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Elaine Showalter, uma crítica literária, feminista e escritora americana sobre questões culturais e sociais, já havia registrado que nas décadas de 1870 e 1880, em grandes editoras inglesas, quase a metade dos autores era do sexo feminino, de tal modo que final do século XIX, George Eliot, romancista autodidata britânica que assinava seus livros sob o pseudônimo de Mary Ann Evans, “havia dominado o romance vitoriano da mesma forma que a rainha Vitória comandava a nação” (Anarquia sexual: sexo e cultura no fin de siècle, 1993).

Cenário semelhante se verificava no mesmo período nos Estados Unidos onde três quartos dos romances publicados nesse período foram escritos por mulheres. Se destacam Emily Dickinson, considerada a poetisa mais importante do período, Louisa May Alcott, que se dedicou principalmente à literatura juvenil, etc.

No Brasil, ao contrário do que ocorrera nestas potências econômicas, devido a questões de poder e de ideologia, a inserção da mulher no cenário literário foi lenta e árdua, conforme observa Cláudia Castanheira, que é doutora em Literatura Brasileira pela UFRJ e membro-pesquisador do Núcleo Interdisciplinar de Estudos da Mulher na Literatura (NIELM). Segundo ela, a institucionalização da leitura e da literatura feminina foi francamente discriminatória, uma vez que prevalecia o pensamento de que as mulheres eram intelectualmente inferiores aos homens, e, portanto, sua forma de pensar e de escrever também o seria.

Num artigo sobre os “percursos e percalços” da trajetória das escritoras brasileira, Castanheira conclui que a literatura de autoria feminina compõe, a partir dos anos 1990, um corpo expressivo e multifacetado, que reflete o resultado de décadas de elaborações teóricas e práticas reivindicatórias, no sentido de atualizar a queda de conceitos e valores tradicionais e patriarcais de nossa cultura. “Verifica-se, enfim, uma atitude positiva, por parte das mulheres, de exploração de possibilidades literárias mais integradas com as demandas do mundo contemporâneo, em todas as dimensões da existência”, diz.

Nunca é demais lembrar que somente em 1993 é que a Academia Brasileira de Letras (ABL) aceitou a escritora Rachel de Queiroz, que se tornaria a primeira mulher a ingressar no “no ilustre panteão literário brasileiro”. No início dos anos 1980 a romancista Diná Silveira de Queirós também havia tentado entrar para o rol dos imortais, mas teve na ocasião sua inscrição indeferida pelo então presidente da Academia, Austregésilo de Athayde, sob a alegação de que as cadeiras da instituição só poderiam ser ocupadas por escritores do sexo masculino. Tempos depois Diná se tornaria a segunda mulher a ocupar uma cadeira na ABL.

Um dos estudos mais importantes sobre o tema foi desenvolvida por Regina Dalcastagnè, que é professora titular de literatura brasileira da Universidade de Brasília (UnB). Ela pesquisou 258 livros de três grandes editoras nacionais (Record, Companhia das letras e Rocco) publicados entre os anos de 1990 e 2004 e descobriu que os homens foram naquele período quase três quartos dos autores publicados (72,7%). “Cerca de 70 anos após Virginia Woolf publicar sua célebre análise das dificuldades que uma mulher enfrenta para escrever, a condição feminina evoluiu de muitas maneiras, mas a literatura – ou, ao menos, o romance – continua a ser uma atividade predominantemente masculina”, disse Dalcastagnè.

A resistência

Depois da aula de um curso em que foi discutida a literatura e a emancipação feminina, Debora do Nascimento, uma jovem bibliotecária e editora, chegou em casa com um grande incômodo, e “entre pensar, escrever e tentar entender”, foi olhar uma lista de publicações que havia lido (o hábito de anotar as publicações lidas fora adquirida aos 11 anos por conselho de uma tia) e descobriu que apesar das suas primeiras referências serem, entre outras, Agatha Christie, tinha lido mais de dois terços da lista só de homens.

Foi então que ela percebeu que se não houver um esforço consciente, “ao menos nesse momento de desequilíbrio, para começar a equilibrar essas contas”, as listas de mais publicados, de mais vendidos e de mais citados, nunca será possível balancear essa conta e os livros escritos por mulheres não vão entrar nessas listas, “não por não terem qualidade literária”, diz Debora, “mas simplesmente porque quem escolhe, escolhe a si mesmo e não entende o que ninguém diferente dele escreve”.

A partir desse momento a bibliotecária se impôs uma meta: ler apenas livros literários escritos por mulheres durante 30 meses. A ideia, explica ela, não era excluir completamente a leitura de autores homens, mas apenas equilibrar a conta do que comprava, do que lia e do que percebia. Embora ache a questão quantitativa menos importante, nesses 30 meses, que acabaram recentemente, ela conseguiu ler 64 publicações, sem contar os acadêmicos ou teóricos, de escritoras como Bell Hooks, Djamila Ribeiro e Joice Berth. Algumas dessas leituras se converteram em resenhas para a Biblioo.

