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Um dos ambientes mais promissores e ao mesmo tempo polêmico para atuação da Biblioteconomia, enquanto disciplina de investigação técnico-científica e de prática profissional, são as chamadas bibliotecas comunitárias/populares. O título deste texto é “biblioteca da comunidade” em virtude de que uma biblioteca deve significar um ambiente de informação feito pela/para/com a comunidade.

Há várias formas de se pensar a estruturação de bibliotecas da comunidade, quais sejam: a) as bibliotecas construídas entre Estado (nível municipal, estadual e/ou federal) em parceria com a comunidade podendo se constituir como ambientes integrados às bibliotecas públicas ou ambientes independentes específicos da comunidade; b) a biblioteca da comunidade que pode se instituir como ambiente vinculado direta ou indiretamente ao terceiro setor (biblioteca da comunidade como uma ONG em que pessoas externas à comunidade participam e investem na biblioteca ou biblioteca construída pela própria comunidade que estabelece parcerias com ONG); c) a biblioteca da comunidade feita a partir da parceria entre comunidade e empresas privadas (se constituem na chamada responsabilidade social empresarial em que empresas investem em projetos sociais com a prerrogativa de receber incentivos fiscais do governo); d) a biblioteca da comunidade elaborada pura e simplesmente com recursos da própria comunidade sem a interferência de setores institucionais externos como Estado, Terceiro Setor ou propriedade privada, mas que pode receber incentivos de pesquisadores, intelectuais, bibliotecários e outros segmentos da sociedade civil.

O foco deste texto não é se posicionar pelo modelo mais adequado de biblioteca da comunidade, mas como esta biblioteca pode se configurar como uma ressignificação da cultura informacional da comunidade a que serve. As comunidades atuais, especialmente aquelas consideradas mais carentes de investimentos possuem poucas perspectivas de usufruir de ambientes culturais como bibliotecas, arquivos, museus, atividades esportivas, artísticas e tecnológicas.

Inegavelmente a falta de ambientes culturais é um dos aspectos determinantes que despromove espaços de convivência/socialização, construção de conhecimento e traz a espetacularização da violência em todos os seus níveis (físico, institucional, intrafamiliar, moral, psicológico, sexual, simbólico etc).

A priori, o Estado deveria ser a instituição estratégica para o desenvolvimento das políticas culturais e informacionais que norteariam a construção de bibliotecas da comunidade. No entanto, o ideal seria a construção de ações que estruturassem um sistema de bibliotecas da comunidade integradas à biblioteca pública e escolar com a participação de diversos segmentos sociais (Estado, Terceiro Setor, movimentos sociais, propriedade privada etc) constituindo uma política pública cultural permanente de Estado.

Como as duas possibilidades não têm ocorrido de maneira muito enfática em várias regiões do Brasil, cabe a setores da sociedade civil se auto organizarem, visando à correção parcial das injustiças de acesso aos bens culturais e informacionais, assim como cobrar do Estado medidas que ajude a redimensionar a elaboração de bibliotecas da comunidade como política pública cultural e informacional.

E quais seriam às contribuições de uma biblioteca da comunidade para a própria comunidade e a realidade social que a cerca? Para responder a esta pergunta a melhor forma é compreender o papel da biblioteca da comunidade.

Em primeiro lugar, é preciso superar a percepção tradicional de tudo que uma biblioteca precisa para existir, um espaço com estantes e livros. Uma biblioteca para ser viva e atuante precisa de uma intencionalidade social, conhecimento das necessidades/desejos/demandas informacionais da comunidade, além de um conjunto de práticas informacionais ligadas à organização, mediação, gestão, uso de recursos, fontes de tecnologias de informação e a promoção de serviços diversos (referência, informação utilitária, alerta, disseminação seletiva da informação etc).

Em segundo lugar, a biblioteca deve ser o ambiente de salvaguarda informacional da comunidade. Por isso, mais do que possuir acervo sobre conhecimentos diversos em livros e outros suportes documentais, a biblioteca deve ser o ambiente que busca a preservação da memória da comunidade contemplando às práticas cotidianas de seus componentes envolvendo trabalho, lazer/entretenimento, família e a preservação da memória coletiva e institucional da comunidade. Em síntese, uma biblioteca que não conhece sua comunidade é mórbida por ignorância humana e estanque por falta de uma relação efetiva do binômio biblioteca-comunidade.

