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Nos últimos anos, o público leitor, espectador e consumidor de “literatura noturna” tem mergulhado em piscinas de águas rasas e bocejantes no que se refere à figura do vampiro. Trabalhos como a trilogia “Crepúsculo” ou a série televisiva “The Vampire Diaries” (Diários de um Vampiro) estão aí para romantizar e humanizar as criaturas da noite. A ideia não deveria ser necessariamente ruim, mas está longe de representar o vampiro em toda a sua magnitude, revelada pelas tradições seculares do leste europeu que tornaram sua existência um clássico. Em “Contos clássicos de vampiro” (tradução de Marta Chiarelli, 2010, págs. 266), a editora Hedra brinda todos os fãs do gênero com uma coletânea que abrange um século de narrativas sobre os sugadores de sangue.

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Foto: Divulgação

A obra é sensacional por vários motivos; um deles está inteiramente relacionado à introdução escrita por Alexander Meireles da Silva, doutor em Literatura Comparada pela UFRJ e especialista em literatura fantástica. O material é imperdível: de forma completa, Meireles discorre sobre a origem do nome vampiro, suas várias denominações e como a cultura de diferentes povos no decorrer dos séculos ajudou a moldar a lenda dos sanguinários mortos-vivos. O pesquisador explica como os rituais fúnebres e o próprio simbolismo do sangue, associados à multiplicidade étnica, religiosa e cultural dos povos eslavos, ajudaram a fortalecer mitologias e recriar histórias orais. Para o homem de séculos passados, a ligação com o universo sobrenatural era algo tão próximo e concreto como a sobrevivência no mundo físico. Portanto, os mortos e os vivos deveriam permanecer em suas respectivas dimensões.

Um dos procedimentos de origem pagã adotados para que o morto fizesse uma passagem tranquila até o além estava relacionado aos gatos. Culturalmente associados ao sobrenatural (lembre-se das bruxas, feiticeiras e dos felinos que perambulam por cemitérios), esses animais deveriam ser expulsos de qualquer casa em que estivesse sendo realizado um velório, pois, se piruetassem em cima do corpo, o morto seria condenado a vagar sem descanso pela Terra. Nem mesmo o ciclo menstrual feminino escapou das “regras para manter um cadáver defunto”: associada à impureza, a mulher menstruada não poderia tocar o falecido. Outra crença antiga faz referência a espelhos e reflexos de água, que deveriam ser prontamente cobertos para não capturarem a alma do morto. A pesquisa de Alexander Meireles é ampla e explana também o vampiro dentro do universo literário. Para quem acha que Drácula, obra clássica de Bram Stoker, é o começo de tudo, a introdução do livro aponta novos autores e obras – muitas vezes, desconhecidos do grande público.

Os contos pertencem a ‘cometas’ como Lord Byron (Trecho de um romance), Bram Stoker (O Hóspede de Drácula, conto que foi retirado pelos editores de seu famoso livro devido a sua extensão), Francis Marion Crawford (Porque o sangue é vida, um dos melhores escritos do gênero, sem dúvidas), Théophile Gautier (A morta amorosa, um conto brilhante que associa a figura feminina vampira à luxúria, criando a atmosfera de ‘femme fatale’), F.G. Loring (autor que eu desconhecia antes de ler A tumba de Sarah, narrativa que também faz da vampira uma defunta fatal e aristocrática) e M. R. James (Um episódio da história da catedral, em que impera o suspense até o desfecho final). Por meio da coletânea, conheci o trabalho do anônimo John Polidori (médico particular de Byron e participante da roda literária tenebrosa que reuniu Byron, Shelley, Mary Godwin – futura Mary Shelley – e Claire Clairmont, irmã de Mary), autor de O Vampiro.

O apêndice do livro prioriza ainda mais as origens da figura vampírica na literatura e nos registros antigos; nele, é possível ler Vida de Apolônio de Tiana, atribuído a Filóstrato, um dos relatos da Antiguidade mais célebres no que diz respeito às criaturas bebedoras de sangue. A obra influenciou o poema “The Lamia”, de John Keats. Também é possível ler o poema “O Vampiro”, escrito por Heinrich August Ossenfelder e creditado como o primeiro poema vampiresco da literatura alemã; “Lenore”, poema de Gottfried August Bürger; “A noiva de Corinto”, do conhecido inspirador de ‘depressões’ Johann Wolfgang von Goethe e o erótico “Christabel”, de Samuel Taylor Coleridge.

Os contos foram bem selecionados e, sem a menor dúvida, apresentam muitos autores e obras, anteriormente desconhecidos, ao público. A única falta que senti foi de “Carmilla”, novela de Sheridan Le Fanu, uma genuína ode à vampira que seduz, ama e é livre das amarras convencionais. Para os devotos do estilo, a leitura é uma viagem completa, com direito à passagem de ida e guia turístico. A volta fica por sua conta e risco, pois “os mortos viajam depressa”.

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