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O macaco gigantesco, de garras afiadas e dentes assustadores, com tamanho suficiente para esmagar uma frota inteira de helicópteros ou navios está de volta. Dessa vez, sem donzelas frágeis e indefesas. Kong: A ilha da caveira (original Kong: Skull Island) é a aposta ruidosa do jovem diretor Jordan Vogt-Roberts. A mente por trás da nova versão da lenda do ‘grande macaco’ gosta de explosões e barulho: logo no começo do longa-metragem, aviões explodem e dois inimigos de guerra, um americano e um japonês, presenciam o verdadeiro terror do desconhecido antes de conseguirem dar cabo um do outro – o que não ocorre, evidentemente, já que um medo maior anula a vontade assassina e une os opostos que nem tiveram oportunidade de escolher se iriam se atrair ou não.

No filme de Vogt-Roberts, não estamos mais imersos no erotismo apaixonado do macaco que defende a donzela de si mesmo, mas sim perdidos em uma ilha desconhecida, dinamitada pela tendência norte-americana de bombardear, dominar e colonizar tudo ao seu redor. Agora estamos nos aventurando no meio da selva junto com soldados e um general sanguinolento (Samuel L. Jackson), pesquisadores de gabinete (John Goodman e Corey Hawkins), uma corajosa fotojornalista (Brie Larson) – loira e não tão pálida, sem fraquezas e erotizações – e um ex-batedor do exército com cara de baronete (Tom Hiddleston). Com o grupo, há também armas potentes, explosivos e mais um punhado de arsenal de guerra.

O sentimento de “armazém pop” é geral, magnetizado pelas imagens quase cartunescas de bichos gigantes (no estilo Parque dos Dinossauros), pelas cenas rápidas e que lembram quadrinhos e animações, pela escolha da trilha sonora – com músicas do Black Sabbath, Creedence, The Stooges, David Bowie e Jorge Ben Jor. Todos esses elementos reforçam a sensação de “olha aí, sou fã de quadrinhos e de cultura pop”.

Cartaz do filme Kong: A ilha da caveira (original Kong: Skull Island). Foto: divulgação

A trama segue o conhecido fio condutor: embarcando em uma expedição para descobrir os mistérios da ilha da caveira, o grupo de exploradores tem seus aviões abatidos pelo enorme macaco e precisam encontrar uma forma de sair da ilha. O enredo segue o mesmo rastro do longa de 1993, com acréscimos de personagens, mudança na postura da “garota Kong”, a começar pelas roupas da personagem de Brie Larson, agora muito mais sensatas e indicadas para tal aventura e, claro, o desfecho final.

Separados em dois grupos, os exploradores se deparam com animais grotescos e venenosos e toda sorte de estranhezas. Atravessamos as cenas de forma rápida e sem maiores explicações, de uma sequência à outra, com militares encabeçados por um general doido para acabar com Kong e o grupo onde estão o mercenário-baronete e a fotógrafa, que só querem viver a experiência do lugar sem ferir ninguém. Fica claro a dinâmica de “bandidos e mocinhos”, onde cada passo dos personagens sugere um novo desafio, exatamente como encontramos nas fases de games e jogos em geral.

Um detalhe encantador à parte: na cena em que uma espécie de aurora boreal toma o céu da ilha, é quase mágico ver Kong, o grande rei e protetor do lugar, sentado como uma criança, olhando apaixonado e embasbacado para o firmamento. Particularmente, acho um dos momentos mais bonitos do filme. Outra boa ideia do diretor é apontar o ‘Rei Macaco’ como uma espécie de deus para os ilhéus que residem na ilha, colocando lagartos venenosos e com formatos de criaturas abissais como vilões. Não é difícil fazer uma rápida conexão com o romance “Coração das Trevas”, clássico de Joseph Conrad. E, claro, a referência das bombas e napalm vistos em “Apocalypse Now”, longa de 1979 dirigido por Francis Ford Coppola.

Os efeitos digitais e a velocidade descartável dos acontecimentos não tira o brilho de Kong: A ilha da caveira. As referências acumuladas animam fãs e, possivelmente, podem alvoroçar executivos também, transformando a ideia em uma franquia (lembrando aqui de Godzilla). Para além da jornada rumo ao desconhecido, a lenda cinematográfica de King Kong nos faz pensar sobre os verdadeiros monstros; o que realmente devemos temer: um lugar desconhecido, dominado por seres fora do nosso ‘Guia Ilustrado’, ou a sede por dominação e sangue, controle e poder, características inegáveis do tenebroso coração humano?

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