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Por Leticia Fernandes de O Globo

Vivendo no eixo Rondônia-São Paulo-Minas Gerais, engenheiro florestal de 31 anos veio para o Rio, em 2006, integrar a equipe que combate pragas no Arquivo Nacional

“Nasci em Rondônia, morei em Goiás e São Paulo, mas cresci em Viçosa (MG). Meu pai trabalhava com cerveja, e sempre que abria uma nova empresa mudávamos de estado. Vim para o Rio em 2006. Nunca foi meu sonho trabalhar com controle de pragas, mas faço mais do que isso, preservo o total acesso à informação”

Conte algo que não sei.

Os insetos bibliófagos causam mais danos aos acervos bibliográficos do que calamidades como incêndios e inundações. Essas pragas são diárias, alimentam-se em silêncio.

O que são insetos bibliófagos?

São cupins, brocas, baratas e traças, insetos que comem papel. O cupim de subsolo, por exemplo, é muito agressivo. Esses insetos bibliófagos se alimentam de derivados de celulose: papel, pergaminho, cola. Se o cupim atinge o acervo é um dano sem precedentes porque ele é muito voraz. E a gente tem aqui Lei Áurea, originais de Constituição…

Em quanto tempo essas pragas destruiriam todo o Arquivo Nacional?

Não dá para estimar, mas, certamente, se não tivesse controle, os documentos virariam pó. Já visitei outros arquivos em que o documento esfarelava. O cupim é social, se reproduz, vira milhares e milhares. Já a broca é individual, fura só um buraquinho e deposita o ovo, faz um caminho e devora o documento.

Qual foi o documento mais antigo que eles já destruíram?

Não comeram documentos raros, mas já restauramos muitos. Há documentos que já perderam boa parte da informação. Não são furinhos, são crateras mesmo. Tem um acervo da Marinha, por exemplo, que teve problemas com insetos. Mas ainda pode ser restaurado.

Quais os documentos preferidos desses insetos?

Eles não atacam papéis soltos. Preferem encadernações porque precisam de um material sólido para perfurar e colocar o ovo. Gostam de capas, encadernações de couro, com cola. Não comem os acervos fotográficos, por exemplo. E, geralmente, as encadernações são obras raras, mais antigas, com capas elaboradas.

O que atrai esses bichos para os arquivos?

O mais importante é educar as pessoas. Chega um funcionário desavisado que abre a janela e a deixa aberta, outro entra com café e deixa o copinho lá. Para o inseto, o mais importante é ter alimento. Em um arquivo, ele está num rodízio de churrascaria: tem todo o acervo para comer. Por isso, sempre vai ter inseto nos arquivos, bibliotecas, museus, igrejas.

Como combater as brocas?

Usando armadilhas com feromônio sexual, que é um sinal químico, um chamamento sexual. É por isso que a gente fala: “rolou química”. Com os insetos é a mesma coisa, eles liberam substâncias que atraem o sexo oposto. O feromônio funciona como a química do amor. O bicho chega pelo cheiro, acha que tem uma fêmea ali e cai na armadilha.

São quantas armadilhas?

São 1.700 por ano nos arquivos do Rio e de Brasília.

Pegando os machos, vocês sabem quantas fêmeas há?

Mesmo pegando só o macho, a gente sabe primeiro se tem inseto no depósito, e qual a população. Pode haver depósito com centenas, aí é um caos e a gente adota um método de controle.

Que métodos são esses?

Um deles é o congelamento profundo. A gente coloca os documentos num freezer especial por trinta dias.

Costuma navegar pelos arquivos?

Sim, adoro! Há registros de nascimentos antigos que você nem entende a grafia, documentos da ditadura… Se a gente não estivesse aqui, talvez essas informações fossem se perder.

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