“Quando a gente (sociedade/cidadãos/consumidores/leitores) entra numa livraria, em todas as prateleiras, em todas as estantes, em todos os espaços a gente vê uma grande maioria de escritores homens, em geral brancos e héteros, e a gente sequer estranha. O mesmo acontece em bibliotecas. É indiscutível o tamanho da produção de escritores homens e isso é uma coisa que em geral passa despercebido se você não estiver discutindo o assunto”, diz ela que despertou para o tema após debater o tema em um curso.

Para comprovar a diversidade e qualidade da escrita feminina do século XIX, um grande grupo de pesquisadoras e pesquisadores, a maioria da área acadêmica, vem desenvolvendo importantes estudos no sentido de resgatar essas escritoras e de trazê-las para o cenário da literatura nacional, em um movimento que já foi classificado como de uma verdadeira arqueologia literária por explorar acervos raros de bibliográficos de bibliotecas públicas e coleções privadas, explica Anselmo Peres Alós, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Mas apesar da crescente afirmação e reconhecimento da literatura feminina no Brasil, ainda há muito trabalho a ser feito nesse sentido.

A Biblioteca da Câmara dos Deputados, por exemplo, publicou recentemente uma lista com 100 livros de escritoras brasileiras bastante ilustrativo da diversidade nacional. Segundo o bibliotecário Raphael Cavalcante, que foi um dos responsáveis pela seleção, a ideia inicial era divulgar uma lista de 100 livros brasileiros, selecionando uma obra relevante por ano, no período de 1920 a 2019. Só que para o seu espanto e dos demais membros da equipe, foram encontramos pouquíssimas mulheres nas décadas iniciais. “Basicamente, os nomes de autoras como Rachel de Queiroz, Cecília Meireles e Clarice Lispector se repetiam a exaustão. Mas sempre poucas. À medida que os anos foram avançando, mais ou menos nas décadas de 80 e 90, os títulos escritos por mulheres foram aparecendo. Já no século XXI, houve uma profusão. No entanto, tivemos um número bem baixo de autoria feminina em toda a lista. Cerca de 20%”, explica Cavalcante.

“Como nos baseamos no cânone para selecionar as obras, passamos a nos questionar sobre o baixo número de autoras encontradas e legitimadas por este mesmo cânone. Entendemos que a presença feminina na literatura brasileira, do século XIX à primeira metade do século XX, foi de fato menor que a masculina, até por uma questão de privilégio do homem em acessar com muito mais facilidade à educação formal e, consequentemente, o meio literário. Falamos de uma sociedade extremamente patriarcal que também tratou de apagar pioneiras que furaram a barreira do gênero como Maria Firmina dos Reis e Julia Almeida Lopes”, diz o bibliotecário.

Julia Almeida Lopes, a propósito, apesar de ser uma das idealizadoras da Academia Brasileira de Letras (ABL), foi proibida de integrar a instituição que se imaginava masculina tal qual a academia francesa, que lhe serviu de modelo. Para Cavalcante, uma série de barreiras históricas, que subjugaram a capacidade feminina e a disseminação de suas obras, acabaram por garantir que um número considerável de mulheres ficasse de fora dessas listas canônicas. Ele acredita que esse cenário vem mudando, embora reconheça que ainda há muito a ser feito na quebra de preconceitos, pontuando que a iniciativa da Biblioteca da Câmara de selecionar 100 títulos escritos por mulheres é uma forma de contribuir para que cada vez mais as escritoras brasileiras sejam lidas.

A lista da Biblioteca, explica o bibliotecário, considerou também a diversidade, listando autoras negras, que além de serem historicamente discriminadas pelo sexo, também eram (e ainda são) discriminadas em função da cor da pele. “Recentemente, tivemos o resgate de dois nomes importantes: Maria Firmina dos Reis, considerada a primeira escritora negra publicada, autora do romance ‘Úrsula’, de 1854, publicado nos dois últimos anos por diversas editoras, incluindo a Edições Câmara; e também Carolina Maria de Jesus, que fora superexposta com o lançamento de seu diário ‘Quarto de despejo’, em 1960, e depois esquecida. Hoje se fala bastante em Carolina graças ao esforço do movimento negro e da força da escrita dela”, diz o bibliotecário, para quem não dá para relativizar a ausência das escritoras negras na literatura nacional.

Além de Maria Firmina dos Reis e Carolina Maria de Jesus, o levantamento feito pela Biblioteca traz várias outras autoras, como Miriam Alves, com o recente “Mareia” (Malê, 2019); Cristiane Sobral com o seu livro de poemas “Não vou mais lavar os pratos” (Athalaia, 2010); e Eliana Alves Cruz, com “Água de barrela” (Malê, 2018), livros que tratam da negritude em diversas nuances. “Há ainda um outro nome que gostaria de destacar. Trata-se de Ruth Guimarães, autora falecida em 2014. Em 1949, Ruth ganhou projeção nacional com o lançamento de ‘Água funda’, romance sobre o Brasil rural. A obra, relançada pela Editora 34, conta com prefácio do lendário crítico Antônio Cândido. Deveria ser muito mais conhecida do que é atualmente”, defende Cavalcante.

