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Eu tinha 13 anos quando a minha avó materna contou a história de um primo distante – ou de consideração, nunca saberei – que conseguiu fugir e não ser embarcado para um campo de concentração. Na época, o senhor em questão tinha aproximadamente 80 anos e foi até à minha cidade natal para visitar parentes. Minha avó achou por bem levar a mim, minha irmã e mais quatro primos para conhecer o “Seu Samuel”, como era chamado, e ouvir da boca dele suas histórias de sobrevivência.

Quando chegamos, sentamos calados em cadeiras de espaguete enquanto escutávamos apenas o som da respiração daquele homem. Ele soltou apenas algumas palavras a respeito e começou a contar sobre como era bom visitar o nordeste brasileiro e coisas do tipo. No auge dos nossos 13 e 10 anos, aquela conversa toda sobre Segunda Guerra Mundial e genocídio era coisa de livros de História, muito distante da nossa realidade.

Hoje, pouco mais de quinze anos depois, investiguei o meu “palácio da mente” e trouxe à tona a expressão do Seu Samuel, sempre silenciosa, pensativa e murmurante. Vovó nos disse que ele era violinista, mas alguma coisa tinha acontecido com seus dedos durante a Segunda Guerra que ele estava impossibilitado de tocar. Lendo “O Pianista”, relato memorialista do músico polaco Wladyslaw Szpilman, consigo compreender, ao menos na superfície, porque o velho primo/conhecido distante da minha avó não gostava sequer de tocar no nome Holocausto.

Cena do filme “O Pianista”. Foto: divulgação

A obra de Szpilman surpreende pela descrição rica, direta e realista. Esse homem narra com uma lucidez dolorosa como viu bombardeios, assassinatos em massa de judeus por pelotões de fuzilamento, pessoas entrando como gado nos vagões de trem em direção aos campos de concentração, torturas públicas, doenças, fome e frio, além da formação dos degradantes guetos. Szpilman viu sua casa ser destruída, seus vizinhos fuzilados e os corpos lançados de seus apartamentos, seus amigos morrerem e desaparecerem e seus pais e irmãos enviados para a morte em campos de concentração.

Com a ajuda de amigos, o pianista permaneceu escondido por meses, sobrevivendo de alimentos escassos e sempre mudando de esconderijo. Ficou desnutrido e foi traído por um suposto aliado, tendo que se refugiar em meio a escombros. A narrativa inteira parece ser a retomada de lembranças transportadas para o presente através de uma sessão de hipnose. Mas acredito que Szpilman não fez uso do recurso. Pelo contrário: a catarse aconteceu de forma consciente, plena, lúcida, formada por sofrimentos e esperanças.

O livro “O Pianista” foi adaptado para o cinema em 2002, com direção e produção de Roman Polanski. O ator Adrien Brody interpretou Wladyslaw Szpilman e, em uma das cenas mais tocantes do longa-metragem, observamos um famélico e quase morto pianista executar o “Noturno em dó menor”, de Chopin, para um oficial alemão.

“(…) uma cela de prisão é um mundo em si mesmo, desprovido das ilusões de uma vida normal, com a qual somente poderíamos sonhar.”

“Diante da nova realidade, coisas que há um mês tinham muito valor foram destruídas. Alguns detalhes, aos quais antes não se dava qualquer valor, adquiriram nova importância: uma bonita e confortável poltrona, a estufa de cerâmica sobre a qual se podia deter o olhar ou até o barulho que vinha do apartamento acima do nosso – símbolos de uma vida normal e de uma atmosfera doméstica”.

Retirados do livro, os fragmentos acima desenham com observação filosófica o que se perde para sempre quando o mundo é feito e devorado por violência e desumanidade.

Quase sem fé, Wladyslaw Szpilman recebeu ajuda do capitão alemão Wilm Hosenfeld, cujos fragmentos do diário também foram publicados em “O Pianista”. Em 2002, Hosenfeld recebeu o título póstumo de “Justo entre as Nações”. A medalha e o certificado foram entregues aos seus descendentes durante cerimônia realizada pelo Yad Vashem, o Memorial oficial de Jerusalém para lembrar das vítimas do Holocausto.

Informações adicionais

Capa do livro “O Pianista”, de Wladyslaw Szpilman

Obra: O Pianista

Título Original: Pianista/inicialmente publicado como Smierc miasta

Tradução: Tomasz Barcinski

Editora: BestBolso

Ano: 2008

Páginas: 224

Preço médio: R$ 24,90

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