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Como contribuição para a discussão acerca da forma parcial como a grande mídia tem abordado a questão das manifestações, especialmente os últimos episódios envolvendo o nome do deputado estadual (PSOL/RJ) Marcelo Freixo, destaco a visão de Perseu Abramo (destacado sociólogo, professor e jornalista brasileiro) para quem “uma das principais características do jornalismo no Brasil, hoje, praticado pela maioria da grande imprensa, é a manipulação da informação”. Abramo indica essa percepção num texto da década de 1980 (Significado político da manipulação da grande imprensa), mas em cujas linhas gerais estão contidos aspectos bastante atuais da nossa imprensa, como atesta Hamilton Otávio de Souza no prefácio da obra.

Neste texto Abramo aponta quatro “padrões de manipulação” gerais para toda imprensa e mais um específico para o telejornalismo.  O primeiro, chamado por ele de “padrão de ocultação”, se refere à ausência e a presença dos fatos reais na produção da imprensa, não se tratando de mera omissão diante do real ou mesmo de fruto de desconhecimento. Ao contrário. Tratar-se-ia de “um deliberado silêncio militante sobre determinados fatos da realidade”, cujo padrão opera nos atos preliminares da busca da informação, ou seja, “no ‘momento’ das decisões de planejamento da edição, da programação ou da matéria particular daquilo que na imprensa geralmente se chama de pauta”. Abramo assevera que “a ocultação do real está intimamente ligada àquilo que frequentemente se chama de fato jornalístico”. Destaca ele: “a concepção predominante – mesmo quando não explicita – entre empresários e empregados de órgãos de comunicação sobre o tema é a de que existem fatos jornalísticos e fatos não jornalísticos e que, portanto, à imprensa cabe cobrir e expor os fatos jornalísticos e deixar de lado os não jornalísticos. Evidentemente, essa concepção acaba por funcionar, na prática, como uma racionalização a posteriori dopadrão de ocultação na manipulação do real”.

Abramo ainda ressalta que “o mundo real não se divide em fatos jornalísticos e não-jornalísticos”. Isso porque “as características jornalísticas, quais quer que elas sejam, não residem no objeto da observação, e sim no sujeito observador e na relação que este estabelece com aquele”. Para ele “o ‘jornalístico’ não é uma característica intrínseca do real em si, mas da relação que o jornalista, ou melhor, do órgão de jornalismo, a imprensa, decide estabelecer como realidade. Nesse sentido, todos os fatos, toda a realidade pode ser jornalística, e o que vai tornar jornalístico um fato independe das suas características reais intrínsecas, mas depende, sim, das características do órgão de imprensa, da sua visão de mundo, da sua linha editorial, do seu ‘projeto’”.

O segundo padrão de manipulação apontado por Abramo é o da “fragmentação”. De acordo com esse padrão, após “eliminados os fatos definidos como não-jornalísticos […], o todo real é estilhaçado, despedaçado, fragmentado em milhões de minúsculos fatos particulares”. Abramo observa que, por meio desse processo, esses fatos, na maior parte dos casos, passam a ser desconectados entre si, “despojados de seus vínculos com o tema geral, desligados de seus antecedentes e de seus consequentes no processo em que ocorrem, ou reconectados e revinculados de forma arbitrária e que não corresponde aos vínculos reais […]”. O padrão de fragmentação implicaria, pois, duas operações básicas, quais sejam, 1) a da “seleção de aspectos”, no qual, mesmo tendo sido escolhido como fato jornalístico, este é decomposto, atomizado, dividido em particularidades e 2) a “descontextualização”, segundo o qual, “isolados como particularidades de um fato, o dado, a informação, a declaração perdem todo o seu significado original […]”.

