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Demorei cinco longos anos para me formar no curso de graduação em Biblioteconomia na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO). Uma Escola tradicional, a primeira ser fundada na América Latina e a terceira no mundo, sob a égide da Biblioteca Nacional brasileira em 1911, ou seja, há mais de um século atrás. Este curso foi estruturado segundo o modelo europeu de ensino da Biblioteconomia, consagrado pela École des Chartes, com ênfase para a formação de caráter erudito. Segundo informações no site da Escola, atualmente a orientação da formação é voltada para um caráter humanístico.

Humanístico?

Pois bem. Neste momento quero de me dirigir diretamente aos leitores que se formaram ou estão estudando Biblioteconomia, não somente na UNIRIO, mas em qualquer universidade brasileira, e os convidar a fazer uma reflexão honesta sobre o que seria uma formação humanística. Pergunto-lhe: Você acredita estar apt@ a usar a Biblioteconomia como uma ferramenta emancipatória, capaz de realizar mudanças sociais estruturais?

Em outras palavras, será que conseguiríamos elaborar uma política de formação e desenvolvimento de coleções com propriedade para uma biblioteca pública, comunitária ou mesmo escolar, tão bem quanto o faríamos para uma biblioteca universitária ou especializada? Trago a reflexão por esse caminho, por acreditar que nós – talvez nem todos individualmente, mas como área do conhecimento -, estamos tomando um caminho sem volta. Cada vez mais especializados, trilhamos o caminho da técnica biblioteconômica e gerencial e cada vez dando menor atenção às necessidades de transformação social.

Quando analisamos o cenário sócio-econômico do Brasil, mesmo se utilizando de notícias veiculadas em meios de informação voltadas para o lucro, nos deparamos com um país que fica a cada ano mais rico, com um crescente aumento em seu Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). A despeito disso, as desigualdades não param de crescer , sendo o país apontado, em 2010, como o terceiro país mais desigual do mundo.

O mais preocupante nesses dados é, justamente, a dificuldade encontrada pelos setores mais afetados da população em conseguirem olhar criticamente para essas notícias e percebendo que quem faz o país rico são eles, os que trabalham para produzir e construir, e assim nos transformar em uma potência econômica. Porém, o resultado de todo esse trabalho não está sendo a diminuição da desigualdade, como se esperava. O bolo cresceu, mas parece que dividi-lo está longe de ser uma prioridade para os que possuem a maior parte dele.

Enquanto isso, nós, profissionais da informação, somos capacitados na academia para uma recuperação da informação eficiente; aprendemos os conceitos como os de precisão e revocação, discutimos sobre a implementação de novas formas de Disseminação Seletiva da Informação (DSI), serviço de referência digital, entre outras ferramentas. Mas em algum momento nos perguntamos como podemos fazer a diferença de verdade para mudar o cenário social que se apresenta? Ou simplesmente não ligamos para o fato de milhares de pessoas não terem acesso a livros (nem a informação em outros suportes), ou terem acesso a acervos de péssima qualidade, sem nenhum critério sério de seleção?

Algumas iniciativas bem intencionadas têm surgido como a criação de bibliotecas comunitárias e populares que ajudam a trazer algum contato com a leitura em locais onde isso era inexistente. Diga-se de passagem, muitas vezes essas iniciativas são articuladas sem a participação de um bibliotecário. Mas muitas ações desse gênero acabam sendo assistencialistas, entrando em um campo que deveria ser ocupado pelo Estado, que, se negligencia até mesmo sua função básica de prover educação de qualidade para todos, imaginem a manutenção de bibliotecas públicas, que embora sejam essenciais no processo educacional (e cultural), articulando o desenvolvimento e afirmação de uma determinada comunidade, não são o foco maior da educação.

Precisamos também relacionar diversos meios de informação e ter a humildade de reconhecer que a maior disseminadora de informação nos nossos tempos não é a biblioteca, mas meios de comunicação de massa, como televisão e a internet. O conhecimento da conjuntura da grande mídia, portanto, nos é de grande valia, ao percebermos que a informação que deveríamos trazer para desenvolver o pluriculturalismo e o pensamento crítico dos usuários da nossa unidade de informação terá que dialogar com as informações recebidas dessa grande mídia, dominada por grandes grupos corporativos. Cabe conhecer projetos de democratização e as iniciativas de análise do panorama da mídia (e consequentemente da informação) brasileira, sempre atento ao posicionamento dos grandes grupos que dominam o cenário da imprensa no Brasil, que muitas vezes, a título de notícia ou análise política imparcial, atacam tais projetos de democratização os taxando como tentativas de censura e ataques a liberdade de imprensa.

Torna-se necessário discutir de modo crítico sobre o tipo de informação que precisa ser disponibilizada, mas, hoje, é negligenciada, sempre tendo em vista todo esse panorama da mídia, da economia, da política, entre outros. Antes disso, precisamos ainda discutir quem seria o detentor do direito de decidir como será a formação de acervos, onde novas bibliotecas serão criadas, quais os serviços disponibilizados, por qual motivo… Será que o mais adequado é deixar tais decisões nas mãos de políticos (ou de coordenadores indicados por esses)? Ou devemos pensar em formatos que tornem a participação popular como cerne desse processo decisório?

A quem a ciência serve?

