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“Sempre que entro numa biblioteca, o que mais me impressiona é a forma pela qual uma certa visão de mundo é imposta ao leitor por sua ordem e suas categorias.” (Alberto Manguel).

Como qualquer tecnologia, um sistema de organização do conhecimento (SOC) consiste em uma aplicação de conhecimento visando a um determinado fim. É possível dizer que os SOC são criados visando a objetivos específicos. A sua utilização para finalidades diferentes daquelas para que foi criado compromete o alcance de eficiência e de eficácia.

Os SOC podem ser definidos como ferramentas semânticas que apresentam a interpretação da organização de estruturas do conhecimento. Para a sua construção, portanto, importa a observação de algum domínio de conhecimento, de maneira que o SOC reflita uma forma de apreensão do mundo. Contudo, este processo se limita à epistemologia, à cultura e à ideologia do espaço onde e do tempo quando o SOC foi criado. Por exemplo, a Classificação Decimal de Dewey (CDD) apresenta fatores críticos em sua aplicação nos dias de hoje, tendo em vista o desenvolvimento da ciência e da tecnologia desde a época de sua criação e a expansão da sua utilização em diferentes lugares do mundo.

Uma proposta de organização dos livros

A CDD foi desenvolvida pelo norte-americano Melvil Dewey (1851-1931), quando trabalhava na biblioteca do Amherst College, em Nova York. Insatisfeito com a organização da sua coleção, Dewey visitou ou se correspondeu com mais de cinquenta bibliotecas a fim de conhecer como organizavam seus livros. Um ano após ter começado a trabalhar na biblioteca (1873), apresentou à diretoria do Amherst College uma nova proposta de organização dos livros nas estantes da biblioteca. A proposta foi aceita e aplicada à biblioteca no mesmo ano.

Dewey não apresentou uma fundamentação científica para sua classificação, de modo que não seja simples a identificação de suas influências e de seus princípios. Há, todavia, estudiosos que, após a análise das categorias e das relações de assuntos, identificaram possíveis influências filosóficas e teóricas na CDD. Maria Antonieta Piedade, em seu livro Introdução à Teoria da Classificação, sugere que Dewey tenha sido influenciado pelas classificações do conhecimento dos filósofos Aristóteles, Locke e Bacon bem como pela classificação bibliográfica de Willian Torrey Harris, aplicada na biblioteca do Saint Louis Public School Library, em Missouri.

A CDD está dividida em 10 categorias gerais, referentes às grandes áreas do conhecimento. Chamadas de classe, as 10 categorias são: Generalidade, Filosofia, Religião, Ciências Sociais, Linguística, Ciências Naturais, Ciências Aplicadas, Artes, Literatura e, finalmente, Geografia e História. Cada uma dessas classes se subdivide em 10 divisões, as quais, por sua vez, se dividem em seções. Há também 6 tabelas auxiliares, as quais relacionam aspectos que podem ajudar a detalhar o assunto.

Desde a sua primeira publicação, a CDD já passou por 23 edições integrais, mais 15 edições abreviadas, e, ainda, múltiplas versões em sua versão para a Web. Atualmente, a sua revisão e atualização, assim como seus direitos e sua distribuição, estão sob a responsabilidade da empresa norte-americana Online Computer Library Center (OCLC). Segundo os dados da 23ª edição da CDD, o SOC já foi traduzido para 30 idiomas e é utilizado por bibliotecas de mais de 138 países. Porém, a despeito de seu sucesso, a aplicação da CDD pode enfrentar alguns problemas em alguns contextos.

As limitações

Uma dessas dificuldades diz respeito à presença de contradições essenciais, ocasionadas por erros históricos e epistemológicos na classificação das ciências. A CDD, por ser um SOC, é uma interpretação das estruturas do conhecimento humano. A CDD, especialmente, pretende ser uma classificação geral das ciências, não se restringindo a um determinado domínio do conhecimento. Isso implica uma gama de limitações, tendo em vista o desenvolvimento científico e tecnológico desde a época quando foi criada. Apesar das atualizações, a base estrutural da CDD é o conhecimento humano do século XIX. Assim, apresenta-se com alguns pontos epistemológicos e históricos que já foram superados. Como, por exemplo, a Psicologia que está enquadrada como uma divisão da Filosofia e suas seções não dão conta de tantas correntes teóricas presentes no domínio discursivo psicológico contemporâneo.

