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No dia 18 de novembro de 2015, concedi, como solicitado, à Revista Biblioo entrevista durante a Marcha das Mulheres Negras, em Brasília, e como foi minha primeira vez diante das câmeras, confesso que talvez tenha falhado, pois na hora pouco falei sobre a luta das mulheres negras e o importante papel da categoria bibliotecária na luta do reconhecimento do espaço da cultura negra e sua representatividade. E este texto tem como objetivo abordar aquilo que deveria ter sido dito durante o vídeo.

A primeira parte do texto dedico à categoria bibliotecária e a necessidade de respaldar o direito da comunidade negra pela Lei Federal 10.639/03, que torna obrigatório o ensino de História e cultura Afro-brasileira em instituições de ensino. Bem como a Lei Federal 7716/89 que define os crimes resultantes de crime racial, conhecida como a Lei Caó, nome do Deputado Federal autor desta lei, Carlos Alberto de Oliveira. Já na segunda parte apresento a necessidade e a importância da Primeira Marcha das Mulheres Negras, um relato de uma bibliotecária e breves levantamentos bibliográficos de pesquisadoras negras no eixo de gênero e etnia.

Nós bibliotecárias(os), somos agente de transformação cultural, intelectual e educacional. Quando temos isto intrínseco em nós, já somos representantes da categoria, aptos a desempenhar o papel de transformador social do espaço que ocupamos.

Hoje já conhecemos interessantes projetos que faz da Biblioteca um espaço, não só de disseminação de informação, mas também como agente de transformação social para os cidadãos brasileiros.  Temos inúmeros projetos bem sucedidos e executados, bem como: biblioteca comunitária e itinerantes, que tem como objetivo estar presente nas camadas sociais que demandam mais atenção por estarem distantes dos grandes centros de cidade, que por sua vez, possuem uma ou outra biblioteca pública, de livre acesso à todos.

O Brasil dispõe da lei 10.639/03, infelizmente não seguida à risca nas instituições de ensino, que determina: “[…]nos estabelecimentos de ensino fundamental e médio, oficiais e particulares, torna-se obrigatório o ensino sobre História e Cultura Afro-Brasileira”. Talvez poucos saibam, mas isso atende também o papel das bibliotecas enquanto fator social e também, é claro, deve estar incluída na política de Formação e desenvolvimento de coleção (FDC). Principalmente nas bibliotecas escolares e públicas, devem atender essa lei para que assista à população negra que não teve o direito de contar sua própria história, pois os colonizadores trataram de fazer, de forma equívoca e invisível.

Além da necessidade de conhecer sua história e do seu povo, se faz necessário que a história seja contada por você mesmo. É preciso atentar-se para as rodas de leitura, precisamos contar histórias negras para nossas crianças. Elas precisam conhecer seus heróis e heroínas, Zumbis e Dandaras. As crianças negras têm o direito de conhecer a história do seu povo, de seus ancestrais, e que isso seja transmitido também por seus iguais. Isto é uma questão de compromisso com a população negra que deve obter seu espaço de representatividade.

A cultura de contos para o público infanto-juvenil foi desenvolvida, e ainda é mantida, por protagonistas brancos/caucasianos, em sua maioria louras e louros com olhos claros, bem como suas peles brancas como a neve. O reconhecimento é necessário! Basta de princesas e príncipes brancos. Somos negras e também somos princesas e rainhas. Não somos gatas borralheiras. Precisamos nos reconhecer nas histórias e nas capas de livros. E nós bibliotecárias (os) temos que nos unir junto à representação de nossa categoria para reivindicar o direito, assistido por lei, para a população negra.

Por que mulheres negras precisam marchar?

A resistência da mulher negra é histórica, é ancestral. Nossas reivindicações diferem da luta das caucasianas. Quando surgiu o feminismo, nós, negras, não fazíamos parte das discussões, o feminismo surgiu como uma luta das mulheres caucasianas/branca. Enquanto as caucasianas queriam os mesmo lugares e direitos dos homens, nós negras lutávamos para soltar as amarras que prendiam nossos corpos. Lutávamos para ter o direito de não ser o “fetiche” do Senhôzinho, de não ter nossos corpos chicoteados, de não seremos separadas de nossos filhos

Nós mulheres negras sofremos duas vezes: por ser mulher e por ser negra. Um exemplo atual: somos as que mais morrem no Brasil, como demonstra a pesquisa do Mapa da Violência de 2015.

Um caso contado por uma companheira militante, estudante de direito na PUC-RIO: Léila Gonzaléz, militante e pesquisadora das relações de gênero e etnia, foi professora da Pontifica Universidade Católica do Rio de Janeiro. Lélia publicou artigos de importância para o movimento negro, principalmente para as mulheres, mas de acordo com a companheira, estudante de direito da PUC-Rio, apenas um dos livros, ou artigos de Lélia, podem ser encontrados no vasto acervo da rede de bibliotecas da PUC-Rio, bem como na Biblioteca Parque, localizada no centro do Rio de Janeiro. Ainda que o título, pesquisado pela usuária, estivesse no acervo, e não foi localizado por ela, a primeira coisa que indagamos, enquanto bibliotecários, é: Onde estava a(o) bibliotecária(o) para orientar a pesquisar da usuária? Outro apontamento, tão importante quanto o primeiro: Onde está o compromisso dos bibliotecários com a comunidade negra, já respaldado por lei? Onde está a representatividade e a efetivação da Lei Federal 10.639/03, bem como os títulos de importância para a pesquisa de mulheres negras brasileiras?