É admirável o trabalho realizado por nossos colegas em algumas empresas, universidades e centros de pesquisa; um trabalho de qualidade, demonstrando a evolução do curso em alguns aspectos. Entretando, o trabalho de empresas busca, direta ou indiretamente, a maximização dos lucros, o que já vimos que não necessariamente leva ao desenvolvimento social. Sobre as universidades e centros de pesquisa, fica a pergunta análoga a do título desse texto: a quem a ciência serve? Sabe-se que existem ótimos trabalhos científicos sendo desenvolvidos na Fundação Osvaldo Cruz (Fiocruz), no Rio de Janeiro, por exemplo, e o trabalho do bibliotecário é fundamental para que essa instituição continue sendo referência em saúde pública. Mas será que a maioria das instituições que desenvolvem projetos científicos pensam a sociedade como a Fiocruz? Ou seria a própria ciência mais uma forma de maximizar lucros?

Não parece natural que um bibliotecário municipal (que trate diretamente com bibliotecas públicas) ganhe menos de R$1.500 por mês, ou seja, menos da metade do salário dos de uma universidade pública, que por sua vez ganha por ano menos da metade do que os bibliotecários de empresas como a Petrobrás ou BNDES, que por sua vez ganham menos da metade que os bibliotecários das agências reguladoras e do Senado. Hoje tenho a íntima certeza que a Biblioteconomia que está posta não foi pensada para o desenvolvimento de uma sociedade mais crítica, justa, com menos desigualdades econômicas, de gênero ou raça, mais respeito pela diversidade sexual ou religiosa.

Pergunta-se onde estaria o caráter humanístico proposto pelo discurso oficial das universidades. E parece que ninguém questiona, muito pelo contrário, entra-se na lógica do capital já no início da graduação, quando muitos tem o único objetivo de ser bem remunerado, ignorando valores sociais. A universidade continua formando pro mercado; as entidades de classe parecem aceitar a situação, com um imobilismo que é visível para a maior parte da classe, que por sua vez sempre critica pelos corredores, mas também pouco se movem, talvez porque o caminho a ser percorrido se mostre ora obscuro, ora confuso, ora longo demais para ser percorrido por tão poucos pés.

Aos que sentem aquele desconfortável incômodo com toda essa situação, chegará o momento em que será preciso definir “de que lado você samba”, se vai “desafinar o coro dos contentes” ou seguir seu próprio caminho, sem olhar para trás. E para os lados. E quando olhar, fingir que não viu, fingir que não tem nada a ver com você. Porque se a gente quer ver algo melhorar “não adianta olhar pro céu com muita fé e pouca luta”, pois nada vai mudar na nossa inércia. Na minha. Na sua.

Por isso discuta, pense, critique, cobre, se organize. Faça qualquer coisa. Mas faça algo.

“O que mais preocupa não é o grito dos violentos, nem dos corruptos, nem dos desonestos, nem dos sem ética. O que mais preocupa é o silêncio dos bons.”

Martin Luther King Jr. (1929-1968)

“Na mudança de atitude não há mal que não se mude nem doença sem cura
Na mudança de postura a gente fica mais seguro
Na mudança do presente a gente molda o futuro!”

Até quando? (Gabriel O Pensador)

“Vamos duvidar de tudo o que é certo!”

Pose (Engenheiros do Hawaii)

“Não me dou por vencido, vejo a luz no fim do túnel!”

Qual é?  (Marcelo D2)

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3 Comentários

  1. 26 de novembro de 2012 a 12:22 —

    Bravo!
    Até que enfim algo dissonante.

  2. Eduardo
    26 de novembro de 2012 a 12:41 —

    Muito bom o texto e as reflexões que provoca. Infelizmente na universidade – nas Ciências Aplicadas, ou, neste caso especificamente, na escola de biblioteconomia – não se trabalha com textos como este em sala de aula. Não é sequer de interesse de boa parte dos professores, inclusive de professores que em discursos enchem a boca para falar sobre sua bendita formação humanística (quando na verdade estão submersos na lógica perversa da reprodução inútil que costumam classificar de "produção do conhecimento") dar visibilidade a tal conteúdo. Atrás desses mesmos falsos paladinos da escola humanística, e dos demais que sequer dão atenção àquela desacreditada formação, caminham cegos, uma grande legião de estudantes, sedentos pelo sucesso acadêmico que se quer entendem o que significa, que sequer entendem como funcionam… Em outras palavras, que não minhas: “eles não sabem o que fazem, mesmo assim o fazem”. E nessa constante as Ciências Aplicadas se torna “essa coisa que com ou sem ela, nada muda na sociedade”, como já denunciava o professor José Paulo Netto.

  3. Juliana
    29 de agosto de 2014 a 17:52 —

    Sou estudante de biblioteconomia e estou no 6º período.

    O lance é que somente agora vi que não utilizei bem o tempo que “nos é oferecido” dentro da universidade.

    Eu sou uma dessas que pensava apenas nos lucros mas, é claro na vida de “perrengue” que sempre tive… nada mais natural não é mesmo?!

    Na minha opinião o que faltou foi amor, compromisso e dinamismo da parte dos professores que passaram pela minha vida acadêmica. E também não posso deixar de registrar a apatia dos colegas quando se tratavam de disciplinas que exigiam leituras de maior esforço mental.

    Acho mesmo que tudo isso é parte de um ciclo … o professor não tem amor pelo que faz e os alunos não querem aprender … e vice versa!

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