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Se eu não fosse mundano demais, certamente seria eremita.

Viveria recluso, longe da humanidade e mais apegado à natureza. Ficaria mais próximo dos cascalhos, do ar, dos arbustos, das árvores retorcidas do deserto… Contemplaria o baile das nuvens, o esplendor da aurora e os arrebóis sempre distintos. Apreciaria o regato que desce sem pressa, lambendo o pedregulho enquanto modela-o como um ourives. Consideraria as diferentes cores do dia e as inúmeras constelações que se doam a cada anoitecer.

Meus olhos tentariam compreender o milagre da vida, ou melhor, os pequenos milagres que, mesmo sem vida, existem, e são tão ou mais fortes quantos os seres vivos. Uma pedra é um ser aí, plena de potência; sem vida, pode viver mais do que eu. Contemplaria as aves que cruzam para o norte pela manhã e voltam aos ninhais ao entardecer, aos bandos, planando com soberania sobre nossas cabeças. E a nós só resta olhá-las e desejar suas asas.

E ergueria uma prece a todos esses entes que me mostram a beleza e me dizem: “Não se preocupe em entender o mistério. Veja-o diante de si. Sinta-o. Respire-o”. E eu (que não consigo estar fora de mim, um prisioneiro) seria mais digno de minha existência, porque estar vivo pressupõe dar-se conta de uma dádiva, um presente, mas também uma responsabilidade; é por estar vivo e ter ciência disso que não posso ser mais, que devo buscar o menos. E o menos sou eu e tudo o que me diz respeito.

A contemplação me mostraria isso. Porque todos os sentidos estariam voltados ao outro, ao mundo fora de mim. E, fora de mim, é que realmente me dou conta de minha pequenez. Fora de mim, é que realmente me dou conta de que a humanidade é frágil. Fora de mim, talvez é o lugar em que eu nunca estarei, mesmo com a estranha sensação de que estou. E sou. Só posso ser. Porque estar é dar conta da lacuna que sou eu. Quando vejo o outro, sinto o outro, toco no outro, sinto que ali eu nunca estarei, naquele lugar, mesmo sendo errante.

Minha reflexão acabou sendo um paradoxo. Sei disso. Sei também que o mundo, meu eremitério, me joga na cara minha impossibilidade para o desprendimento. É preciso coragem. Vai ver é por isso que sou um ser para os livros. Eles me tiram do mundo. Eles me ilham. Eles me curam dessa vida demasiadamente real. Os livros me falam das dores que a humanidade padece, de suas ânsias. E cada romance, cada poema, cada imagem que vejo nessas páginas me falam dessa inconstância que é o humano. Pena que nós não percebemos isso, que somos passagem. Os livros me dizem do tempo que não volta, embora seja cíclico. Ele não volta para nós, as criaturas. Ele apenas gira e vai consumindo tudo.

Sinto que ler é, pra mim, uma forma de viver em um eremitério.

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