0
Compartilhamentos
Redefinição de Impressão Google+

Parafraseando Fanon, venho lhes dizer que a explosão não vai acontecer hoje. Ainda é muito cedo… ou tarde demais. Não venho armado de verdades decisivas. Minha consciência não é dotada de fulgurâncias essenciais. Entretanto, com toda a serenidade, penso que é bom que certas coisas sejam ditas. Essas coisas, vou cantá-las, não gritá-las. Pois há muito tempo que o grito não faz mais parte de minha vida.

Cansado de tanto gritar e não ser ouvidos, buscamos outras formas de chamar a atenção para a importância da discussão do debate racial e dos reflexos do racismo nas vidas das pessoas na sociedade. Uma das formas encontrada para propor o debate foi a música. Autoras e autores, interpretes e musicistas negras e negros surgiram e surgem aos montes, e muitos desses fazem questão de, na sua arte, trazerem o elemento político da discussão racial. E assim como a música tem o poder de aproximar as pretas e os pretos do mundo, infelizmente há uma outra experiência que, para nós, é comum em qualquer lugar do globo: o racismo.

Como disse Steve Biko, “o racismo não implica apenas exclusão de uma raça por outra – ele sempre pressupõe que a exclusão se faz para fins de dominação”. Se você entende as palavras de Biko, compreende, por exemplo, que é impossível pensar em racismo reverso. Mas Biko não nos ajuda só a compreender essa obviedade, também nos alerta para a importância de atacar o problema na sua raiz, “racismo e capitalismo são faces da mesma moeda”, ou, como diz Rosane Borges, “Racismo é um dínamo do capitalismo”

Segundo ela[1], “o racismo é parte integrante de todas as formas de exploração. Em sendo uma delas, o capitalismo estabelece e depende de hierarquias raciais para aprofundar a expropriação da qual se beneficia. O filósofo francês Gilles Deleuze afirma que o conceito de raça faz fermentar o delírio. A raça é a causa de devastações físicas inauditas e incalculáveis, crimes e carnificinas.  O motivo de tanta danação, nos ensina a história, está em formas de subjugação e dominação”

Dentro desse contexto de compreensão de como se estrutura o racismo e sabendo que a música pode ser usada como uma ferramenta de combate a ele, criei uma playlist (clique aqui para acessar no Spotify ou aqui para acessar no Deezer)para nos guiar enquanto tento apresentar algumas questões sobre o debate racial. A playlist foi criada a partir do meu gosto musical, o que acaba a situando em um tempo e um local, e talvez traga até uma certa subjetividade. A partir dessa localização vou tentar lhes apresentar uma história. Portanto, peço que as músicas sejam ouvidas na sequência, espero que faça sentido na cabeça de vocês, assim como faz na minha. Ao todo temos 105 minutos de música, e nesse tempo em que você ouve essas músicas, no Brasil, quatro jovens negros serão mortos.[2]

Indo para nossa história guiada por uma trilha sonora de 23 músicas, início com o balanço de Cassiano, primeiro porque Cassiano é música preta na veia, depois porque essa música me remete a travessia do Atlântico, o balanço das ondas que produziram o Atlântico Negro, “Não, não pode ser não é possível de você estar assim…” Fico pensando o que se passava nos pensamentos dos que foram arrancados de suas terras, pelo que a história nos conta, estavam todos muito zangados, não aceitavam estar alí, tanto que alguns se sujeitaram à morte se lançando ao mar para se libertar. E os que desembarcaram, desceram com a certeza de lutar sempre por uma outra história.

É nessa trilha da luta que vamos para a próxima música, Zumbi de Jorge Ben Jor. Essa música mostra que desde o primeiro dia que os negros desembarcaram por aqui não houve um dia de paz para os brancos, os negros nunca aceitaram a escravidão, foi tanta resistência que o Quilombo de Palmares do líder Zumbi virou o terror da branquitude e inspirou muitos outros quilombos.

Os nossos passos vêm de longe, e foram graças aos passos dados anteriormente que foi possível eu estar escrevendo esse texto, e para seguir nossa história agora vamos no flow de Mandume de Emicida. Essa música traz um tributo a força feminina na voz da rapper Drika Barbosa, e um ode ao negrume brasileiro nas vozes de Amiri, Rico Dalasam, Muzzike, Raphão Alaafin. Seguindo o flow da história, vamos de Manicongo, o matador de senhor de engenho, Rincon Sapiência é Negro Fujão, mostra que nunca ganhamos nada, tivemos sempre que correr atrás de tudo.

