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Em plena era apocalíptica editorial, qualquer leitura e qualquer conversa a respeito do futuro do livro impresso ganha um ar indigesto, como se estivéssemos falando de um assunto necessário, porém proibido. É justamente esta a sensação que se tem ao ler este “A questão dos livros: passado, presente e futuro”, do escritor Robert Darton – à época, presidente da Biblioteca de Harvard.

Tive a oportunidade de ver a palestra do autor e de conhecê-lo pessoalmente durante sua visita à FLIP de 2010 e tenho certeza de que não fui a única a se sentir tocada por suas palavras. A última pergunta dirigida a ele pelo mediador foi “Você acha que o livro impresso vai acabar?” Darnton foi categórico: “Não.”

Este “A questão do livro” é, na verdade, uma coletânea de ensaios escritos pelo historiador e compilados pela semelhança com a temática: passado, presente e futuro. Naturalmente, a disposição dos textos é inversa, de modo que o leitor recebe o choque inicial acerca do futuro do livro logo de início e, se tiver estômago, conseguirá chegar até o final – cá entre nós, o passado é um terreno familiar a todos, pois já aconteceu e já sabemos como termina.

Boa parte do “futuro” fala do projeto Gutemberg-e, encabeçado pelo próprio Darnton na Biblioteca de Harvard, numa tentativa de salvar a publicação de monografias que estivessem correndo o risco de nunca serem publicadas, devido aos altos custos que as editoras acadêmicas têm para colocar esse tipo de material no mercado. Como toda boa ideia, a intenção do projeto era linda, mas foi a duras penas que ele conseguiu justificar seus próprios gastos, uma vez que nem mesmo os estudantes se sentiram estimulados a enviar suas monografias para o concurso (elas deveriam ter um padrão X de publicação virtual, de modo que caso o estudante não a tivesse escrito nesses moldes, deveria adaptá-la, o que levaria a um novo gasto.).

É impossível deixar de sofrer quando Darnton relata sobre o massacre que houve na Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, quando, nos anos 1980, os bibliófilos entraram em pânico e houve uma empreitada de digitalização do acervo de modo a mantê-lo salvo para as gerações futuras. Entretanto, essa digitalização – através de microfilme – consistia em cortar a lombada dos livros para melhor trabalhar o material durante a microfilmagem, estragando, assim, a edição original. Além disso, após a digitalização de milhares de cópias de edições antigas dos jornais impressos, essas cópias simplesmente foram jogadas no lixo ou vendidas a preço de banana para colecionadores, pessoas que tinham um fetiche em ter o exemplar do jornal que anunciava a morte do presidente Kennedy, por exemplo. Lastimável.

Ainda assim, para qualquer bibliófilo, estudante, escritor, editor, produtor editorial, bibliotecário, biógrafo e, acima de tudo, para qualquer amante do livro, a leitura deste “A questão dos livros” é necessária, uma vez que abrange os questionamentos das diretrizes do mercado editorial desde os anos de 1970 até os dias de hoje. Mais do que isso, debate como deveremos encarar as novas e constantes mudanças que o mercado editorial enfrentará num futuro próximo.

Editora: Cia das Letras.

Autor:  Robert Darnton

Ano: 2010

Edição: 1

Número de páginas: 232

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Comentários

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2 Comentários

  1. 17 de março de 2013 a 23:42 —

    Excelente resenha, quero ler esse livro!

  2. Danyara Souza
    19 de março de 2015 a 14:40 —

    Estou lendo este livro e, realmente, a leitura sobre o futuro do livro, dá esta sensação de “proibido”; um assunto importante que devemos nos aprofundar sem muito precisar compartilhar nossas impressões, por exemplo. Não sei se é o autor que nos passa esta impressão ou se esta parte de nós mesmos. Realmente há um receio dos amantes do livro impresso frente ao crescimento dos livros eletrônicos de que esse “objeto de desejo” desapareça. Estou convencida de que o livro impresso não vai acabar, assim como o rádio não acabou com o surgimento da tv etc. Tenho um artigo publicado pela revista biblioo justamente falando sobre este debate do livro impresso e o e-book. E novamente reitero que é apenas uma impressão! O mercado editorial tem espaço para todos os formatos. E acho ótimo que ele siga às tendências e atenda a vários gostos!

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