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Um dia um certo Paulo, olhar calmo, caminhar discreto, mas de presença marcante adentrou sem nada dizer, caminhou entre as estantes azuis, observou as paredes claras, os funcionários e as crianças que ali estavam.  Era uma biblioteca igual a outra qualquer. Os livros eram muitos. Mesas ocupavam um lugar espremido pertos dos computadores que era ferramentas para copiar informação, o velho balcão que separa quem tem o poder de entender aquele ambiente e sabe encontrar a informação e os educandos que ansiavam por um tiquinho de conhecimento daquele universo. Faltava ali uma consciência de emancipação.

Esse Paulo (não aquele velhinho barbudo e pernambucano) nem homem era. No seu caminhar discreto trazia a experiência da zona leste de São Paulo, da formação pela rede pública de ensino, por suas certezas incompreendidas. Tinha cabelos cacheados e pouca estatura. Estava dentro de mim e agia através de mim e misturando-se comigo mesmo e tudo que eu sabia e sentia.

Bom, como sabem, sou bibliotecária escolar, mas meu desejo mesmo sempre foi ser vista como educadora. Não menosprezando minha profissão, contudo, sempre vi um educador/professor como um ser mágico, aquele que sabe muito e que poderá me ensinar. Já o bibliotecário não! Durante a graduação quantas vezes ouvi que é um profissional que organiza, trata e faz a mediação da informação. Essa definição não me satisfaz. Dá um ar de “ser mecânico”, e o educador é um “ser orgânico”, ou deveria ser.

Durante minha formação sempre briguei e afirmei a importância da interação no espaço da biblioteca. No meu trabalho de conclusão de curso (TCC) procurei desenvolver um raciocínio sobre essa interação e agora percebo o quanto faltou Paulo Freire em minha abordagem. Ele vem ao encontro de diversos pensamentos meus, ou os meus pensamentos comungam do pensamento dele. Não sei se por não conhecer sua filosofia não pude fazer um trabalho melhor.

Entretanto, durante o curso de extensão “Paulo Freire: um olhar contemporâneo sobre a Educação”, tentei me valer de uma das orientações do Paulo Freire que é olhar minha realidade, refletir sobre ela e mudar. Acho bonito esse conjunto de ações que ele propõe e que tanta diferença faz para uma mudança efetiva. Lendo “Pedagogia do oprimido” e “Pedagogia da Esperança”, percebi o quanto a biblioteca é um espaço de opressão. Não se assuste com tal afirmação, apontarei alguns motivos que me levaram a essa constatação:

  1. Ausência de dialogo: a frase mais conhecida e propagada em relação à biblioteca é que “ali é um espaço de silêncio e de estudo”. Quantas vezes lemos os comunicados reafirmando a necessidade do silêncio, mas Paulo Freire vem contradizer isso ao afirmar que “o diálogo é uma exigência existencial”, ou seja, é uma ação que possibilita a troca de conhecimento, a interação, a comunhão de ideias, as relações com o outro e o aprendizado é banido. O que leva crer que a biblioteca nega a existência de indivíduos pensantes, criadores, criativos, capazes de refletir o mundo e partilhar suas experiências e vivencias. Livros e pessoas são vistos da mesma maneira, são estáticos e assim precisam permanecer para o bom funcionamento e a organização.

Na biblioteca em que trabalho, depois de muita luta e resistência, as crianças podem enfim se manifestarem. É lógico que por vezes é necessário pedir a colaboração deles para “diminuir o volume”, todavia quando eles estão conversando, rindo e até dançando é nesse momento que a biblioteca deixa ser um repositório de informação e cria vida. Deixa de ser um espaço opressor e se afirmar como um espaço de recreação, convivência e aprendizado.

Todavia, para que todo esse dinamismo funcione é fundamental que haja uma gestão democrática.

  1. Negação da democracia: na biblioteca umas das coisas mais difíceis de implantar é uma gestão democrática. Normalmente a equipe é formada por um bibliotecário com anos de experiência, que teoricamente sabe o que deve ou não fazer e por auxiliares que absorvem o modo de pensar do chefe como verdade absoluta. E dessa convenção de verdade que é definido o layout do espaço, a classificação e a organização do acervo. As normas são feitas com base nas regras de outras bibliotecas, de modo que tudo é decido sem ao menos cogitar a opinião das pessoas que fazem parte da biblioteca, ou seja, dos “usuários”.

Como o silêncio impera no ambiente, nas tomadas de decisões não é diferente. É usada uma classificação para a organização do acervo completamente desconhecida e estranha para as pessoas que lá estão: um conjunto de símbolos e números em que na maioria das vezes o bibliotecário não se abre para o diálogo para desmitificar, explicar e colaborar para que todos possam compreender.

A biblioteca é especialista em estabelecer verdades, basta procurar no mural as “regras” que estão lá dizendo o prazo de empréstimo, o valor da multa, o que pode e não pode ser feito. Não estou querendo transformá-la em terra sem lei, porém me questiono se uma criança que está sendo alfabetizada conseguirá ler no mesmo tempo que uma do sexto ano? Ou será que aquele aluno que já está trabalhando terá o mesmo tempo que os demais para dedicar-se a leitura? O que é mais importante, o livro ser devolvido dentro do prazo ou que o aluno aprenda e aproveite a leitura?

O que parece na verdade é que o que importa é mostrar no relatório para os diretores o volume de circulação e não acompanhar o desenvolvimento e o quanto a leitura colaborou no desenvolvimento das pessoas.