Assim, a gente cai na Trilha Sonora do Gueto, para falar dos nego fujão da contemporaneidade que, assim como os antepassados continuam esquecidos e excluídos pelo Estado, e assim para não morrer, tiveram que buscar as mais diferentes formas de sobreviver, aí chegamos a 3° opção, uma das estratégias de sobrevivência:

E a 3º opção
Era eu engatilhar a quadrada na cabeça
E eu mesmo me matar
Só que deus tava presente
Acredite eu
Não me engano
Em fração de 2 segundo
Eu bolei aquele plano
“Ai chara é o seguinte
Eu só vo me entrega
Quando aquele sem futuro
Do Datena me filma
To ligado que pu seis
Eu nun valo um real
Só que seis invadi
O refém vai passa mal
Ele tá todo borrado ta mijado ta com medo
Ta pagando até com juros
O racismo e o preconceito

Sabendo que o povo preto nunca ia aceitar ser explorado, os B(r)ancos tiveram que investir em segurança, para isso foram desenvolvendo tecnologias de mortes mais eficientes, La Bala de Calle 13 demonstra justamente como o capital se apropriou do discurso do negro perigoso para justificar seus ganhos através das balas que levam vidas.

Seria inaccesible el que alguien te mate
Si cada bala costara lo que cuesta un yate
Tendrías que ahorrar todo tu salario
Para ser un mercenario, habría que ser millonario
Pero no es así, se mata por montones
Las balas son igual de baratas que los condones
Hay poca educación, hay muchos cartuchos
Cuando se lee poco, se dispara mucho

E então se você não for para o caixão, você vai para o camburão e, como diz o Rappa, “Todo Camburão tem um pouco de navio negreiro”, uma vez lá dentro você sabe que terá que lutar, pois seu destino é o inferno. E para sobreviver no inferno, não é fácil, como diz o Racionais no Diário de um detento, no país das calças beges o Diabo é só mais um comendo rango azedo e com pneumonia.

Mesmo com todas essas dificuldades, é bom lembrar que os nego fujão também estão em outros corres, cada um se vira como pode. Embora as pessoas pretas sejam esquecidas o tempo todo, quem faz questão de nos desprezar esquece que nós viramos expert em sobreviver, aí é como diz o mestre do Canão, o grande Sabotage, na música Cabeça de Nego, que foi regravada pela grandiosa Karol Konca:

Nego não paga veneno, pode acreditar
Se você já sabe há um bom tempo
O nego para um bom tempo
Seja África, Brasil, brasileiro
Maracutaia em toda parte, vejo no governo
Tem ACM, Lalau pra deixar tormento
Tem muito tempo, o pobre pagando veneno
Mesa branca, aruanda, que canta com fama
Desmanda a mensagem, Canão, êee

Sem parar ele se vira, o Negro Drama que sabe os corres que tem que fazer para não ser mais um preto fudido, o negro drama deixa de ser carne e agora é a própria navalha, navalha essa que corta os fios impostos para dificultar sua vida. Nessas de se virar, ele está aprendendo e tentando inverter a mesa, e quando menos esperam ele tá entrando pelo rádio, tomando e ninguém nem viu, mais não ficou só no rádio não, o filho de uma mãe solteira, o promissor vagabundo toma de assalto a universidade e não aceita kit de esgoto a céu aberto de parede e madeirite. O negro drama sai do gueto, mas o gueto não sai dele, aí ele volta sempre de cabeça erguida para suas raízes, vai no corre ajudar a organizar aquele cursinho popular e estimular pretas e pretos a acreditarem que não só podem como devem ir para onde e como quiserem.

Assim vamos caminhando e dizendo que a “carne mais barata do mercado não tá mais de graça”, e o que “antes não valia nada agora vale uma tonelada”. Elza Soares entoa esse canto alertando que quem sempre lucrou com nossas mortes vão ter que aturar nosso enfretamento. E aí, pensando nesse enfrentamento aos endinheirados é que vamos para a próxima música, Lucro do Baiana System, não aguentamos mais os brancos ganhando em cima do nosso trabalho, é fácil comer rapadura na mamadeira, né? Aí depois é só falar em meritocracia.

Na toada de insatisfação vamos parar nos batuques que abalam as estruturas, Que Bloco é esse do Ilê Aiyê sai à rua para mostrar o mundo negro, sempre lembrando que quem quiser chegar pode chegar, mas tem que tá no corre de verdade, “porque quem dá luz a cego e bengala branca é Santa Luzia”.

Aí quem encostar já recebeu essas ideias, mas pega mais essa aqui da Bia Ferreira, Cota não é esmola, Bia dá aquela ideia mostrando que pretas e pretos precisam de reparação histórica e não de esmola, que os corres para quem começa uma corrida com uma quilometragem para trás é sempre mais difícil, não tem mérito em uma disputa vencida onde os competidores partem de lugares diferentes.

Com uma reparação mínima, que ainda está longe de ser a solução, até porque não ataca a estrutura do criador do racismo (o Capitalismo), a Refavela de Gil vai se compondo, tem uma cara nova, mas as coisas não mudaram muito, o bagulho ainda tá loco, o braço armado dos B(r)ancos segue ceifando vidas pretas e as descartando em alguma Boca de Lobo, “e agora entre meu ser e o ser alheio a linha de fronteira se rompeu”. “Boca de lobo” é a música do Criolo que começa com a frase do poeta Wally Salomão. Tanto a frase como a música demonstram a constituição de uma linha que a elite cria para cavar um buraco para jogar os mais desvalidos e assim ganhar mais dinheiro.

