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Que ano é este que estamos vivendo, senhoras e senhores?! Quem não está vivenciando o desmonte do Estado brasileiro até pode não acreditar no que vem acontecendo amiúde por aqui. Parece brincadeira, mas infelizmente não é: estamos vivendo tempos estranhos entre os trópicos, e sabe lá quando tudo isso terá um fim (se é que haverá um fim!).

Tentarei fazer um panorama histórico/social sobre alguns fatos que ocorreram no Brasil nos últimos anos, e que teve a participação majoritária da elite nacional; não se trata daqueles que se acham elite e batem ponto todos os dias nos seus locais de trabalhos (estes são proletariados que reivindicam a pertença à elite que nunca foram).

Sabemos que durante os governos dos presidentes eleitos pelo Partido dos Trabalhadores (2003 a 2016), diversos avanços de âmbito social puderam ser vistos na sociedade brasileira. Algumas medidas vindas de planos que o governo federal implantou foram a alavanca para que muitos homens e mulheres pudessem conquistar bens materiais duráveis como nunca se tinha visto na história nacional.

Não vamos falar aqui dos maus feitos praticados por alguns membros do partido supracitado (isso não é difícil de encontrar na internet); dar-se-á atenção neste texto ao processo que fez com que muita gente pudesse afirmar que surgia uma nova classe média no Brasil.

O alto preço das commodities, somado a alta expressiva do petróleo e a descoberta do pré-sal, fizeram com que o Brasil não sentisse à crise que assolou boa parte do mundo em 2008. Nossa economia resistiu bem as pressões externas, e conseguimos passar pela crise sem muitos problemas.

É claro que, para que pudéssemos passar incólumes pela crise de proporções planetárias, foi preciso que o governo abrisse mão de um montante de recursos considerável, maquiando assim a economia e dando-nos a sensação de que estávamos protegidos das adversidades de uma crise financeira global, em que os sistemas estão todos interligados.

A alta circulação de dinheiro no mercado interno deu uma significativa levantada na economia. Nunca se vendeu tantos bens duráveis quanto no período acima mencionado. Pessoas que não tinham condições de comprar geladeira, fogão, ar-condicionado, televisão de última geração compraram estes bens aos montes.

Cansei de ver nos morros da vida que morei e/ou que frequentei, casa sem reboco (no tijolo), mas com aparelho de ar-condicionado de última geração. O número de pessoas com carros nas ruas cresceu exponencialmente. Os aeroportos mais pareciam rodoviárias de tanta gente que passou a viajar de avião. Tudo isso foi visto nos últimos 16 anos aqui no Brasil, e deu a sensação de que uma nova classe surgia.

Diferentemente do que se pensa, a constituição da classe média não se faz com a quantia que as pessoas têm nos bancos. É preciso ter mais do que dinheiro para ser da classe média. O sociólogo Jessé Souza, autor de diversos livros que nos fazem pensar a forma com que a sociedade brasileira foi criada e vive atualmente, se utiliza de conceitos elaborados por Pierre Bourdieu no tocante aos capitais que adquirimos na nossa jornada na sociedade.

O francês nos apresenta diferentes capitais, mas nós ficaremos com três neste texto: financeiro, cultural e social. Jessé aponta o erro da elite brasileira em achar que, o fato de pessoas pobres terem acesso ao que não tinham antes, seria a porta de entrada dessas mesmas pessoas na classe média; tolice!

“Elite do Atraso”, de Jessé de Souza. Foto: divulgação

A sociedade é dividida em pelo menos três elites; deixe-me explicar (a luz da análise feita pelo Jessé): a elite do dinheiro, que determina tudo o que vai acontecer no país, comprando deputados, juízes, mídia e afins; a elite média (ou simplesmente classe média), composta majoritariamente por funcionários públicos e alguns membros da empresas privadas; pensa que dita as regras no país, mesmo sabendo que obedece aos endinheirados. E dentro da classe média podemos destacar a elite do judiciário com seus altos salários e a sua vida nababesca; a elite política, que está por dentro e esquematiza todo o sistema, e por aí vai.

A elite do dinheiro, ou seja, aquela que determina quem nasce e quem morre (para usar uma analogia, apenas), não se mostra jamais! Determina as regras e depois deixa na mão dos empregados. Aqui se pode entender como empregados o poder judiciário (majoritariamente) e a classe política, que cria e revoga leis visando o bem comum da elite que dita como será o jogo.

Falando em capitais na perspectiva bourdiana, ter dinheiro é uma parte do processo para se pretender classe dominante. Entretanto, ter um capital cultural é fundamental para estabelecer relação entre os membros desta classe. Não adianta ter grana se, por exemplo, não souber distinguir vinhos, comentar sobre a última viagem para uma ilha perdida em lugar paradisíaco, ter roupas feitas à mão por estilistas famosos etc.

São as pontes que o capital cultural permitirá fazer, que a classe dominante vai se relacionar entre si, visando dar manutenção ao status quo, ou seja: quem é da classe dominante, se relaciona com a classe dominante e reproduz a espécie através de casamentos entre eles mesmos.

Achar que os pobres pudessem ascender de classe pelo momentâneo poder de compras é tornar flagrante o nível de psicopatia que assola nossa caduca classe dominante, porém, nada foi mais ultrajante para ela do que ver nas cadeiras das universidades públicas gente que anteriormente não tinha a menor chance de estar sentados ali.

Ver o filho do pedreiro, a filha da faxineira, os retirantes nordestinos sendo aprovados para universidades de renome internacional levou à classe dominante a bolar um plano que resultasse na exclusão do PT do cenário nacional.

O mote para liquidar com o Partido dos Trabalhadores foi a moeda já gasta, mas que ainda causa efeito devastador no meio da sociedade, qual seja, a corrupção. Falar de corrupção é algo tão forte que acabamos por esquecer, por exemplo, que as altas taxas de juros que há no Brasil favorecem enormemente os banqueiros (elite do dinheiro) que, de forma “legal”, assalta a nação à luz do dia.

Nada mais pernicioso na economia brasileira do que enriquecer os banqueiros ainda mais com dinheiro de juros. Porém, a manipulação da informação é tão eficaz que vemos o tamanho dos juros, sabemos dos lucros astronômicos dos bancos e nos revoltamos apenas com a corrupção praticada por membros da classe política.

Como consequência da investida da elite rumo à liquidação do Partido dos Trabalhadores foi à deposição dá presidenta Dilma, a ascensão de Michel Temer ao poder e a consequente eleição de Bolsonaro. É preciso que entendamos que tudo o que estamos vivendo agora foi elaborado sistematicamente; teve um plano!

De forma bem direta, a intenção da elite jamais foi eleger Bolsonaro presidente da República, porém, com a não aceitação do candidato do PSBD nas pesquisas de opinião que antecederam o pleito de 2018, não se vislumbrou outra alternativa.

A elite tem uma parcela de culpa sobre o que estamos vivendo agora. Foi ela quem mexeu todo o sistema para que à direita pudesse voltar ao poder; é bem verdade que o que está aí não figurava nos planos.

Vivemos tempos difíceis e de desesperança: o texto base para reforma da Previdência passou em primeiro turno na Câmara; Guedes já se anima para o desmonte do Estado; o MEC anuncia uma mudança significativa na estrutura das universidades pública federais, mas sobre isso a gente fala em uma outra oportunidade.

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