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A ciência da informação é uma dinâmica de reconhecimento da independência nacional, uma forma de luta pela garantia dos direitos humanos e um modo de multiplicar o repúdio ao racismo e todas as formas de discriminação. A afirmação é de Gustavo Silva Saldanha, coordenador do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (PPGCI/UFRJ), desenvolvido em associação entre o Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT) e a Escola de Comunicação (ECO) da mesma Universidade.

Nesta entrevista concedida à Biblioo um dia após aos atos de contestação aos cortes na educação que levaram milhares de pessoas às ruas do país, Saldanha explica que a ciência da informação é um projeto político de preservação de acesso ao conhecimento produzido por uma sociedade. “[A ciência da informação] é uma ferramenta teórica e um conjunto de operadores de mediação para um projeto de justiça social através da diversidade dos saberes, partindo das mais diferentes apropriações de técnicas, pela via da linguagem, para soluções em todos os ramos do pensamento”, defende.

Sobre o desprezo demonstrado pelo governo Bolsonaro em relação às ciências humanas, Saldanha acredita que não está no foco apenas o espectro das ciências humanas e sociais, mas também a capacidade de raciocinar, de discutir e de imaginar um mundo justo, democrático e em desenvolvimento. “Está ausente a compreensão social da física, da química, da biologia. Está em foco o ataque inconstitucional a nossa inviolável liberdade de pesquisa, de consciência e de crença”, garante Saldanha para quem o 15 de maio “foi um dos grandes passos necessários para a reflexão nacional sobre o projeto que está em curso”.

De que forma os cortes na educação anunciados recentemente pelo governo podem comprometer a pesquisa no Brasil? O PPGCI/IBICT-UFRJ chegou a ser atingido?

Os cortes impactam o desenvolvimento da pesquisa (logo, da economia) no país, seu avanço na solução de problemas nacionais, como o desemprego, e a luta pela emancipação do pensamento brasileiro no mundo, perante os demais investimentos internacionais em educação, cultura, ciência e tecnologia. O PPGCI/IBICT-UFRJ não foi atingido diretamente até o momento com os cortes recentes, mas estes já prejudicam muitos programas de pós-graduação e começarão a ter impacto profundo no fechamento das contas universitárias e dos institutos de pesquisa (em custeio e capital, nas bolsas e financiamentos de projetos).

O orçamento para a educação já vem sofrendo duros cortes ao longo da década. Mas é preciso lembrar que, no plano social, retirar o investimento em educação (ou seja, quando governos priorizam a educação como um dos focos de cortes, contingenciamentos) é atacar a esperança, a economia, a saúde. As pessoas estão adoecendo, a expectativa de transformação estacionada, a economia não avança. E não enxergar que a educação é a propulsora da mudança é algo absolutamente incoerente.

“A ciência da informação é um projeto político de preservação do e de acesso ao conhecimento produzido por uma sociedade.” (Gustavo Saldanha)

Bolsonaro e o seu ministro da educação também têm colocado em dúvida a produtividade e relevância das universidades públicas. No caso da ciência da informação, qual sua importância e impacto para sociedade brasileira?

Em sua análise do pensamento de Aristóteles, Ranganathan nos lembra que o filósofo grego identificava o escravo como aquele incapaz de deliberar. Ele estava proibido de viver a paideia, de construir-se no plano ético de sua cultura. Eis a impossibilidade da ciência da informação, como episteme, segundo Ranganathan, seguir mantras de sua autofundamentação antes da Modernidade, dada a exclusão formal do acesso ao conhecimento. O filósofo indiano apontava, pois, a condição central de nosso fazer: sua determinação política.

A ciência da informação é um projeto político de preservação do e de acesso ao conhecimento produzido por uma sociedade. É uma ferramenta teórica e um conjunto de operadores de mediação para um projeto de justiça social através da diversidade dos saberes, partindo das mais diferentes apropriações de técnicas, pela via da linguagem, para soluções em todos os ramos do pensamento, saúde, economia, engenharia, política, matemática, comunicação, física etc. Não existe ciência alguma sem a pesquisa, o desenvolvimento e a inovação em canais de memória e fluxo dos dados científicos. Eis o conhecimento da ciência da informação a serviço do conhecimento público.