O usuário precisa se adequar a biblioteca e não a biblioteca precisa ao seu público, um clássico pensamento bancário.

  1. Pensamento bancário: para explicar a pensamento bancário nada melhor que utilizar a definição dada pelo próprio Paulo Freire: “a educação se torna um ato de depositar, em que os educandos são os depositários e o educador o depositante”. E o pensamento em relação às pessoas na biblioteca são de usuários, aqueles que usam a informação, que precisam dela e não tem como acessá-la. Já o bibliotecário é a pessoa que possui o poder da informação, sabe localizá-la, disponibilizando e criando uma relação de poder.

Não podemos pensar que as pessoas que estão ali são vasos vazios que precisam ser preenchidos. Cada um traz consigo suas experiências, sua bagagem de vida e seu conhecimento. Que elas podem ensinar, ser fontes de informação principalmente naquilo que o conhecimento contido em livro algum é capaz de descrever, como o aroma de uma receita, um gesto de carinho, um olhar afetuoso.

O bibliotecário precisa aprender que é nas relações que o conhecimento acontece e enquanto não mudar seu modo de ver as pessoas, o ambiente da biblioteca será sempre hostil e frio. E para mudar essa realidade precisar acolher e saber ouvir.

  1. Saber ouvir: cada educando que entra na biblioteca tem um universo, um olhar o mundo e uma realidade de vida. Não é possível olhar para eles e pensar que todos são iguais, isso seria um equívoco enorme.

Um dos motivos que mais provoca desconforto na biblioteca que trabalho é o uso dos computadores pelos alunos do 8º e 9º ano. A regra diz que os computadores são pra ser utilizados somente para pesquisas escolares. Contudo, não é pelo confronto que contornamos essa situação. Nem todos têm computador em casa, então além de utilizar para fazer os trabalhos escolares, eles também precisam conhecer e ficar por dentro do universo de seus amigos, olhando algum site do momento, ouvindo alguma música que alguém comentou. Mas esse olhar só pode existir após abrir-me para ouvir o motivo pelo qual eles queriam tanto acessar a internet “à toa”.

Mas, conforme afirma Paulo Freire, essa relação com educando precisa ser democrática, “não é falando aos outros, de cima para baixo, sobretudo como fossemos portadores da verdade a ser transmitida aos demais, que aprendemos a escutar, mas é escutando que aprendemos a falar com eles”. Aprendi muito os ouvindo. Por exemplo, saiba o nome de cada aluno, pois se você deseja que ele te dê atenção e ouça o que está falando, converse direcionado a ele e não ao grupo como todo. Quando preciso da atenção deles, não adianta falar alto longe deles, me aproximo, encosto minhas mãos nos ombros deles e eles param para me ouvir.

Minha rotina e relação a essa turma especifica, mudou completamente. No horário dos intervalos deles sei que não ficarei um minuto sentada e não terei como fazer nenhum trabalho no computador. Fico passando entre eles, pergunto como estão, ouço do que estão falando e é nesse momento que aprendo sobre suas dúvidas, sobre seus relacionamentos, suas inseguranças, podendo ajudar nas redações, aprendendo sobre futebol e mangá.

Acredito que meu papel com educadora, como Freire descreve, é ajudar o aluno a reconhecer-se como arquiteto de sua própria habilidade de conhecer e a capacidade de aprender, de modo que toda a biblioteca seja esse lugar onde os alunos, professores e funcionários se apropriem, tenham espaço para aprender, ensinar, criar. Como afirmam os professores Edmir Perrotti e Ivete Pieruccini, sejam protagonistas e não só consumidores de informação.

Conforme Freire, minha atuação deve ser pautada na ideia de que “ensinar não é transferir conhecimento”, é saber que sou um ser inacabado, ou seja, não sou dona da verdade e não sei tudo e que o conhecimento se dá na relação com o outro. Quando vejo no outro a esperança de dias melhores, quando quero bem o outro e, principalmente, quando nessas relações existe amor. Não um amor irracional, mas aquele que é capaz de ver beleza no diferente, de saber que posso estar errada e o espaço é de todos, portanto todos precisam ter voz.

E agora, após ter refletido um pouco sobre o curso, posso dizer que cabe muito Paulo Freire na biblioteca. Não estou falando de livros sobre ele e sim a filosofia e o modo de pensar para basear nossas ações. E para finalizar, reafirmo uma frase que usei no meu TCC: “O bibliotecário precisa tornar o espaço da biblioteca um ambiente de trocas, de novas experiências, um lugar acolhedor, agradável, em que todos se sintam bem em estar nele, e deixar de ser um lugar de livros velhos para tornar-se um lugar de ideias novas”.

Fátima Portela Cysne (Biblioteconomia: dimensão social e educativa) já fazia uma crítica à biblioteconomia ao afirmar que a formação voltada para os aspectos técnicos, preocupado com a organização da informação, deixando de lado sua dimensão social e educativa que é criar relações entre o conhecimento produzido e a necessidade das várias camadas sociais, contribuindo com a lógica de poder e dominação, encontrou sem querer o Paulo, aquele que visitou minha biblioteca.

Ele encheu-se de esperança e alegria, pois estava convicto que a mudança é possível. Basta deixar o que está dentro de você, igual o primeiro Paulo que estava dentro de mim, permitir olhar sua realidade, refletir e mudar com a certeza que a educação se faz em todos os lugares, que está além e junto com a sala de aula, ela é uma intervenção com o mundo.

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