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Quem trabalha em bibliotecas universitárias, como é o meu caso, está acostumado a receber usuários que estão pisando neste espaço pela primeira vez na vida no momento em que já deveriam estar bastante familiarizados com este recurso. Pior, os bibliotecários estão acostumados a receber pessoas que só estão indo ali na biblioteca universitária ao final do seu curso para buscar o “nada consta”.

Esta falta de familiaridade e entrosamento do estudante/pesquisador com a biblioteca universitária pode se dar por muitos motivos como, por exemplo, o espaço que frequenta ter estrutura precária (falta de mesas e cadeiras confortáveis, ausência de internet e/ou ambiente sem climatização etc.), acervos desatualizados, atendimento ruim etc.

Mas eu prefiro acreditar que estas pessoas não frequentam estas bibliotecas por uma questão cultural. Como um estudante universitário e/ou um pesquisador irá valorizar este tipo de equipamento se ele não teve oportunidade de conhecê-lo nos momentos mais importantes da juventude? Um estudante universitário que não frequenta a biblioteca da sua instituição certamente não teve a oportunidade de frequentar uma biblioteca pública e/ou escolar.

Se muitos dos municípios brasileiros não dispõe de bibliotecas públicas em pleno século XIX, o que dirá das bibliotecas escolares, estas ainda mais marginalizadas? Para quem trabalha em biblioteca universitária é notória a falta de intimidade de muitos de seus usuários com os produtos e serviços oferecidos. Alguns sequer sabem que existe uma prática sedimentada em todo o mundo que é de guardar suas mochilas logo na entrada.

Estas constatações iniciais construídas à partir do exemplo das bibliotecas universitárias são nada mais nada menos para constatar como no Brasil a cultura do uso das bibliotecas parece nunca ter se realizado plenamente. A consequência disso é que muitas pessoas passam a acreditar que os jovens não valorizam a biblioteca enquanto equipamento cultural porque estas estarias ultrapassadas.

Para argumentar contra está falsa percepção sempre penso o seguinte: se algumas gerações de brasileiros tivessem tido a oportunidade de usar de forma plena as bibliotecas e em um determinado momento concluíssem que estas não eram mais relevantes, seria plenamente compreensível. Mais como podemos pensar e/ou dizer que as bibliotecas não são mais importantes se sequer tivemos oportunidade de usá-las plenamente?

O nível de defasagem de bibliotecas no país é histórico. Não é que nós tivemos períodos de bonança em relação a estes equipamentos e outros de defasagem. A falta de bibliotecas no Brasil sempre foi a regra depois de um momento incipiente em que os Jesuítas se dedicaram as construí-las, mas logo foram descontinuadas após a expulsão dos religiosos pela coroa portuguesa.

Rubens Borba de Moraes explica que em  1760 a biblioteca do colégio Santo Alexandre do Pará tinha mais de 2 mil volumes; a do colégio de Vigia, 1.010 volumes. Serafim Leite, padre que escreveu a História da Companhia de Jesus no Brasil, calcula em 12 mil os livros existentes no Maranhão e no Pará. O colégio do Rio de Janeiro tinha 5.434 volumes em meados do século XVIII. Mas a mais rica de todas estava em Salvador, biblioteca iniciada modestamente com as obras trazidas pelo padre Manuel da  Nóbrega, em 1549, que chegou a ter mais de 15 mil volumes.

Hoje existem estados no Brasil, como é o caso do Rio de Janeiro, em que existe um equipamento destes para milhares de pessoas (no estado do Rio existe 1 biblioteca para cada 110 mil pessoas). Isso demonstra que a cultura da não biblioteca continua plena, criando gerações e gerações de jovens sem intimidades com estes equipamentos, o que, apesar das dificuldades, pode ser revertido.

O que não se pode é acreditar é que a era das bibliotecas acabou, porque ela sequer começou por aqui. Talvez o que deva ser aventado são novos usos para estes espaços, seus produtos e serviços, conforme já vem acontecendo em outros países onde as bibliotecas são historicamente mais valorizadas.

Nesse momento em que as bibliotecas são ameaçadas de censura e os seus investimentos (financeiros e humanos) estão estagnados, é preciso apostar num movimento crescente de reivindicação e de defesa da sua importância. Defender investimentos nos livros, na leitura e nas bibliotecas como direitos humanos é premente e necessário. E esta não é (ou pelo menos não deveria ser) uma pauta apenas dos segmentos envolvidos, mas de toda a sociedade.

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