Outro problema diz respeito à disciplinaridade, a qual pode ser observada nas classes mencionadas anteriormente. A CDD é dividida consoante às grandes áreas do conhecimento conhecidas na segunda metade do século XIX, época caracterizada pela sistematização de muitas disciplinas científicas. A questão que se coloca hoje é a tendência da ciência aos diálogos multi, inter e transdisciplinar, isto é, a recorrência a mais de uma área do conhecimento para analisar determinado objeto. O sistema notacional da CDD não permite notações polidisciplinares. Dessa maneira, áreas do conhecimento transdisciplinares, como, por exemplo, a Memória Social ou os Estudos Ambientais, não podem ser bem representados na CDD.

Ainda é possível citar o etnocentrismo recorrente na CDD, o qual reflete a visão imperialista norte-americana sobre o mundo no século XIX. A classe de Religião, a exemplo, distribui muito mais divisões para o Cristianismo do que para qualquer outra religião. Centros de informação religiosa, se optarem pelo uso da CDD, podem enfrentar problemas para representar outras manifestações religiosas provenientes de outros lugares do mundo, além do eixo América do Norte e Europa. Outros fatores etnocêntricos também podem ser observados nas classes de Arte e de Literatura e ainda nas tabelas auxiliares de Raças e Etnias e na de Áreas. Os Estados Unidos e a sua cultura, particularmente, estão perceptivelmente privilegiados.

O resultado dessas limitações é a dificuldade de representar a informação de forma eficaz, comprometendo a recuperação da informação. Todavia, a despeito de novas tecnologias e suportes, do paradigma polidisciplinar da ciência e de outras críticas, a importância e relevância da CDD para o desenvolvimento da organização do conhecimento é inegável, sendo influente até hoje no desenvolvimento de novos SOC. A CDD se mantém ainda como um importante instrumento para a organização da informação em serviços de informação de todo mundo, sobretudo as bibliotecas públicas e escolares.

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1 Comentário

  1. João Paranhos
    12 de março de 2013 a 10:31 — Responder

    A CDD trabalha com um critério duvidoso, mas que diz respeito, SIM!!!!!, ao avanço tecnológico e científico!! hummmmm que delícia!!!! A comunicação científica

    A CDD trabalha com a garantia literária que
    se sustenta na ideia nuclear de que a literatura de um domínio deve ser a fonte para extração e validação da terminologia a ser incorporada em um sistema de classificação, ou em qualquer outro sistema de organização do conhecimento.
    (BARITÉ, Mario; FERNÁNDEZ-MOLINA, J. Carlos; GUIMARÃES, José Augusto Chaves; MORAES, João Batista Ernesto de, 2010) [não consegui padronizar, me desculpem os Caxias]

    PORÉM como é coletado e extraído toda esse domínio e ideia nuclear??

    Perguntem aos dados estatísticos, bibliométricos, pragmatistas, econômicos e positivista apostólica romana estadunidense cristão amém!!!!!

    Tom Zé fala!!

    A ciência excitada
    Fará o sinal da cruz
    E acenderemos fogueiras
    Para apreciar a lâmpada elétrica.

    Artigo pertinente que me ajudará muito. Chega ser redundante falar do Thulio…ele é demais!!! Porém a ciência não é a resposta para tais indagações! Talvez nosso Orí (que não possui representação na CDD) seja

    ah! http://www.brapci.ufpr.br/documento.php?dd0=00000… o link do artigo: GARANTIA LITERÁRIA: ELEMENTOS PARA UMA REVISÃO CRÍTICA APÓS UM SÉCULO dos autores acima…só fera!

    Vale muito apena. Não vou colocar referência pq eu to com preguiça

    Salve:
    João Paranhos

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