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Para ler a obra de Godofredo de Oliveira Neto, como a de qualquer grande escritor, podemos imaginar certo número de possibilidades. Em A esquizofrenia do escritor, mais precisamente, para dar luz à jornada de trabalho escolhida, imaginei tornar visíveis diversas características dos romances do autor, mostrando o quanto a encenação narrativa como um todo pode estar a favor do principal argumento deste trabalho. Pretendeu-se, e se fez necessário, trazer à frente de combate (sem vencedores) diversas linhas de pesquisa para desvelar alguns aspectos da obra que confluem para a questão mestra de Menino oculto: a esquizofrenia do escritor.

Na obra em análise, a escrita mostra-se sempre por uma realidade ambígua: por um lado, estamos diante de um encontro com fundamentos históricos e sociais, não como um engajamento, mas no intuito de trazer a relação do homem com determinadas marcas psicológicas do mundo. Por outro lado, há um encontro do autor ficcional com o ato de narrar, que lhe traz o conflito da linguagem. Ele não pode transcrever os próprios pensamentos, menos ainda refazer a realidade tal qual ela foi. Sua escrita reflete sobre a Literatura. Nesse jogo, a multiplicidade de vozes parece ser a medida ideal para caracterizar o autor em conflito com o texto. O duelo entre escritor e leitor será constante, estamos diante da crise do narrador.

Para melhor desvendar o modo narrativo godofrediano e, principalmente, a escrita de Menino oculto, iniciei a análise desde Faina de Jurema (o primeiro romance do autor). O conceito de esquizofrenia, de forma ampla, pode ser emblemático da obra produzida por Godofredo – até a escrita deste trabalho – porque carrega três inquietações do romancista imprescindíveis, e que também estão em Menino Oculto: a ficção na realidade, o diálogo escritor-leitor e a autoria. A partir disso, inicialmente, foram apontados aspectos relevantes dentro de cada livro.

Estamos entendendo aqui o autor sob a ótica objetivada, segundo a qual Bakhtin afirma que se constrói uma contemplação artística capaz de dar conta de uma imagem individual sobre o autor no mundo ficcional por ele criado. Neste sentido, quando estamos falando de um fio condutor de toda a ficção godofrediana, almejamos revigorar a presença do escritor na obra – que será um dos principais pontos de articulação em Menino oculto, com o tema central sobre a autoria.

Quis-se evidenciar que o autor permanece capaz, mesmo que por muitas vozes, de levar o leitor aos fins que ele deseja. A estética da esquizofrenia do escritor na obra de Godofredo é entendida sob o aspecto da apropriação de fragmentos – como poderemos ver também em O bruxo do Contestado –, da tensão entre ficção e realidade (para Oliveira Neto, tudo é construção) e do dialogismo entre escritor e leitor, como podemos observar em Pedaço de Santo: “O criador divide a criação com ele mesmo mas a criatura, para existir, precisa do resto do grupo. Daí a esquizofrenia do artista, ser social.”.

Em Menino Oculto essa tipologia, que caracteriza todos os romances, ganha mais força. A autoria se torna o tema central. A barreira entre o falso e o verdadeiro também será rompida e a autoria aparece sob novos sentidos. Godofredo constrói uma história da contemporaneidade por meio de um texto que se configura por uma linguagem esquizofrênica.

A realidade contemporânea desnuda-se por uma estética do excesso de presente (aqui e agora). Não no sentido em que Beatriz Resende emprega em seu Contemporâneos, no qual ressalta uma ansiedade de apreensão da realidade trágica, mas no sentido que o próprio escritor ficcional Aimoré chama de narrativa de “eventos simultâneos”. Muitos chegaram a considerar essa narrativa – criada por Godofredo – como própria do fluxo de consciência: pela não linearidade e pela confusão espaço-temporal. Mas, como poderá ser visto em A esquizofrenia do escritor, tal conceito não pode ser aplicado.

No que diz respeito à relação escritor-leitor, analisei a função de três personagens-entrevistadores que atuam como leitores do discurso de Aimoré – formado em Belas Artes, falsário, professor de literatura e escritor ficcional, também, do romance que temos em mãos.

Assim sendo, cabe dizer que o estudo teve como objetivo mostrar a originalidade estética de Godofredo de Oliveira Neto, na escritura de Menino oculto, ao montar o cenário artístico brasileiro contemporâneo, diante dos impasses e polêmicas em torno da autoria. Mais ainda, a originalidade ao trazer a figura do leitor para dentro da narrativa como personagem em diálogo com o escritor, desvendando algumas de suas funções e tornando evidente o poder de manipulação do autor dentro da obra.

Esquizofrenia do escritor

Livro: A Esquizofrenia do Escritor

Autor: Carina Lessa

Editora: Batel

Ano da edição: 2011

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