Importante também ressaltar que, eu, mesmo como bibliotecária, encontro dificuldades em encontrar títulos de grandes pesquisadores negros, em unidades de informação. Seria então o racismo institucional ou o desconhecimento das grandes obras e pesquisadoras(es) negras(os) por parte dos bibliotecários? Será mesmo que seu Estudo de Usuário e Comunidade está sendo satisfatório para seus usuários?

É preciso os bibliotecários respeitarem seus usuários, e a população negra, somos respaldados por Lei Federal número 7716/89, que torna racismo crime. Temos os mesmos direito que as brancas para ocuparem os lugares de trabalho. Lugar da mulher negra não é sendo doméstica, ou auxiliar de serviços-gerais. Lugar da mulher negra tem que ser onde ela quiser, na academia, nas bibliotecas, no Congresso, nas Assembleias Legislativas, ou em qualquer esfera de poder. A Mulher negra tem o direito de escolher o lugar que ocupará. Por isso a importância da Marcha Das Mulheres Negras.

A primeira Marcha das Mulheres Negras reuniu mais de 30 mil mulheres negras em Brasília, que clamavam pelo direito de permanecerem vivas, ter suas representatividades e seus direitos amparados pelo Estado, ou seja, pelo bem viver. Mulheres negras de todo o Brasil se reuniram por mais de um ano, em comitês impulsor, que foi criado por municípios de vários estados do Brasil, com o objetivo de reunir mulheres negras, somando suas forças para ecoarem sua voz. Como, explicou e apontou Rosália Lemos sobre o motivador da Marcha das Mulheres Negras em seu artigo intitulado, “Mulheres negras marcham em 2015 pelo bem viver”:

“Denúncias contra o racismo, o sexismo e o capitalismo foram potencializadas, assim como o debate sobre a ação política de mulheres negras, que passaram a ocupar as esferas públicas. Atualmente, tais denúncias vêm sendo amplificadas e confluem na proposta para a realização da Marcha das Mulheres Negras  2015 Contra o Racismo e a Violência e pelo Bem Viver, pautada por um conjunto de objetivos como promover a afirmação das mulheres negras e dar visibilidade às suas demandas políticas e lutas, com ênfase na história das desigualdades de gênero, raça e classe. Estas diversas formas de iniquidade perpetuam-se em seu cotidiano por estarem inseridas em sociedades que têm em comum as opressões do racismo, do sexismo e as desigualdades econômicas. ”

Eu como bibliotecária, e negra, (não! eu não sou morena!!!) quero que minhas iguais ocupem os lugares que merecerem. Eu quero que as irmãs negras tenham oportunidade na vida. Oportunidade de ter acompanhamento médico sem discriminação, oportunidade de educação com qualidade! Oportunidade de construir sua conscientização de luta e raça!

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5 Comentários

  1. Renan Wangler
    26 de novembro de 2015 a 11:17 — Responder

    Texto de suma importancia que me levou a uma reflexão, Existe uma biblioteca especializada em história afro-brasileira? Infelizmente desconheço. Conheço uma livraria na lapa, muito boa por sinal. Não seria interessante caso não exista montar uma biblioteca com essa temática, nos padrões de biblioteca comunitaria, vusando a comunidade negra. Fica uma idéia. Gostei especialmente de: “negra. Não sou morena” auto afirmação que só aumenta minha admiração por vc Floragen. Parabéns.

  2. 19 de janeiro de 2016 a 15:21 — Responder

    Parabéns pela reflexão inédita!!!!
    Beijos

  3. 19 de janeiro de 2016 a 15:22 — Responder

    Parabéns pela reflexão inédita!!!!

  4. Wander Filho Pavão
    2 de fevereiro de 2016 a 11:23 — Responder

    Olá Vanessa,

    Parabéns pelo texto, pela militância, pela exposição de um tema tão urgente e necessário. Estive na marcha das mulheres negras, sendo solidário e apoiando o movimento. Sou militante dos movimentos negros no Distrito Federal desde 1998, tenho um programa de rádio para juventude negra na Rádio Nacional há sete anos e já participei de vários coletivos e associações negras no DF. Tenho debatido o silêncio bibliotecário em relação a lei 10.639 há ano, entre outros temas, Fiquei muito feliz em ler suas palavras. Compartilharei o artigo a exaustão. Lhe convido a conhecer a Liga Bibliotecária no facebook, grupo com o objetivo de repensar nossas práticas e formação, como por exemplo, debater gênero, etnia, homofobia e outros temas urgentes. Grande abraço e muito axé!

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