“Acredito que as mulheres têm dominado a cena literária. E isto é muito bom. É uma espécie de reparação histórica. Temos escritoras do naipe de Maria Valéria Rezende, Elvira Vingna, Conceição Evaristo, sendo lidas e com obras de extrema qualidade. Lembro inclusive da candidatura, melhor dizendo, da anticandidatura de Conceição Evaristo a uma vaga na ABL. Conceição não foi nomeada, sabíamos que não seria, mas não lembro de algum fato recente relacionado à ABL que tenha gerado tantas discussões e paixões. E Conceição Evaristo, uma mulher negra, foi a protagonista. Isto é muito significativo. As mulheres também se reunindo em grupos e coletivos a fim de mostrarem a força de sua literatura. Aqui em Brasília, temos o Maria Cobogó, um coletivo que reúne 7 escritoras de diversos gêneros, todas já publicadas. Já foram convidadas do Encontro com Autor/ Autora [Evento também realizado pela Biblioteca da Câmara]. E ainda há toda uma nova leva de jovens escritoras fazendo barulho como as poetas daqui do DF Meimei Bastos, Barbara Esmenia e Tatiana Nascimento dos Santos”, se orgulha.

A pesquisa de Regina Dalcastagnè, que citamos no início dessa reportagem, já mostrava uma gritante homogeneidade racial nas publicações editadas entre 1990 e 2004 pelas três editoras pesquisadas (Record, Companhia das letras e Rocco). Naquele período, 93,9% dos autores estudados eram brancos, sendo que 3,6% não tiveram a cor identificada e os “não-brancos”, como categoria coletiva, ficaram em meros 2,4%. Ou seja, a categoria de autores negros sequer aparecia, o que parece demonstrar um fosso profundo entre autores brancos e negros.

Mercado editorial

No campo editorial, a Editora Malê tem se destacado por ter desde sua fundação, em 2015, optado por priorizar a publicação de escritoras negras brasileiras, seguido de escritores negros brasileiros, escritores e escritoras negros africanos e escritores LGBTQ+. Dos 50 livros publicados pela Editora desde a sua fundação, 39 são de autoria de escritoras, sendo 38 de mulheres negras. No catálogo da Malê se encontram nomes conhecidos como Conceição Evaristo e Elisa Lucinda, que publicou recentemente por lá o “Livro do Avesso, os pensamentos de Edite”.

Vagner Amaro, que é bibliotecário e editor da Malê, explica que embora as prioridades de publicação da sua Editora sejam estes grupos minoritários, ela também pode publicar escritores e escritoras branco(a)s independentemente de fazerem parte de alguma destes grupos sociais. É o caso do moçambicano Mia Couto, que está numa coletânea que reúne contos de escritores e de escritoras do Brasil e de Moçambique. “Investimos nas escritoras porque o campo literário brasileiro ainda privilegia os textos escrito por homens, porque o mercado editorial ainda valoriza mais os textos escrito por homens”, explica Vagner.

Para ele, essa valorização dos escritores em detrimento das escritoras é o resultado de uma estrutura patriarcal que é mantida até hoje na sociedade brasileira. A consequência, segundo ele, é que literatura e os leitores perdem muito com essa desigualdade, fazendo com que o repertório literário brasileiro fique contaminado por uma questão que é extraliterária. “O mesmo ocorre, se especificarmos para a literatura escrita por mulheres negras, se o racismo estrutural afeta todas as possibilidades de evolução econômica, social e intelectual dessas mulheres, se elas aparecem na base da pirâmide social, também facilmente se conclui que elas terão mais dificuldades de publicar seus textos”, diz.

“Se o machismo e o racismo criam estas barreiras, na Malê nossa luta antirracista e antimachista é por quebrá-las.  Fazer com que esta literatura, que cada vez mais amplia o interesse dos leitores, tenha as mesmas oportunidades de entrarem no campo literário, no mercado editorial, nas cenas literárias, nos espaços mais privilegiados de divulgação, rasurarem o cânone e modificarem este quadro de desigualdade vergonhoso na literatura brasileira  e até, quem sabe, inspirar mudanças na sociedade. Acreditamos que a literatura democratiza e precisa ser democratizada. Nosso perfil editorial parte de uma posição que é política (luta por equidade) e estética (publicamos textos em que a qualidade literária é uma prioridade). Acredito que de 2015 (quando lancei a Malê) até hoje, aconteceram boas mudanças,  principalmente em relação a visibilidade das escritoras negras, sinto alegria e orgulho por fazer parte desse movimento”, garante.

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