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Carta-resposta a Luiz Antonio Giron, que publicou no site da Revista Época o texto intitulado “Dê adeus às bibliotecas“.

 Publicado originalmente no facebook

Olá, Luís Antonio! Vou dispensar as formalidades do “Sr.”, ou qualquer coisa do gênero, pois não seria eu mesmo se estivesse comentando um artigo de uma revista semanal com tanta formalidade.

Queria comentar sobre seu recente artigo, intitulado “Dê adeus às bibliotecas”, pois sou bibliotecário, atualmente da Universidade Federal Fluminense (UFF), e pelas repercussões nessa mesma rede social, imagino que você esteja sendo bombardeado por críticas dessa classe profissional, de alguma maneira, com razão. Mas por outro lado, também concordo com você: a biblioteca esqueceu de se renovar.

Primeiro registrarei aqui o mea culpa, não tão “mea” assim, já que não me identifico definitivamente com a descrição feita no trecho: “A bibliotecária me atendeu com aquela suave descortesia típica dessa categoria profissional, como se o visitante fosse um intruso a ser tolerado, mas não absolvido”. Creio até que a palavra que melhor se encaixa na frase é “absorvido”, já que não é crime optar pela consagrada maneira de se ler, e portanto, não há de se absolver o visitante de nada, apenas conseguir incorporá-lo como eixo principal da biblioteca, como todas deveriam fazer.

Infelizmente existe esse estereótipo sim, e alguns profissionais ainda estão paralisados nele, sem dúvida, enquanto outros, a despeito de todas as dificuldades que a classe política nos impõe, tentam combater esse estereótipo, tanto conseguindo absorver seu usuário, como efetivando ações para multiplicar esses usuários absorvidos. Antes de vir para a UFF, fui bibliotecário da prefeitura do Rio, mais precisamente da Biblioteca Popular Municipal do Dique, em Jardim América, Zona Norte da cidade, e te confesso que foi o trabalho que mais me encantou, pois eu estava em contato direto com crianças de6 a15 anos, e sabia que ali eu poderia contribuir para a mudança de perspectiva de vida daquelas crianças, afinal, como já diria o bom e velho Monteiro Lobato, “um país se faz com homens e livros”.

Para tentar desenvolver algo nesse lugar, matei aranhas que saíam entre livros que não correspondiam ao perfil daquela comunidade, limpei cantos de estante com álcool, para tirar aquelas pequenas ovas de inseto (ou outro bicho, sei lá!) que ficam horrorosamente grudadas nos móveis e livros, mandei livros didáticos dos anos 80 e outros livros que tratavam de homoafetividade como doença pra reciclagem, conseguindo assim algum dinheiro para o desenvolvimento de oficinas realizadas por dois criativos professores que lá estavam alocados. Ignorando a ausência de materiais (inclusive um computador funcional), desenvolvemos um jornal para biblioteca, que eu diagramava em casa, imprimia e tirava fotocópia na sede da Prefeitura e levava o que foi impresso na mochila, de volta pra Jardim América. Além disso, eu ainda tentava desenvolver o trabalho básico de um bibliotecário: classificar, catalogar, fazer com que a informação fosse minimamente recuperável. Fiquei menos de um ano lá e saí com a sensação de que pouco fiz. O motivo? Tentar manter a mim mesmo e a minha família com um salário de cerca de R$1.000,00 tornou-se uma missão fora das minhas capacidades. Cada problema em casa, cada goteira ou outras dessas pequenas intempéries que todos temos que enfrentar, passou a ser ignorado, já que não havia recursos financeiros para resolver. Imagine agora que outros bibliotecários, os que me substituíram, podem estar nessa situação, talvez até pior, se analisarmos a origem social do profissional dessa área.

Eu acredito que um dia, quem sabe, a gente possa discutir o fim das bibliotecas no formato que as conhecemos e até dar um “adeus”, definitivo, para o prédio cheio de papel dentro. Todos aderindo às bibliotecas digitais em seus tablets, kindles, celulares e outros dispositivos que permitem que o indivíduo carregue sua própria coleção individual. Acontece que nós, Luís, somos a classe média desse país. Com o seu salário, e com o meu, podemos dispor de um tablet para ler confortavelmente em qualquer lugar. Eu mesmo acabei de ler “A insustentável leveza do ser”, do Kundera, enquanto no mesmo suporte, me aguardava um Vade Mecum desse ano, com quase (ou mais de, não lembro agora) 2.000 páginas, pois além de bibliotecário, hoje faço uma segunda graduação em Direito. Tudo isso num dispositivo de menos de meio quilo. E que nem é tão caro, hoje é possível adquirir um desses por menos de 300 reais.

Mas e aquelas crianças de Jardim América? O que vamos fazer com elas? Será que os pais delas têm esses “menos de 300 reais” disponíveis? Como eu posso cobrar o interesse pela leitura na internet, se a escola pública continua tendo um tom repressivo, que pouco estimula a leitura e a curiosidade acadêmica. E a televisão, meio majoritário de contato com aquele mundo exterior, o mundo da classe média, prefere desfilar músicas e roupas da moda, ignorando a necessidade de se desenvolver o ser humanos com questionamentos um pouco menos superficiais do que “será que Astolfo vai terminar com Claudia na novela hoje?”. O resultado é esse: crianças com uma “biblioteca” de um milhão de páginas a sua frente, mas que preferem brincar de dar tiro enquanto tomam um refrigerante em frente a um computador. E a saída passa a ser a biblioteca, não o velho depósito de livros velhos e mofados que alguns insistem em defender, mas uma instituição nova, que trabalhe o lado lúdico da criança e, porque não, do adulto. Só que a instituição da qual estamos falando vai demandar não só gente qualificada, mas também recursos públicos, tanto para se criar essa instituição, como para remunerar dignamente o profissional que nela estiver.

É isso Luís! Espero que você tenha sido demovido da ideia de dar “adeus” às bibliotecas e agora lute pela biblioteca que deve existir, por uma revolução política na cultura e na educação, e que agora sempre pense em que pode contribuir esse esquisito profissional que um dia foi uma velhinha de coque, mas que hoje pode assumir qualquer forma, tanto uma jovem e voluptuosa loira, como um boêmio tatuado se aproximando dos seus 40 anos. Não importa, na biblioteconomia tem espaço para todos.

Caso queira pensar mais sobre um tema, entre em contato. Há bibliotecários atuando com deficientes auditivos, sendo editores de revistas virtuais, gerindo voluntariamente bibliotecas comunitárias em favelas, refletindo sobre a indexação e busca da informação na web 2.0… Tem de tudo, basta conhecer um pouco.

Abraço!

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