Abramo enfatiza a “inversão” como sendo o terceiro padrão de manipulação. Neste, “opera o reordenamento das partes, a troca de lugares e de importância dessas partes”, fazendo com que se configure a “destruição da realidade original e a criação artificial da outra realidade”. Ele aponta as várias formas de inversão: 1) Inversão da relevância dos aspectos, segundo o qual “o secundário é apresentado como principal; o particular pelo geral e vice-versa; o acessório e supérfluo no lugar do importante e decisivo, etc.”; 2)Inversão da forma pelo conteúdo, no qual “o texto passa a ter mais importância do que o que ele reproduz”; 3) Inversão da versão pelo fato: “não é o fato em si que passa a importar, mas a versão que dele tem o órgão de imprensa, seja essa versão originária do próprio órgão de imprensa, seja adotada ou aceita de alguém […]”. Este padrão operaria por meio do frasismo – consistindo no “abuso da utilização de frases ou pedaços de frases sobre uma realidade para destruir a própria realidade” – e do oficialismo, no qual no lugar dos fatos existiria uma versão, mas de preferência que essa versão seja oficial, ou seja, dada pela autoridade, sendo a melhor autoridade, a do próprio órgão de imprensa; 4)Inversão da opinião pela informação, no qual a informação é substituída inteira ou parcialmente pela opinião. Na verdade essa inversão seria na verdade o resultado da “utilização sistemática e abusiva de todos esses padrões de manipulação”.

Destaca Abramo: “deve-se destacar que não se trata de dizer que, além da informação, o órgão de imprensa apresenta também a opinião, o que seria justo, louvável e desejável, mas sim que o órgão de imprensa apresenta a opinião no lugar da informação, e com a agravante de fazer passar a opinião pela informação […]. Ao leitor/espectador, assim, não é dada qualquer oportunidade que não a de consumir, introjetar e adotar como critério de ação a opinião que lhe é automaticamente imposta sem que lhe sejam igualmente dados os meios de distinguir ou verificar a distinção entre informação e opinião”.

O quarto padrão de manipulação indicado por Abramo é o “de indução”. Mesmo reconhecendo que os padrões de manipulação descritos por ele não ocorrem necessariamente em todas as matérias e programas de todos os órgãos impressos, auditivos ou televisivos, diariamente ou periodicamente e que “é possível encontrar, diariamente, um grande número de matérias em que esses processos de manipulação não existem ou existem em grau mínimo”, Abramo alerta para o seguinte fato: “O que torna a manipulação um fato essencial e característico da maioria da grande imprensa brasileira hoje é que a hábil combinação dos casos, dos momentos, das formas e dos graus de distorção da realidade submete, em geral, e em seu conjunto, a população à condição de excluída da possibilidade de ver e compreender a realidade real e a induza a consumir outra realidade, artificialmente inventada”.

A tese que defendo, partindo da leitura de Abramo e Muniz Sodré (outro grande teórico da mídia, especialmente a televisiva) é que o aspecto manipulador da mídia pode se dar de forma oscilada. Ou seja, o grau de manipulação não se daria nem necessariamente de forma absoluta ou relativa ou de forma regional ou transnacional, mas dependeria do seu tempo e lugar e, por conseguinte, estaria condicionada ao grau de inscrição democrática do país onde opera. Sendo assim, a mídia tenderia a se tornar mais manipuladora à medida que os seus preceitos estivessem em risco.

A história da mídia no Brasil está recheada de exemplos, como o caso da eleição de Collor em 1989 parece ilustrar (Para isso ler “A imprensa e Fernando Collor” do jornalista Mário Sérgio Conti). Quando foi interessante elegê-lo, a mídia se comportou nesse sentido, mas quando foi necessário derrubá-lo, os esforços não foram medidos. Como se sabe, o Brasil vive atualmente um estágio de relativa estabilidade democrática, tendo, inclusive, já realizar sua quinta eleição direta consecutiva para o executivo nacional, caso nunca antes observado em nossa história. Mesmo assim, o tom de contestação (inclusive contra o modelo de mídia nacional), que ecoa das ruas desde o ano passado, parece assustar os donos dos grandes veículos, estimulando-os a movimentar a máquina midiática a favor dos seus interesses.

O que existiria, pelo menos como hipótese, é uma conformação da grande mídia no sentido de observar a relativa estabilidade “democrática” pela qual o Brasil vem (ou vinha?) passando, estando, contudo, preparada para uma ofensiva reacionária, se assim que necessário, o que parece estar acontecendo.

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Editora: Fundação Perseu Abramo

ISBN: 8586469750

Páginas: 64

Ano: 2003

Edição: 1ª

Lingua: Português

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