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Com um estilo narrativo que mistura o ficcional com o real, Roger Mello é um pioneiro na arte de ilustrar livros no Brasil. Natural de Brasília, desde pequeno tem uma relação muito particular com o livro e sempre foi um leitor assíduo de quadrinhos e peças. Ao falar de sua infância e de sua relação com a leitura revelou que a biblioteca era o coração e a alma da casa onde cresceu e passou sua infância.

Durante a Feira do Livro de Bologna em 2014, Roger se tornou o único ilustrador brasileiro a conquistar o Prêmio Hanus Cristian Andersen, mais prestigiada honraria da literatura infantojuvenil mundial. Premiado na categoria ilustração pelo trabalho com livros-imagem cujas histórias são conduzidas apenas por ilustrações.

Aos 52 anos, ingressou em mais um novo projeto: o seu primeiro romance adulto intitulado “W”, publicado pela editora Global no início de março. Mello revelou que o livro é parte de um processo de ensaio de uma peça de teatro com o Maurício Grecco e destacou a importância de “contar a história e puxar o olho do leitor para a arte”.

Nesta entrevista, o ilustrador e escritor revela como iniciou sua relação com o livro, leitura e bibliotecas; comenta a respeito dos desafios da vida de um ilustrador no Brasil; conta como foi o processo de seu novo livro; analisa a atual situação do mercado editorial brasileiro e por fim deixa uma mensagem de felicitação aos bibliotecários brasileiros.

Você poderia falar como começou a sua relação com o livro, a leitura e de certa forma o contato com as bibliotecas?

É difícil de falar de uma coisa que na verdade sempre fez parte da minha vida. Eu sou de uma casa de leitores, principalmente a família da minha mãe. O contexto da biblioteca era talvez o coração, o elemento mais importante, a alma da casa. E então, cresci vendo os adultos lerem, desde pequeno tinha uma relação com os livros que estavam sendo lidos e ficavam numa mesa baixa. Sempre tive contato com os livros e uma relação como objeto tátil, de arte contemporânea e de performance também. Talvez o livro seja o objeto de arte mais antigo do mundo.

Roger Mello lançou recentemente seu novo romance intitulado “W”. Foto: Hanna Gledyz / Agência Biblioo

Você ganhou muitos prêmios como ilustrador. E como é que é a vida de um ilustrador no Brasil?

A vida do ilustrador no Brasil é dura como em todo lugar. Talvez um pouco mais duro aqui, porque apesar de termos grandes artistas não têm muitos estímulos. Por outro lado, não são poucas as pessoas que trabalham com a promoção e valorização da leitura. Tirando alguns lugares que têm uma tradição muito grande de imagem narrativa, como o Japão, a Coreia, e alguns países da Europa, não todos. A ilustração é um elemento que talvez pareça sofisticado para as pessoas. Não deveria ser. Porque podemos dizer que a ilustração é a forma de arte mais antiga do mundo. Se a gente pensar no Brasil, agora tem ideias de que, por exemplo, o homem da Serra da Capivara e outros assentamentos que se pensam ter até mais do que 40, 50 mil anos. Você já vê a expressão narrativa e na narrativa de imagem você vai falar assim: “O Brasil tem uma tradição como narração de imagens também”. Quando você vê um personagem na Serra da Capivara no Piauí levantando o outro personagem para subir em cima de um animal é evidente que você está contando muitas histórias, mas ao mesmo tempo, você está contando história e dando dados específicos daqueles personagens, eles são personagens, passam a ser personagens. E aquilo tudo pode ser uma simulação, pode ser que não tenha acontecido. Então, acontecendo ou não é ficção. Ou ficção, ou narrativa do que aconteceu no momento. De qualquer maneira, o Brasil pode reconhecer, apesar de achar que não tem essa tradição, está provado na pedra e nos elementos do carbono, que é sim dede o início um país de ilustração, de leitura de imagens.

Você está lançando um novo livro. Conta como surgiu esse projeto e a ideia de publicar “W”, seu primeiro romance adulto?

