia a colocação de algumas perguntas. Quais as consequência de transformarmos, por conta da situação emergencial, aulas presenciais em aulas on-line?

Um dos caminhos que podemos trilhar para pensar as estruturas subjacentes nos leva a outra pergunta: do conjunto de discentes que hoje estão nas universidades públicas quantos e, principalmente, de que grupos socioeconômicos são aqueles e aquelas para os quais se apresentam as condições adequadas para participar de aulas on-line? Quais alunos e alunas estarão excluídos das aulas on-line? De quais territórios?

Apagar tais aspectos do debate a partir do argumento da “emergência da situação”, produz efeitos no cotidiano dos sujeitos e das universidades. Efeitos que podem durar para além da quarentena e que podem nos levar por trilhas tortuosas.

O ensino à distância (EAD) requer um arcabouço infraestrutural que abrange desde as garantias de acesso às plataformas virtuais, até aspectos relacionados ao material didático que é preparado para cursos de EAD. Ao cogitar-se a transformação de aulas presenciais em aulas “on-line” reforça-se uma narrativa que ganha corpo em nossa sociedade: a universalidade da inclusão digital.

Muitas são as camadas que perpassam essa naturalização. Aqui destacamos algumas, materializadas em novas questões: há garantias de que todos os discentes tenham computadores ou dispositivos adequados, bem como planos de acesso à internet de forma que possam participar das aulas on-line? E quanto aos espaços? Será que em um momento em que é recomendado o isolamento social para todos, em que as famílias se encontram em suas casas[3], haverá  a possibilidade de participação nas aulas on-line?

Em paralelo, é preciso levar em consideração que há um grande lastro de estudos e de práticas nas diferentes modalidades de ensino no país. O ensino à distância, ou mesmo a realização de aulas on-line, requer também a capacitação dos docentes para lidar com uma sala de aula que não é presencial. A construção de uma sala – presencial ou virtual – em um espaço de tessitura de saberes, vai além da simples prática de transmissão de textos.

Será que todos os docentes dos cursos presenciais estão familiarizados com as características da interação em um ambiente virtual? Quais seriam os efeitos da transformação de cursos que foram preparados para uma sala de aula presencial, com práticas pedagógicas adequadas aos ambientes presenciais, em cursos on-line?

Esse movimento para realização de aulas on-line nos cursos presenciais, marcado pela  característica velocidade imposta pelas plataformas de mídias sociais na internet – em que somos levados a formulação de respostas rápidas –  naturaliza todo um campo de estudos e de práticas em torno das diferentes modalidades de ensino. Roger Laufer (2006), em texto que discute bibliotecas, livros e transformações tecnológicas, afirma que para novas ferramentas são necessárias novas tecnologias, o que também pode ser pensado em relação as diferentes modalidades de ensino.

O vírus que se propaga rapidamente pelo planeta nos imputa em escala global, talvez de forma inédita, o compartilhamento temporal de uma experiência, a da pandemia[4]. No entanto, apesar da experiência que é global, cada um de nós é afetado, em nossos corpos e mentes, de diferentes maneiras pelo vírus e pelas medidas de confinamento.

O COVID-19 explicita a desigualdade e a exclusão característica de nosso atual modelo de sociedade, desnudando a existência de territórios na cidades nos quais a água não chega nas torneiras, por exemplo. Parte dos alunos e alunas que estão nas universidades públicas residem nestes territórios. Neste sentido, em tempos em que cogita-se a manutenção das aulas durante uma pandemia que afeta o planeta, é necessário considerar os efeitos para a saúde mental de alunos e alunas que estão impotentes em garantir as condições mínimas de higiene para si e para seus familiares e afetos.

Já podemos arriscar que as alterações da pandemia em nosso cotidiano são enormes, mas não sabemos o quão grandes, profundas e duradouras serão. Ao propor-se a manutenção das aulas, através de aulas on-line nas universidades públicas, é indispensável não esquecer desse cenário, ao qual todos nós, docentes e discentes (bem como todos os outros humanos do planeta) estamos imersos.

Aulas, presenciais ou on-line não ocorrem suspensas no tempo e no espaço. São e estão situadas, relacionadas diretamente a realidade concreta. Deixar de fora tais “variáveis” é percorrer a estrada da desumanização. Vivemos um momento de emergência planetária, talvez como nunca vivenciado antes, mas é preciso ter cuidado com as escolhas e com os silêncios.

Medidas tomadas em momentos emergenciais podem ser apropriadas e aplicadas de formas distintas, a depender do espaço e do tempo, inclusive no controle de determinadas instituições e de determinados sujeitos. A decisão pela substituição é política e pode ter consequências para os momentos pós-crise.

Houve uma sugestão, por parte de um governo que pauta as politicas públicas para o ensino superior em certas direções; caberá às universidades, seu corpo docente e seu corpo discente, acatar a sugestão, ou pelo menos conversar sobre as implicações da mesma para as estradas que percorreremos, inclusive no futuro pós-pandêmico que nos aguarda.

Referências

BRASIL. Ministério da Educação. Portaria n. 343, de 17 de março de 2020. Dispõe sobre a substituição das aulas presenciais por aulas em meios digitais enquanto durar a situação de pandemia do Novo Coronavírus – COVID-19. Diário Oficial da República Federativa do Brasil. Poder Executivo, Brasília, DF., 17 de março de 2020. Disponível em https://www.in.gov.br  Acesso em: 18 de março de 2020.

GIL, José. O medo. Outras Palavras, 20 de março de 2020. Disponível em: https://outraspalavras.net/outrasmidias/o-medo/ Acesso em: 21 de março de 2020.

LAUFER, Roger. Novas ferramentas, novos problemas. In: JACOB, Christian, BARATIN, Marc. O Poder das Biblioteca: a memória dos livros no ocidente. 2. ed. Rio de Janeiro: EDUFRJ, 2006. p. 155 – 168.

[1] Portaria no 343, de 17 de março de 2020

[2] O Jornal Hoje (Rede Globo de televisão) do dia 20 de março de 2020, apresentou matéria sobre o tema.

[3] Há que considerar a generalização presente nesta formulação Comparativamente, há uma grande desigualdade presente nestes espaços, quando leva-se em consideração os territórios. Em muitas das “casas” espalhadas pelo país, particularmente nos territórios periféricos, os espaços são pequenos e ocupados por muitos.

[4] A reflexão inspira-se em texto de José Gil, no qual o autor tece algumas considerações sobre a globalização e o compartilhamento da experiência do medo em escala planetária (GIL, 2020)

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