Estamos ligados que infelizmente é sempre assim. Qualquer coisa feita para melhorar vidas pretas sempre vai ter um monte de rato para roer as cordas que amparam essas melhoras, sempre vai aparecer alguma retroescavadeira para tentar nos jogar na lama, mas é, como diz Tassia Reis em Da La/Afrontamento, ninguém é melhor que ninguém, e da lama saímos, das ruas viemos, e aprendemos a enfrentar tudo isso, somos afrontosos, como ela bem diz: “sou senhora de mim”

Estamos traçando nossa própria história, mas não caminhamos nunca sozinhos, o bonde tá formado e a Coisa tá preta

Se eu te falar que a coisa tá preta
A coisa ta boa, pode acreditar
Seu preconceito vai arrumar treta
Sai dessa garoa que é pra não molhar

O bagulho escureceu, e como bem disse Rincon Sapiência: “os pretos é chave, abram-se os portões”, com os portões abertos lá vamos nós ouvindo o Rito de passá da MC Tha, com ela vamos cantar e dançar para saudar o tempo que já foi e o tempo que virá, abram-se os caminhos! Com os caminhos abertos podemos viajar novamente, podemos atravessar um oceano, só que agora por vontade própria e para dialogar com a música do Buraka Som Sistema, banda angolana que ajudou a difundir o ritmo kuduro para o mundo, e como diz Ponga na música Kalemba “eu faço o que quero, canto para Angola e para o mundo inteiro”.

Ainda há muita luta, há muita coisa para mudar, mas nós negras e negros temos cada vez mais nossas mentes livres, e é na toada da libertação de nossas mentes que chegamos a música Libres que, nos versos de Ibeye e Emicida, diz: “se o gueto acorda o resto que se foda”.

Uma vez acordados podemos ir atrás da nossa história, resgatar o que nos compõem enquanto individuo inserido numa sociedade e em um grupo, podemos buscar nossa identidade, e aí, como bem diz nosso griôt Jorge Aragão, temos que tomar cuidado com esse modelo de vida individualista estimulado pelo capital, o elevador é uma metáfora para as armadilhas do capitalismo que justificam desigualdades sociais, o preto que vai no bojo desse discurso esquecendo sua negritude faz um desserviço aos seus irmãos e irmãs de cor.

Elevador é quase um templo
Exemplo pra minar teu sono
Sai desse compromisso
Não vai no de serviço
Se o social tem dono, não vai

Quem cede a vez não quer vitória
Somos herança da memória
Temos a cor da noite
Filhos de todo açoite
Fato real de nossa história

Se, por algum motivo, caiu nessa armadilha, essa playlist pode te ajudar a lembrar de onde viemos, como viemos e para onde queremos ir. Para me ajudar a finalizar essa árdua, porém prazerosa missão, deixo as palavras do incrível Wilson Simonal interpretando Tributo a Martin Luter King, música onde ele nos diz que há diversas formas de estar na trincheira, não importa como, o importante é estarmos na batalha e do lado certo da história, e assim nos convida:

Sim, sou um negro de cor
Meu irmão de minha cor
O que te peço é luta sim, luta mais
Que a luta está no fim

Cada negro que for
Mais um negro virá
Para lutar
Com sangue ou não
Com uma canção
Também se luta irmão
Ouvir minha voz
Oh Yes!
Lutar por nós

Lista das Músicas 

  1. Onda – Cassiano
  2. Zumbi – Jorge Ben Jor
  3. Mandume – Emicida
  4. Crime Bárbaro – Rincon Sapiência
  5. 3° opção – Trilha Sonora do Gueto
  6. La Bala – Calle 13
  7. Todo camburão tem um pouco de navio negreiro – O Rappa
  8. Diário de um detento – Racionais MC’s
  9. Cabeça de nego – Sabotage
  10. Negro Drama – Racionais MC’s
  11. Não tá mais de Graça – Elza Soares
  12. Lucro – BainaSystem
  13. Que bloco é esse – Ilê Aiyê
  14. Cota não é esmola – Bia Ferreira
  15. Refavela – Gilberto Gil
  16. Boca de Lobo – Criolo
  17. Da lama/Afrontamento – Tássia Reis
  18. A coisa tá preta – Rincon Sapiência
  19. Rito de Passá – Mc Tha
  20. Kalemba (wegue wegue) – Buraka Som Sistema
  21. Libre – Ibeyi e Emicida
  22. Identidade – Jorge Aragão
  23. Tributo a Martin Luter King – Wilson Simonal

[1] https://www.goethe.de/ins/br/pt/kul/fok/hum/21249390.html

[2] O cálculo da dor: 105/23=4

*Esse artigo é o resultado de uma parceria entre a Biblioo e o Podcast Biblioteco, uma produção da Liga Bibliotecária.

Cursos online de qualificação em Biblioteconomia e Ciência da Informação. Acesse!

Comentários

Comentários

Postagem anterior

Live: Qual será de fato o destino da Casa de Rui Barbosa?

Próximo post

Câmara dos Deputados aprova PEC do novo Fundeb em 2º turno