Em terceiro lugar, e o mais importante, é que a biblioteca precisa ser o ambiente que estimule a vivacidade da cultura comunitária. Em outras palavras, a biblioteca precisa ser realmente da comunidade no sentido de estimular novas crenças e práticas sociais que contribuam para o desenvolvimento humano da comunidade. Cito como práticas da biblioteca da comunidade às seguintes: a) desenvolver atividades de estímulo à leitura (leitura da palavra e leitura de mundo) e a pesquisa no ambiente comunitário observando às demandas específicas de aprendizado de cada grupo comunitário; b) reunir esforços para estimular os processos de alfabetização e letramento informacional das crianças, adolescentes, adultos e idosos da comunidade por meio de reforço escolar (neste ponto, a participação de bibliotecários, professores, pedagogos e outros profissionais da própria comunidade ou aqueles que busquem contribuir com o projeto é fundamental para o êxito desta prática); c) contribuir para os processos de inclusão social, digital e de deficientes por meio de práticas de acesso à informação via uso de tecnologias e informações cotidianas; d) construir um trabalho de conscientização acerca dos problemas sociais enfrentados pela comunidade por meio de serviços de informação (incluindo palestras, cursos, debates e outras qualificações) como saneamento, violência, déficit educacional, direitos à informação, preservação do meio ambiente, incentivo ao esporte, incentivo ao primeiro emprego, acesso otimizado às tecnologias digitais, estímulo à abertura do próprio negócio, criação de produtos para aprimoramento estrutural (material e intelectual) da comunidade, entre outros; e) promover informações sobre utilidade pública alusivas à saúde (informações sobre saúde pública, higiene, prevenção de doenças, exercícios físicos, além de informações sobre hospitais públicos, particulares, postos de saúde, ambulâncias, farmácia popular, farmácias particulares, laboratórios, SUS, clínicas, unidades sanitárias, academias populares, academias particulares, etc.); Cultura e lazer (agenda cultural, calendário de eventos, cinemas, teatros, museus,     centros e espaços culturais, salas de exposições, galerias de arte, estádios, órgãos ligados ao esporte); utilidade pública (assistência social ao menor, à mulher, ao idoso e etc., associações, assistência legal, juizados, tribunais, prisões, serviço de assistência gratuita, projetos públicos, serviços públicos de pagamento como gás, luz, água, telefone, etc., sindicatos, como tirar documentos de identidade, CPF, título de eleitor e outros, segurança, telefones úteis como bombeiros, emergências, polícia, imprensa local); trabalho (agências de emprego e estágios, oportunidades de empregos, cursos e eventos de qualificação profissional, etc.), além de outros assuntos referentes a realidade cotidiana dos usuários.

Muito se fala que a biblioteca escolar deve ser o coração da comunidade escolar e a biblioteca comunitária o coração da comunidade. Porém, creio que a biblioteca comunitária deve ser o cérebro da comunidade no sentido de estimular práticas que dinamizem o cotidiano informacional da comunidade e que ajudem a resolver problemas específicos da comunidade.

Uma biblioteca pública sem uma rede de bibliotecas comunitárias perde parte do seu sentido de descentralizar o acesso à informação. Uma biblioteca escolar sem uma rede de bibliotecas comunitárias inibe o diálogo sobre a realidade social da comunidade escolar. Isso significa que precisamos de bibliotecas da comunidade para que a própria comunidade compreenda os múltiplos significados e possibilidades de acesso à informação. A biblioteca da comunidade traz a expansão do direito à informação independente de crença, raça ou gênero.

Embora a biblioteca da comunidade seja da própria comunidade e deva partir dos anseios comunitários é fundamental a interferência de profissionais especializados como bibliotecários nos processos de elaboração, além da interferência do Estado e segmentos sociais. Somente com uma biblioteca feita para e com a comunidade é possível pensar em uma rede de bibliotecas da comunidade profícuas e que tragam resultados para o seu desenvolvimento. Pensar a biblioteca apenas como um espaço com livros e estantes é trazer o ônus do custo em detrimento do investimento em informação.

Portanto, a biblioteca da comunidade é aquela em que a própria comunidade participa de seu desenvolvimento e que satisfaça às necessidades/desejos/demandas/anseios cotidianos da comunidade, conforme mencionado nas quatro alíneas acima. A biblioteca da comunidade é papel do Estado, do Terceiro Setor e de segmentos sociais diversos, mas é principalmente direito da comunidade em ter acesso à informação com qualidade e transparência, com vistas à construção de uma nova cultura informacional.  É salutar que a sociedade civil lute por uma rede de bibliotecas da comunidade não somente para chamar de sua, mas para constituir um novo locus cultural dentro das comunidades, especialmente as mais carentes. Comunidade que respira cultura exala convivência mais pacífica e inibe a espetacularização da violência.

VIVA A BIBLIOTECA DA COMUNIDADE FEITA PARA E COM A COMUNIDADE!

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