É engraçado como vejo. Digo que as palavras e as imagens são a mesma coisa. Assim, de muitas maneiras a imagem e a palavra não se dissociam. Não sei se eu também cresci muito no universo, mas o quadrinho sempre foi um livro, um tipo de livro, muito forte para mim. Então a transição da narrativa visual, no quadrinho, para narrativa da palavra ou no livro que não tem desenhos, ela é uma ida e volta, é um feedback. Não acho que essa seja, por exemplo, uma nova fase, ou uma coisa que ficou diferente em mim, ou explorando uma coisa que nunca explorei. Na verdade a maior parte dos livros que faço para criança é pensado também para o adulto, mas esse livro eu queria que as crianças lessem também. Acredito que elas podem ler de diversas maneiras. Algum elemento dele talvez fique um pouco nebuloso demais, mas assim que essa criança crescer um pouco ela pode compreender. Não faria essa distinção tão grande entre literatura infantil, juvenil e para adultos. Acredito que o leitor escolhe o livro. Não tem diferença estar fazendo esse agora. Na verdade esse livro foi sendo feito, ele já tem nove anos e foi parte também de um processo de ensaio de uma peça de teatro com o Maurício Grecco. Mostrando um pouco elementos: o que é o teatro? O que é a imagem? O que é a palavra? Como elemento de expressão narrativa. O importante é contar a história e puxar o olho do leitor para arte.

Entrevista realizada na Livraria Travessa do Leblon durante cerimônia de lançamento do livro. Foto: Hanna Gledyz / Agência Biblioo

E neste contexto brasileiro de crise, principalmente aqui no Rio de Janeiro, temos livrarias passando por dificuldades e grandes sebos tradicionais no Rio de Janeiro fecharam as portas. Com sua experiência de ilustrador e escritor como você avalia o mercado editorial brasileiro?

Não podemos parar. Não existe uma fórmula para fazer que um livro venha a vender e que vai driblar isso. O importante é entregar o seu melhor. Colocar o sangue na tinta, um pouco como o personagem coloca o suor, o sangue e a pele, ele coloca nesse pergaminho que é feito também, nesse papel, nesse vir a ser. Então, da mesma maneira que nunca foi fácil tem que encontrar as maneiras de reverter isso. É uma maneira também de procurar ficar mais perto e de se aproximar do leitor. O Brasil sempre teve grandes promotores de leitura e grandes movimentos. Tivemos outros períodos de vacas magras e de crise, uma série de crises com umas vacas mais gordas no meio. Seria um azulejo ao contrário com mais rejunte do que azulejo. Não estou fazendo o elogio disso, seria muito melhor se as pessoas pudessem ter um pouco mais de tranquilidade. Não pode parar, tem que continuar e ser meio “Caravana Holiday”, levando o melhor e sendo mais exigente.

No mês de março é comemorado o dia do bibliotecário. Qual mensagem que você deixa para todos os bibliotecários do Brasil?

A profissão mais importante do mundo é a de bibliotecário. A biblioteca é o lugar para onde convergem todos os conhecimentos e toda ficção. Sem ficção não tem conhecimento, não existe ciência e sempre foi assim. É o lugar da imaginação – que muitas vezes é desvalorizado – o lugar que dinamiza, que tem que ser o coração da cidade, estar integrado com o espaço urbano, trazendo a exterioridade do espaço urbano para esse interior e que venha a dialogar com o lado de fora. A biblioteca é o lugar mais importante da cidade. Todas as vezes que se pensa e se faz uma biblioteca, ou se equipa, se trabalha esse equipamento, integrando ele e dando a possibilidade de se reciclar e de dialogar com o mundo. Esse lugar sempre modifica o cidadão. Ainda temos uma grande parcela da população que não vai à biblioteca, talvez muito por achar que o lugar não é dela e não pertence a ela. Mas temos vários exemplos no Acre, Brasília e aqui no Rio que tem bibliotecas sensacionais. Nas do Acre os jovens, por exemplo, trabalharam o espaço como eles queriam, decidiram inclusive alguns lugares com grafites, outros eles quiseram organizar os periódicos e os livros. Quando a biblioteca é equipada, ela dialoga, e, mas acima de tudo, quando ela tem bons livros, livros físicos mesmo, é um sucesso e é a profissão de bibliotecário é a mais importante do mundo. Se tiver bibliotecário tem todas as profissões.

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