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Uma imagem registrada pela Fotógrafa Ana Carolina Fernandes durante as manifestações de ontem no Rio de Janeiro parece dizer muito sobre o momento político que vivemos. No registro fotográfico policiais da tropa de choque se postam ao lado dos tapumes da Fundação Biblioteca Nacional, que está em obras desde o ano passado.  À frente da tropa, um letreiro com a seguinte frase: “A Biblioteca Nacional deve ser motivo de orgulho de todo brasileiro. Um sistema de boas bibliotecas públicas é essencial para a democracia: ao facilitar o acesso do cidadão ao livro, ajuda a pensar por conta própria, estimula a imaginação e alimenta as defesas contra o autoritarismo e a opressão”.

Tropa de Choque em ação no ato da Greve geral. Foto: Ana Carolina Fernandes

De fato um país que reprime e suprime o direito dos seus trabalhadores como se tem visto nos últimos tempos no Brasil ajuda a enfraquecer as defesas contra o autoritarismo e a opressão. A forma como a tropa de choque reprimiu o ato da Greve Geral no Rio de Janeiro na tarde de ontem foi uma verdadeira covardia contra a classe trabalhadora que estava nas ruas lutando pela garantia dos direitos sociais que estão na berlinda nos últimos tempos.

Outra fotografia que chamou atenção foi a que a bibliotecária Cleide Fernandes postou em sua rede social quando foi as ruas em Minas Gerais para participar do ato da greve geral. Na foto, Cleide segura um cartaz com o seguinte dizer: “Você sabe que está ruim quando [email protected] vão à luta”.

Bibliotecária Cleide Fernandes em manifestação da greve geral em Minas Gerais. Foto: Facebook

Uma crítica a tão conhecida apatia ou até mesmo falta de mobilização de parte da classe bibliotecária no que diz respeito as questões políticas, sociais, entre outras. Juntamente com a foto a bibliotecária também demonstra seu apoio as manifestações do dia 28 com o seguinte dizer: “Só consegui chegar no fim, mas estive lá. Nenhum direito a menos!”.

O que vi nas ruas do Rio de Janeiro no dia 28

Cheguei na Cinelândia, no Centro do Rio de Janeiro,  por volta das 14h e a concentração para o ato estava a todo vapor. Bandeiras de centrais sindicais tremulavam na praça histórica em uma tarde fria e chuvosa na cidade, uma banda agitava o clima com músicas de ordem e um “Fora Temer” em uníssono ecoava pelos quatro cantos da Cinelândia. Em frente ao palco montado um cercado com grades protegia um grupo de crianças que estavam sentadas e pintando cartazes com dizeres em defesa dos direitos sociais. Neste momento um espírito de esperança adentrou em mim porque enquanto existir um coração infantil, a luta por justiça e igualdade será protelada para as futuras gerações.

Em seguida resolvi me deslocar e acompanhar outro ponto do ato que se concentrava em frente a Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (ALERJ) a poucos metros da Cinelândia. Ao chegar no Largo da Carioca era possível ouvir o estrondo das bombas de efeito moral jogadas contra os manifestantes. Em meio a tantos gases lacrimogênios e muita correria procurei abrigo na estação do metrô da Carioca até as coisas se acalmarem. Passado alguns minutos e com as vias nasais queimando retornei para a Cinelândia e fiquei acompanhando o início do ato e os discursos de trabalhadores e alguns parlamentares que subiam ao palco. O clima estava mais calmo e até consegui registrar algumas fotos com um escracho dos parlamentares cariocas que votaram a favor das ditas “reformas” trabalhistas e categorizados como traíras do trabalhador.