O horizonte epistemológico da ciência da informação está ratificado formalmente em nossa Constituição de 1988, em artigos como o 23 (“V proporcionar os meios de acesso à cultura, à educação, à ciência, à tecnologia, à pesquisa e à inovação;”) e o 24 (“VII proteção ao patrimônio histórico, cultural, artístico, turístico e paisagístico”), e tantos outros. A ciência da informação responde pela possibilidade transformadora de uma dada população ter, democraticamente, o acesso livre ao conhecimento que ela própria produz e ao conhecimento produzido no mundo.

O governo federal, em mais de uma ocasião, demonstrou desprezo pelas ciências humanas e sociais. Como você encara essa postura?

A postura é um desprezo pelo pensamento. Não está no foco apenas o espectro das ciências humanas e sociais. Está em jogo a capacidade de raciocinar, de discutir e de imaginar um mundo justo, democrático e em desenvolvimento. Está ausente a compreensão social da física, da química, da biologia. Está em foco o ataque inconstitucional a nossa inviolável liberdade de pesquisa, de consciência e de crença.

Logo, o ataque é generalizado. É uma forma de cercear a autonomia do pensamento brasileiro em seu lugar no e para o mundo. Problematizar a questão apenas pela ponta frágil da retórica (os memes contra as ciências humanas e sociais) é não compreender o projeto em curso. Trata-se de um modelo neoliberal de destruição da inteligência brasileira (privatizações, sucateamento, construção do mito da ineficiência do Estado tendo a universidade pública como vilã).

Os estudantes e trabalhadores da educação deram o tom às manifestações que tomaram as ruas no último dia 15 de maio contra os cortes nas verbas da educação. Que avaliação você faz desse episódio?

A grande manifestação nacional do 15 de maio foi um dos pontos iniciais da luta. Entretanto ainda muito tímida diante do cenário geopolítico mundial e regional. Creio que os secundaristas, no momento, estão compreendendo muito mais a urgência do contexto do que as universidades e nossos trabalhadores em geral. Parece-nos, ao mesmo tempo, uma gramática plausível: trata-se de uma luta pelo futuro, pela existência de um futuro desenvolvimentista, com trabalho, formação continuada de qualidade e com uma sociedade menos desigual.

As greves universitárias foram fundamentais para o investimento em pesquisa no país. A ausência de mobilização ainda preocupa, diante da avalanche de recuos. De todo modo, o histórico dia 15 de maio, com suas aulas públicas e sua proposta de diálogo no mundo intolerante em marcha acelerada, foi um dos grandes passos necessários para a reflexão nacional sobre o projeto que está em curso.

No mesmo dia em que os estudantes e os trabalhadores da educação saiam às ruas, o governo publicava um decreto que obriga os reitores das universidades federais a submeterem à Secretaria de Governo da Presidência os nomes indicados para ocupar postos de pró-reitores, vice-reitores e outros cargos de gestão. Essa medida fere a autonomia universitária?

Em minha interpretação, fere, sim, claramente. Caso não ferisse, o decreto era desnecessário. Pensemos em nossa Constituição. Faz tempo tem-se discutido a tênue condição da democracia no Brasil. Estamos, de fato, em um cenário democrático? Os novos modelos de cerceamento do século 21 não estariam justamente se desenvolvendo via o uso dos próprios instrumentos democráticos para subverter a própria democracia?

A Universidade moderna é o espaço da liberdade. Sem ela, não existe conhecimento. É o espaço da contradição. Sem ela, não existe inovação. É o espaço da plenitude potencial da democracia. Sem ela, não existe futuro, apenas medo. Em meu olhar, o decreto n. 9.794, de 14 de maio de 2019, que institui o Sistema Integrado de Nomeações e Consultas (Sinc), representa um instrumento contra a liberdade, a inovação e a democracia, contra o convívio das ideias diferentes e o direito das escolhas populares.

Qual o papel da ciência da informação em todo esse contexto? É preciso ou mesmo possível alguma reação?

A ciência da informação, nesse contexto, é uma metodologia geral pelo direito de saber e pelo desenvolvimento do pluralismo político (razão de ser da democracia). Suas teorias, seus métodos e seus instrumentos de compartilhamento do conhecimento são uma forma mediada de resistência para as garantias democráticas.

Ao promover a ciência e os saberes para muito além dos laboratórios, a ciência da informação é uma dinâmica de reconhecimento da independência nacional, uma forma de luta pela garantia dos direitos humanos, um modo de multiplicar o repúdio ao racismo e a todas as formas de discriminação. A ciência da informação nos faz acreditar na inteligência de nossos povos; nos apresenta caminhos para aplicar essa inteligência para o desenvolvimento econômico e social do país.

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