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Baseado em depoimentos reais:

Rio de Janeiro, 15 de maio de 1997.

Meu caro amigo D*,

Na verdade, eu nem sei qual é a razão que me leva a escrever esta carta. Você morreu há dez anos e então tudo acabou. Durante todo esse tempo, não tive mais ninguém para conversar, passar o tempo ou, simplesmente, apreciar o silêncio. Provavelmente, vou ocupar todas as linhas deste papel e depois o rasgarei em mil pedaços.

Bem, vou atualizá-lo dos últimos fatos: estou me divorciando pela terceira vez. Sim, terceira. Mas isso não importa. O que anda me matando aos poucos é a sobrevivência que ando arrastando. Não entendo a minha inconstância, a minha falta de ânimo, a ausência completa de força, persistência e determinação. Se o meu maior sonho é ser escritor, lançar livros premiados, largar a medicina e o mundo, por que raios eu tenho protelado tanto o ato da escrita?

Por que eu sempre acho que minhas ideias são insuficientes, que meus textos são pobres, que um dia eu irei chegar à perfeição, como você chegou, mas eu não consigo sair do lugar? Toda vez que preciso encarar essa verdade, eu choro. Choro e me sinto mal, um covarde! Essa é uma das minhas máscaras. Ah, eu uso tantas! Nem sei mais qual é o meu verdadeiro eu. Eu não sei quem é o G** sem camuflagens, fugas ou esconderijos. Todos os dias, eu invento um novo personagem. Talvez eu não seja assim tão forte e decidido quanto acho que sou.

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Foto: Ana Cândida Carvalho

Por favor, me ajude! Sei que você pode nem lembrar de mim ou, se existir mesmo um céu, purgatório ou inferno, devem existir coisas mais urgentes com as quais se preocupar. Bom, isso não importa tanto agora. Eu quero descobrir quem eu sou de verdade, quero saber onde está a minha real determinação, minha força, minha autoconfiança. Essas qualidades emanavam de você, meu bom amigo. Brilhavam nos seus textos, poemas e cartas. Já eu… Por que eu tenho que me esconder de mim mesmo? Por que não consigo saber quem eu sou? São tantos anos de máscara, tanta camuflagem… Tantos anos trancafiado em hospitais, esperando olhar pela janela e observar mais do que as cores cinzas do céu.

Quando eu paro e penso, sei que quero escrever para o resto da vida. Mas por que não faço isso? Por que raios não começo logo? Tenho tantas ideias, tantos elementos pulsantes na minha cabeça. Por que não os entrego à vida? Por que eu sou essa eterna máscara? Esse eterno olho que ronda, observa, silencia e finge?

Quem é o G** sem máscara? O que se esconde por trás das inúmeras fantasias que carrego? Você já teve essa sensação? Já sentiu como se vários D* se escondessem por trás do seu corpo, mente e espírito? Que vácuo é esse?

Nossa, estou me sentindo melhor. Inspiro e expiro do jeito que você me ensinou. Será que aí, do lugar onde você está, é capaz de me escutar? Eu escrevo esta pergunta na esperança de que sim, você possa. É o que passa sempre pela minha cabeça quando eu tento falar com as pessoas ao meu redor. Tenho a sensação de que elas não conseguem me escutar de verdade, que apenas fingem. Fico imaginando que sou escutado e sentido, pelo simples fato de ser médico, ter uma boa casa e um bom emprego. Bobagens!

Obrigada por me ouvir, já que ninguém mais o faz.

Saudades do amigo que nunca te esquece.

P.S: Continuo indo ao cemitério e me ajoelhando na sua sepultura. As pobres velhinhas que passam imaginam que estou rezando ou sofrendo. Mas eu apenas estou lendo mais um dos meus novos capítulos para você.

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