Escracho dos deputados do Rio que votaram contra os direitos dos trabalhadores. Foto: Rodolfo Targino / Agência Biblioo

Continuei percorrendo o entorno do ato na Cinelândia e resolvi parar em frente à Biblioteca Nacional. Quando olhei para o horizonte ao fundo da Avenida Rio Branco era possível avistar as bombas cortando o céu e caindo no meio da multidão. Em fração de segundos, muita correria, forte estrondo e o gás adentrando os olhos e narinas dificultavam a chegada do ar nos pulmões. Nos restou apenas correr e procurar um lugar seguro. Parei a alguns metros na esquina da Rua Santa Luzia onde o clima estava mais calmo e foi quando fui abordado por um jovem negro, morador do Alemão e com um olhar sofrido ele me disse: “Desculpa te incomodar, sei que estamos tensos com a manifestação, mas estou desde cedo procurando emprego pela cidade e não tenho dinheiro para pagar minha passagem de retorno para casa”. Em seguida ele abriu um envelope com todos os seus documentos para comprovar que estava dizendo a verdade. Ajudei ele com o que tinha, conversamos alguns instantes e em seguida ele me agradeceu e se perdeu no meio da multidão.

Depois disso fiquei refletindo acerca de tudo que já tinha lido e escutado durante o dia na grande mídia brasileira e nas redes sociais. Alguns âncoras do jornalismo brasileiro enchiam a boca em seus comentários dizendo que era um absurdo as manifestações e bloqueio de avenidas por interferir no direito de ir e vir do cidadão. Por outro lado, não vejo esse tipo de comentário quando muitos moradores do subúrbio tem seu direito de ir e vir violado porque não tem condições para pagar as passagens dos transportes públicos; não vejo esse tipo de comentário quando um pai de família não consegue frequentar um cinema ou um teatro com seus filhos porque não tem dinheiro para pagar os ingressos e também não vejo esse tipo de comentário quando jovens negros são impedidos de chegar as praias da zona sul da cidade simplesmente por serem pobres. A grande verdade é que o monopólio midiático brasileiro está muito longe e no caminho contrário dos interesses do povo e da classe trabalhadora.

Por um instante a situação foi se normalizando e mesmo com alguma dispersão o ato voltou e parecia que tudo iria ficar tranquilo, mas isso não aconteceu. A situação ficou insustentável devido a forte repressão das forças policiais e não me restou outra saída a não ser sair em retirada, mas com a certeza de que a luta não está perdida como diz os versos da canção Clube da Esquina nº2 de Milton Nascimento, Lô Borges e Márcio Borges: “Por que se chamavam homens, também se chamavam sonhos e sonhos não envelhecem em meio aos gases lacrimogênios”…

Relatos de bibliotecários nas redes sociais sobre o dia 28

“Ontem vivenciei o que posso dizer: perda de esperança em futuro desse país. Estive na ALERJ, encontrei amigos bibliotecários e outros de tantas áreas, em paz e sem fazer desordem. Deixei o local quando o carro de som informou que daria a volta no quarteirão e me dirigi para a Cinelândia, onde também encontrei amigos exercendo o seu direito constitucional. Pessoal de idade, jovens, etc, Assistiamos um ato democrático quando covardemente fomos atacados pela polícia. Encurralados melhor dizendo. Vi senhoras caírem no chão com bombas sendo atiradas ao lado. Uma guerrilha. Black Blocks que nada, vimos guardas quebrando coisas em meio ao tumulto. Esses desqualificados, sabemos ser pessoas compradas para promover o caos e desqualificar o movimento legítimo da população em se opor a uma ditadura estabelecida pelo governo. Perdemos e estamos perdendo os direitos que nos restaram. Lamento muito pela juventude que herdará uma país falido moralmente. Viveremos o tempo da Casa Grande (governo), Capatazes (Deputadoe, etc), Capitães do mato (polícia) e os escravos (trabalhadores) que teremos que sustentar tudo e todos de cabeça baixa e aceitando tudo. Lamentável”. (Relato de Luciana Manta, presidenta do Sindicato de Bibliotecários do Estado do Rio de Janeiro – SINDIB/RJ).

“Que pena que não sai um pouco antes. A PM começou a jogar bombas na Rua da Glória na hora em que eu me preparava para ir. Foi uma gritaria danada e fiquei com receio. Logo depois a TV mostrou os ônibus incendiados no Largo da Lapa. Conversei há dias com uma pessoa favóravel aos balck blocks, mas ela não conseguiu me convencer de que esta tática ajude. Ao contrário, acho que dá margem à desqualificação do movimento pacífico duramente organizado! Eles ontem estavam agindo perto do CCJF e foi por eles que os PMs chegaram perto do ato”. (Relato da bibliotecária Gilda Queiroz).

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